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"Jamais vi a imagem do Brasil tão manchada como hoje", diz Jamil Chade

Arquivo pessoal
Jamil Chade, novo blogueiro do UOL Imagem: Arquivo pessoal

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

2019-02-22T04:00:00

22/02/2019 04h00

Com duas décadas de experiência como correspondente internacional na Europa, o jornalista Jamil Chade estreia um blog no UOL. Responsável por coberturas em mais de 70 países, Jamil vai tratar de bastidores do esporte mundial, escândalos de corrupção e reportagens exclusivas, a partir de Genebra, na Suíça, onde mora.

"Em duas décadas vivendo no exterior, jamais vi a imagem do Brasil tão manchada como hoje. Foram anos acumulados de escândalos de corrupção, megaeventos esportivos que escancararam nossos problemas e, mais recentemente, a eleição de um político repleto de comentários considerados inaceitáveis em muitas partes do mundo. Desfazer essa imagem levará anos e necessitará de medidas concretas. Não adianta apenas um novo discurso", diz.

O ex-correspondente do jornal O Estado de S. Paulo é autor de seis livros, entre eles "Política, Propina e Futebol", além de ser integrante de uma rede de especialistas em combate à corrupção organizada pela ONG Transparência Internacional. Em 2015, foi o convidado da abertura dos depoimentos da CPI do Futebol, que investigou denúncias de corrupção no esporte brasileiro. Também atuou como pesquisador da Comissão da Verdade, que apurou crimes da ditadura militar.

Apartidário sem deixar de ser crítico, o blog será "um espaço para ouvir a todos e, sempre com base nos fatos, cobrar de todos: esquerda e direita, religiosos ou laicos", define Jamil. "Apesar de tratar de política, direitos humanos, meio ambiente e até esportes, haverá uma linha condutora: a necessidade de ampliarmos nossos espaços de liberdade, de empurrarmos essa fronteira. Não é uma atitude de ativista. É o papel da imprensa, de informar e garantir que o cidadão saiba o que está sendo feito de sua vida", afirma ele.

Referência na cobertura de eventos na ONU (Organização das Nações Unidas), Jamil avalia que os organismos internacionais estão analisando o Brasil com enorme preocupação, "principalmente por conta de o país ter assumido desde os anos 90 uma atitude de construir pontes entre diferentes governos".

"Há uma grande inquietação no que se refere à política de meio ambiente do país que, de fato, detém a maior floresta do mundo. Mas há também o temor quanto à política externa, questões de migração, redução dos espaços para defensores de direitos humanos e incapacidade de implementar medidas que possam atender minorias", diz o jornalista.

"No aspecto econômico, porém, existe uma esperança de que a equipe econômica consiga adotar medidas para tornar o país mais competitivo. Mas apostar apenas na economia não garantirá uma resposta positiva da comunidade internacional. A Bolsa pode até continuar subindo. Mas, se ativistas de direitos humanos continuarem a morrer e a floresta for desmatada num ritmo maior, não haverá trégua em relação ao país", afirma o correspondente.

Imprensa precisa resistir usando mais apuração e dados

Jamil diz que não só o Brasil, mas as democracias ocidentais em geral, vivem um momento decisivo. "De direita ou esquerda, superpotências ou bastiões da resistência anti-imperialista, governos vêm encontrando um inimigo comum: a imprensa. Com esse ataque, são valores estabelecidos de direitos humanos e liberdades básicas que estão também sendo questionados. Nesse processo de criminalizar a imprensa, líderes do 'mundo livre' estão lutando por votos por meio de uma estratégia suicida: a de fraturar sociedades e alimentar o ódio", diz o novo blogueiro do UOL.

"Certamente, a corrupção corrói a democracia e mata. Mas a perda de direitos também. Uma resistência, portanto, se impõe. E essa resistência não é ideológica. É resistir ao mundo pós-fato. É a resistência de informar com apuração e dados, de fazer uma autocrítica. Ouvir todos os lados da história, garantir o contraditório. É combater a repressão da esquerda ou da direita, de regimes autoritários ou pseudorreligiosos. É dar oxigênio para a democracia", afirma.

"Precisamos dar conteúdo e responsabilidade à internet, além de encontrar um modelo econômico viável. Ela promoveu revoluções, abriu espaços de liberdade, derrubou tiranos. Mas também, como vimos em recentes eleições em diferentes partes do mundo, as democracias não estavam preparadas para a tamanha onda de desinformação. A desinformação, de fato, sempre existiu. Mas, impulsionada pela internet, também deixou o cidadão desorientado entre o que é fato e o que é manipulação."