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Confusão nas prévias e impeachment deixam eleições nos EUA de ponta-cabeça

Eleitores democratas aguardaram dias pelo resultado das primárias em Iowa, o primeiro estado na corrida para eleger candidato - Xinhua/Li Muzi
Eleitores democratas aguardaram dias pelo resultado das primárias em Iowa, o primeiro estado na corrida para eleger candidato Imagem: Xinhua/Li Muzi

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

08/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Problemas nas prévias democratas no Iowa atrasaram divulgação de resultados
  • Trump tem aprovação de 49% dos americanos, segundo pesquisa
  • Senado inocentou presidente em processo de impeachment

A semana não está sendo das mais animadoras para o Partido Democrata nos Estados Unidos.

Os oposicionistas começaram a eleger seu candidato à presidência, que deverá enfrentar Donald Trump, na segunda (3), mas problemas na apuração fizeram com que o processo de arrastasse por dia, adiando a divulgação dos resultados e da vitória de Pete Buttigieg.

Nesse ínterim, acompanhavam o processo de impeachment no Senado, que absolveu o atual presidente na quarta (5) das acusações de obstrução do Congresso e abuso de poder.

As expectativas eram altas, mas deu tudo errado. Em poucos dias, os democratas viram:

  • seu processo eleitoral virar piada;
  • Trump afastar o perigo de impeachment;
  • e, para completar, o presidente aparecer mais popular do que nunca.

A confusão nas prévias democratas

Iowa foi o primeiro estado norte-americano a realizar as prévias do Partido Democrata para escolher o candidato nas eleições gerais de novembro. Era esperado que, neste ponto, já houvesse um resultado de que candidato ganhou e levou mais delegados, mas as coisas não ocorreram como o esperado.

Diferente do sistema brasileiro, cuja urna eletrônica é o modelo padrão, nos Estados Unidos fica a cargo dos estados a decisão sobre como farão seu processo eleitoral.

Assim, os democratas do Iowa optaram por um novo aplicativo que deveria compilar de forma eficiente os mais de 1.600 pontos de votação. Não funcionou.

Desde a semana passada, parte da delegação em diferentes distritos já reclamava sobre a funcionalidade da ferramenta. Tanto que algumas cidades decidiram abandonar o app e passar os resultados à central pelo telefone, como sempre foi feito.

Na segunda à noite, no entanto, os delegados não conseguiram conversar entre si e nenhuma liderança parecia saber exatamente como fazer a contagem.

O partido declarou, então, "falha geral no sistema" e decidiu conferir voto a voto analogicamente.

A ineficiência da nova tecnologia não só atrasou o processo como colocou em xeque sua confiabilidade. A crise foi instalada até entre os próprios pré-candidatos.

"Qualquer campanha que diga que ganhou ou divulgue números incompletos está contribuindo para o caos e a desinformação", declarou Joe Rospars, estrategista-chefe da senadora Elizabeth Warren.

Os democratas Elizabeth Warren, Joe Biden e Bernie Sanders durante debate em Iowa - Robyn Beck - 14.han.2020/AFP
Os democratas Elizabeth Warren, Joe Biden e Bernie Sanders durante debate em Iowa
Imagem: Robyn Beck - 14.han.2020/AFP

"Havia vários cenários possíveis para o ganhador, visto o impacto que ganhar em Iowa geralmente tem. Nenhum desses cenários antecipava a lambança que foi esse cáucus", afirma Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). "Pegou muito mal para o Partido Democrata."

Em clima de campanha, até Trump aproveitou para debochar dos adversários. "O cáucus democrata é um desastre absoluto. Nada funciona, como quando eles comandaram o país", tuitou o presidente na segunda.

"Saíram dois vencedores, nenhum deles estava concorrendo: Trump, claro, e Michael Bloomberg, pré-candidato que decidiu não disputar nestes primeiros estados para encarar os principais mais à frente e que não verá ninguém se destacar", avalia Poggio.

A vitória do azarão Pete Buttigieg, ex-prefeito de uma pequena cidade de Indiana, no noroeste do país, seguido pelo senador Bernie Sanders, faz com que o ex-vice-presidente Joe Biden se sagre como o grande derrotado da rodada, avalia Poggio. "Por isso, para ele a confusão acabou sendo boa, pois coloca sombra sobre sua derrota".

Agora, os americanos deverão voltar seus olhos para New Hampshire, onde acontecerá a próxima primária democrata, no dia 11 de fevereiro.

Não vai ter Impeachment

Pode-se dizer que os democratas estavam tentando superar Trump por duas frentes: eleitoral em novembro e por meio de um impeachment no primeiro semestre.

Sob as acusações de abuso de poder por ações internacionais envolvendo a Ucrânia e obstrução ao Congresso ao impedir testemunhas de prestarem depoimento, o impeachment foi aprovado na Câmara dos Representantes, presidida pela democrata Nancy Pelosi, em dezembro.

Enviado ao Senado no dia 16 de janeiro, o pedido começou a ser julgado no dia 21. Lá, Trump foi absolvido das duas acusações, pondo fim ao processo.

Para ser afastado, o presidente precisaria ter tido contra ele pelo menos dois terços dos cem senadores (67 parlamentares). Foi inocentado por 52 votos a 48 da acusação de abuso de poder, e por 53 a 47 da de obstrução do Congresso.

Sofreu, contudo, uma derrota simbólica após Mitt Romney, ex-candidato do Partido Republicano à presidência, votar pela condenação de Trump por abuso de poder. Essa foi a primeira vez em que um senador votou contra o próprio partido em um processo de impedimento.

"Havia uma certeza de que ele seria absolvido, a pergunta era: quanto tempo vai durar? Foi relativamente rápido. Não tanto quanto os republicanos esperavam, mas os democratas não conseguiram maioria simples nem para chamar testemunhas", avalia Poggio.

Senado dos Estados Unidos absolve Donald Trump

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Mais popular do que nunca

Para completar a onda de azar democrata, o processo de impeachment, que visava pelo menos enfraquecer a imagem de Trump como chefe de Estado, parece tê-lo deixado mais popular do que nunca.

Na última terça (4), a Gallup divulgou que o presidente tem a aprovação de 49% dos americanos. Essa é a maior taxa de Trump registrada por uma pesquisa da instituição desde as eleições, embora fique abaixo dos índices dos antigos ocupantes da Casa Branca.

Segundo Poggio, esta pesquisa revela dois fenômenos inéditos sob Trump: ele é o único presidente a nunca ter ultrapassado 50% de aprovação, mas, por outro lado, também é o único que mantém uma popularidade estável, quase em linha reta, sem perder apoio drástico.

"A segunda pergunta que o impeachment levantava é: qual seria seu impacto político? Trump sairia enfraquecido como [Richard] Nixon ou fortalecido como [Bill] Clinton? Ele ficou no meio-termo, mas mais perto do segundo", avalia Poggio.

"Além dos bons resultados da economia, o impeachment claramente não teve o impacto esperado pelos democratas", conclui.

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