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Brasil deixou neutralidade e passou a fazer jogo de Israel, diz embaixador

Embaixador Marcos Azambuja, secretário-geral do Itamaraty entre 1990 e 1992 - Reprodução/FGV
Embaixador Marcos Azambuja, secretário-geral do Itamaraty entre 1990 e 1992 Imagem: Reprodução/FGV

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

02/04/2019 04h00

O embaixador tucano e ex-secretário-geral do Itamaraty Marcos Azambuja afirma que Israel é um grande parceiro brasileiro, mas que a visita do presidente Jair Bolsonaro (PSL) ao país é feita em um momento inadequado, justamente por ser dias antes das eleições no país, marcadas para a próxima terça-feira (9).

O premiê Benjamin Netanyahu concorre à reeleição. Mas, recentemente, foi acusado de fraude, abuso de poder e corrupção. Em sua defesa, o primeiro-ministro disse ser alvo de uma "perseguição política" e de uma "caça às bruxas" para "abater o governo da direita".

Em entrevista ao UOL, o conselheiro emérito do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) e diplomata critica a posição brasileira assumida pelo Itamaraty: "O Brasil abandonou a sua equidistância e passou a fazer um jogo exclusivamente ligado a Israel, o que é um erro", afirma Azambuja. Veja os principais trechos da entrevista:

UOL - Como o senhor avalia a viagem do presidente Jair Bolsonaro a Israel?

Marcos Azambuja - Sou imensamente favorável a uma relação densa e produtiva entre Brasil e Israel, sobretudo na área de ciência, tecnologia e agricultura, em que o país tem muito a nos oferecer. É uma cooperação valiosa e útil. A visita de um presidente brasileiro a Israel, se fosse feita dias depois das eleições lá, seria uma boa ideia. O grande erro foi fazer a visita às vésperas de uma eleição israelense conflitiva e complicada, com um candidato muito acusado pela Justiça de certas atitudes. O Brasil, ao escolher essa oportunidade, se envolveu no jogo interno político israelense, o que é errado. A visita seria valiosa se fosse feita com um novo governo ou com este governo reeleito, mas não agora, com uma carga ideológica excessiva.

Além disso, o Brasil tinha uma atitude que me parecia sábia em relação a Israel: era a defesa do direito de Israel de existir dentro de fronteiras seguras, o reconhecimento de um direito do povo palestino de existir e ter um território, e a necessidade da sociedade internacional de arbitrar este conflito e encontrar um ponto de concordância para palestinos e israelenses.

O Brasil saiu da sua linha de equidistância prudente para uma opção favorável a Israel, que me parece agressiva

Como o senhor avalia esta "carga ideológica excessiva" por parte do Itamaraty?

Vejo com preocupação. Acho que a diplomacia é uma velha profissão, é um velho ofício. Assim como a medicina e a advocacia, é uma profissão que tem certas regras de conduta, portanto desconfio da coisa feita sem levar em conta o peso da tradição, do hábito, do que já foi feito e provado como correto. Tenho medo da inovação que não é acompanhada de uma grande reflexão, que é apenas uma impulsividade momentânea.

Um escritório de negócios não teria um peso diplomático significativo como uma embaixada. Qual é a avaliação do senhor sobre o anúncio feito pelo governo Bolsonaro?

Não, ele não tem um peso diplomático, mas é como se fosse um meio caminho. É uma aproximação. Jerusalém fica a cerca 60 km de Tel Aviv, portanto é uma distância que não dá para fazer a pé, mas dá para fazer de bicicleta. Uma repartição separada em Jerusalém é desnecessária pela própria proximidade entre as duas cidades. Você vai de uma cidade a outra em pouco mais de meia hora. O gesto é mais importante do que a realidade. Nós não assumimos uma embaixada lá, graças a Deus, porque teria sido um desastre com os países islâmicos e os países árabes. E não só com os parceiros árabes, mas com o mundo islâmico, que representa mais de 1,2 bilhão de pessoas no mundo.

Existe uma coisa que eu, como velho profissional da diplomacia, não amo. É a gratuidade, a coisa feita sem que haja contrapartidas e equilíbrio, negociações. Este escritório é apenas um gesto de adesão a um regime que me parece, no momento, fragilizado, como é o governo de Israel com Netanyahu no poder. O Brasil saiu de uma posição segura, que ninguém estava nos cobrando mais além, em que já tínhamos bons negócios com Israel, com os árabes, com os islâmicos, com todo mundo. E agora o embaixador da Palestina pode até ir embora por uns tempos para consulta.

O anúncio do escritório de negócios, na sua avaliação, seria uma derrota para o núcleo mais ideológico dentro do governo, que defendia a mudança da embaixada para Jerusalém?

Não é uma derrota, mas não é o resultado que eles desejavam. O único país que reconhece Jerusalém como capital exclusiva do Estado de Israel são os EUA. O outro país que fez isso foi a Guatemala, ninguém mais. Todo mundo ainda mantém a mesma atitude em relação a Jerusalém, que é uma cidade tão importante e complicada. Ela é sede dos três grandes monoteísmos: não é só sagrada para judeus, é para os cristãos e para os muçulmanos. É da mesquita dourada que Maomé voa para os céus, é ali que Cristo morre, é ali que fica o Templo de Davi. Você não se mete a fazer qualquer coisa em Jerusalém sem uma imensa reflexão e prudência.

Nesse momento, o escritório significa, para Netanyahu, uma validação de certas políticas que os palestinos veem como discriminatórias e tendenciosas. Foi um ato que não era necessário.

Em diplomacia, você não dá tiro no próprio pé. Você não cria problemas, eles virão naturalmente. Você não precisa inventar outros problemas. Há uma gratuidade nisso.

A visita feita por Bolsonaro ao Muro das Lamentações --Trump, por exemplo, fez a visita de forma privada, sem exposição, e Bolsonaro foi acompanhado de Netanyahu com ampla divulgação. Qual foi a avaliação que o senhor fez deste gesto?

O Brasil tem uma posição tradicional antiga de ser um Estado secular, laico, tolerante e favorável a todas as religiões. Nestas circunstâncias, o próprio espaço da visita é contestado. O muro é o que sobrou do Templo de Davi, e ele fica ao lado da mesquita dourada, o Domo da Rocha, que é de onde Maomé subiu aos céus. Tudo ali é carregado de tensão. As proximidades são muito grandes. Acho que fazer um gesto particular de religiosidade com o muro, de forma natural, é aceitável. Mas ir com um chefe de Estado? É como se você quisesse transformar uma relação desvinculada de conflitos e de problemas em uma relação tendenciosa.

Não é o muro, não é o ato de reverência religiosa. Fazer uma parada ali é OK e ninguém questiona. Agora, tudo em Israel tem uma carga política enorme porque é um lugar contestado, tudo ali é disputado. O que se faz em Jerusalém tem um peso político muito grande.

Israel não é um lugar em que você possa visitar desinformado nem ingênuo.

Quem ganhou mais com a visita ao Muro das Lamentações: Bolsonaro ou Netanyahu?

Netanyahu sabe que, além da importância que o Brasil tem, é um país que influencia outros. Somos vistos no mundo como uma espécie de sociedade multirracial e multicultural, e um gesto brasileiro tem um valor importante. Netanyahu é um grande político. Ele está indo para a sua quinta reeleição em um sistema parlamentarista disputado, e isso mostra o talento que ele tem como político. Creio que, para ele, a visita tem um ganho líquido: ele não perde nada com isso, apenas ganha.

Do nosso lado, com esse gesto, desacompanhado --não houve uma visita a Belém, à Igreja da Natividade, a Ramallah--, o Brasil abandonou a sua equidistância e passou a fazer um jogo exclusivamente ligado a Israel. Antigamente, quando você ia a Israel, sempre era feita uma visita às cidades do lado palestino para sinalizar que você estava atento à complexidade da situação. Agora não. Foi um ato exclusivo de adesão as teses israelenses.

Bolsonaro visita o Muro das Lamentações

AFP

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