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Pais de Freddie Mercury integravam uma minoria religiosa: o zoroastrismo

Gill Allen/AP
O cantor Freddie Mercury durante show do grupo Queen, em Sydney, Austrália, em 1985 Imagem: Gill Allen/AP

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

01/12/2018 04h00

Boas ações, boas palavras e bons pensamentos.

Quem assistiu a "Bohemian Raphsody", mais lembrado como "o filme do Queen", atualmente em cartaz no Brasil, provavelmente se lembra deste mantra, proferido algumas vezes pelo pai do cantor Freddie Mercury.

A frase é um dos principais guias do zoroastrismo, religião popular na Índia e no Irã nos anos antes de Cristo, embora hoje quase extinta.

Nascido na Tanzânia como Farrokh Bulsara, Mercury era filho de indianos em uma época em que os dois países eram colônias britânicas. Como parte do seu povo, Bomi e Jer Bulsara eram parses zoroastrianos.

"O zoroastrismo é uma religião monoteísta com muitos dualismos: tem um Deus fundador, Ahura Mazda, o Deus do bem, senhor da sabedoria; e o seu concorrente, Angra Mainyu, a força do mal", explica o teólogo Frank Usarski, livre docente na área de ciência da religião da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

A contraposição entre o bem e o mal é o guia do zoroastrismo. Seus fiéis devem sempre procurar seguir o "lado do bem", com atitudes corretas e bons pensamentos. É o que prega o "Avesta", livro sagrado da religião, formado com anotações de Zaratustra, seu fundador.

"Do ponto de vida dos indivíduos, o zoroastrismo é menos dogmático [do que outras religiões monoteístas]", afirma Usarski, que também é professor de Religiões Orientais na Casa do Saber.

"A religião tem uma forte intenção moral que obriga seus fiéis ao bem. É rigoroso que o seguidor esteja deste lado", afirma.

"Com isso, a ideia é que, no futuro, o bem vença e Ahura Mazda transforme a Terra em uma espécie de Paraíso", conta o professor.

Reprodução/Entertainment Weekly
O ator Rami Malek como Freddie Mercury na cinebiografia do cantor Imagem: Reprodução/Entertainment Weekly

No filme, os pais de Freddie Mercury são retratados como pessoas sérias, corretas e carinhosas. O estudioso explica que é desta forma que um seguidor mais ortodoxo do zoroastrismo procura ser visto.

"A religião fala muito em ética na vida privada e profissional. Tem como principais focos ser trabalhador e acumular prosperidade", explica o especialista. "Eles não têm problema com acúmulo de riqueza desde que o fiel leve a vida de forma ética e ganhe o dinheiro honestamente."

Daí vem a fala repetida no filme. "Pensamento, fala e ação. Você deve pensar coisas positivas, falar coisas boas e agir seguindo as regras éticas", afirma Usarski.

Religião monoteísta mais antiga do mundo?

Há quem diga que o zoroastrismo seja a religião de um só Deus mais antiga do mundo e que teria influenciado as três maiores crenças do planeta: islamismo, cristianismo e judaísmo. Usarski afirma que há diferentes fontes e interpretações, mas é improvável que esta fama seja verdadeira.

O zoroastrismo surgiu com o profeta Zaratustra na região onde foi a Pérsia e hoje é o Irã. O problema é que, após diversas invasões na região, os registros de quando ele viveu não são tão exatos.

"A datação mais antiga [presente em livros] é de 10 mil anos antes de Cristo, mas é improvável. A pesquisa moderna, hoje, fixa algo por volta de 1.200 a.C.", explica o professor. "Logo, seria mais nova do que o judaísmo, por exemplo."

Vahid Salemi/AP
Praticantes do zoroastrismo preparam ritual em celebração à criação do fogo, em Teerã Imagem: Vahid Salemi/AP

Por ser uma religião monoteísta oriental, o zoroastrismo tem fortes elementos do hinduísmo, crença politeísta indiana. Usarski contesta o uso da palavra "profeta" para falar de Zaratustra.

"Religiões orientais tratam de um contato com uma camada da consciência em que as informações são inatas, já estão presentes em todas as pessoas. Então Zaratustra tem este contato e começa a transmiti-lo", explica o professor. "É diferente dos profetas do cristianismo ou islamismo que são escolhidos por Deus por contato direto para propagar Sua palavra."

Domínio do Islã diminuiu zoroastrismo

A religião teve seu auge entre 600 a.C. e 600 d.C. em especial no Irã e na Índia, países de mesma ancestralidade. Hoje, estima-se que tenha entre 2 milhões e 3,5 milhões de fiéis espalhados pelo mundo.

De acordo com Usarski, o fim da popularidade zoroastriana se dá com o crescimento do Islã, com o domínio persa na região. "Nas Cruzadas persas, eles procuravam angariar seguidores para o Islã. Os zoroastrianos não chegaram a ser perseguidos, mas eram convertidos", diz.

Hoje, o foco principal da religião se mantém nos dois países, mas em grande maioria na Índia. "Bombaim ainda é uma cidade em que há muitos zoroastrianos. A religião ainda é famosa por lá. Os parses [como são chamados os indianos seguidores da religião] são uma camada importante e rica da cidade", afirma Usarski.

No Irã, que tem o Islã como religião oficial, eles são uma minoria tolerada. "Os muçulmanos respeitam religiões detentoras de livros sagrados, como é o zoroastrismo. Então eles são tolerados, como uma segunda classe de cidadão, que têm restrições, mas podem praticar sua religião", explica o professor.

A crença chegou a penetrar no Ocidente, mesmo que de forma tímida, em especial por parte dos imigrantes indianos e paquistaneses, de colônias inglesas, como a família Bulsara. Mas nunca chegou a ser realmente expressiva. No Brasil, segundo Usarski, não há registro de fiéis.

Marcel Vincenti/UOL
Templo do Fogo do Zoroastrismo de Yazd, no Irã Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Orações em casa e respeito à natureza

Diferentemente de cristãos, judeus e muçulmanos, os zoroastrianos não usam templos coletivos para fazerem suas orações. Elas são feitas em casa, individualmente.

"O foco se dá em casa, sem sacerdote. A ideia é que devem ser cinco recitações de partes do livro sagrado no dia", afirma Usarski. "Os ritos de passagem, como a iniciação [celebração semelhante ao Bar Mitzvá judeu], o matrimônio e o falecimento, acontecem em público, mas há uma certa desvalorização do ritual diante da ética."

O zoroastrismo também tem uma forte ligação com os elementos da natureza. Usarski brinca que, por isso, pode ser considerada uma religião ecológica. "A terra e os elementos são vistos como algo sagrado, do bem. Por isso eles não devem ser contaminados. Há uma veneração", explica.

Reprodução/Wonderlist
No zoroastrismo, há um ritual para os mortos serem dispostos no alto de templos para que sejam comidos por abutres Imagem: Reprodução/Wonderlist

Na tradição zoroastriana, as pessoas não são enterradas. São submetidas a um ritual curioso: ficam em torres, chamadas de torres de silêncio, alguns dias após sua morte para que urubus comam sua carne.

"É o conceito de devolver e não contaminar a terra. O corpo é colocado nestas torres e os urubus comem. Semanas depois eles voltam e recolhem os restos", relata o especialista.

O ritual, contudo, é cada vez mais raro. "Em Bombaim, ainda se veem algumas dessas torres, mas, tanto pela diminuição de urubus quando pela pressão social, têm sumido. Começou a haver muita reclamação por causa da sujeira, invariavelmente caíam pedaços de carne na vizinhança, então as pessoas, a exemplo de Freddie Mercury, começaram a ser cremadas. Mas enterradas nunca."

Os zoroastrianos também têm uma forte relação com fogo. É comum ver em diferentes rituais da religião o uso deste elemento ao se estabelecer uma comunicação com o divino.