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Política ambiental pode transformar Brasil em vilão para os EUA de Biden

7.ago.2020 - Queimadas em Rondônia, próxima à Flona do Jacundá - Bruno Kelly/Amazônia Real
7.ago.2020 - Queimadas em Rondônia, próxima à Flona do Jacundá Imagem: Bruno Kelly/Amazônia Real

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo

17/01/2021 04h00

O novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, tomará posse no próximo dia 20 com a promessa de reverter várias das políticas de Donald Trump. A principal delas será a ambiental, justamente o tema que coloca o governo de Jair Bolsonaro em choque direto com o futuro governo democrata.

Durante os debates presidenciais, Biden mostrava que não concorda com a atual política ambiental brasileira. Em um deles, chegou a prometer US$ 20 bilhões para proteger a Amazônia e ameaçou o Brasil com retaliações. A fala foi imediatamente respondida por Bolsonaro, que disse não aceitar "subornos".

Assistimos há pouco aí um grande candidato à chefia de Estado dizer que, se eu não apagar o fogo da Amazônia, ele levanta barreiras comerciais contra o Brasil. E como é que podemos fazer frente a tudo isso? Apenas a diplomacia não dá, não é, Ernesto [Araújo, chanceler]? Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão, não funciona. Jair Bolsonaro em 10 de novembro do ano passado

Porém, segundo especialistas em relações internacionais ouvidos pelo UOL, uma política ambiental em que há negação do aquecimento global e vista grossa para queimadas e desmatamentos pode, de fato, fazer os Estados Unidos considerarem o Brasil como um vilão, o que teria um forte apelo entre o eleitorado democrata.

"Isso é uma pauta que agrada as elites norte-americanas'', explica o professor Pedro Feliú, de relações internacionais da USP (Universidade de São Paulo). "É um resultado fácil de ele [Biden] obter, porque ele pressiona o Brasil. Se der certo, ele traz o troféu para casa e fala: 'Eu mudei o comportamento do Brasil na Amazônia, o que é fundamental para o mundo'."

Se o Brasil não se comportar, o troféu para casa vai ser um endurecimento das relações com o país desmatador. E aí o Brasil pode ser o grande troféu norte-americano. Pedro Feliú, professor de relações internacionais da USP

Outro sinal de que o Brasil não terá vida fácil com o novo governo é o nome que Biden escolheu para lidar com os assuntos da América Latina. Juan Gonzalez é um crítico da agenda ambiental de Bolsonaro.

Em qualquer relacionamento que Biden tenha com líderes ao redor do mundo, a mudança climática estará no topo dessa agenda, e isso inclui o Brasil. Juan Gonzalez em entrevista ao Washington Post em outubro

No mesmo mês, ele escreveu no Twitter: "Qualquer pessoa, no Brasil ou qualquer outro lugar, que pensa que pode promover um relacionamento ambicioso com os Estados Unidos enquanto ignora questões importantes, como mudança climática, democracia e direitos humanos, claramente não tem ouvido Joe Biden durante a campanha".

Além disso, o coordenador do curso de relações internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Eduardo Mello, lembra que o governo brasileiro terá mais um agravante no próximo governo americano: ambas as Casas Legislativas terão maioria democrata.

Eles já dominavam a Câmara desde a eleição de meio de mandato de 2018. Mais de uma vez os democratas na Casa tentaram pressionar o Brasil na agenda ambiental. Nas eleições em janeiro, o partido também conquistou o Senado.

A área ambiental vai ser importantíssima para os democratas nesta legislatura. Nos próximos dois anos, que é quando vai acontecer a próxima eleição nos Estados Unidos [para o Legislativo], o tema ambiental vai estar na frente, e o Brasil pode ser visto como um vilão. Eduardo Mello, coordenador do curso de relações internacionais da FGV

A questão agora é sobre como será o comportamento do governo brasileiro em relação à sua política externa. Como já mostrou o UOL, caso o Brasil opte por tentar um relacionamento amigável com o governo Biden, uma troca de chanceler e também de ministro do Meio Ambiente seria vista como um sinal positivo.

"Tudo vai depender da atitude do Brasil. Mantendo constante essa postura trumpista, negacionista e desmatadora, eu acho que certamente vai entrar negativamente na agenda norte-americana e vai isolar o Brasil", diz Pedro Feliú.

Cenário internacional desfavorável para o Brasil

Em um cenário em que os Estados Unidos de fato escolham o Brasil para ser seu grande vilão, a única outra potência que sobraria para ter relações amigáveis seria a China. Porém, as relações com o país asiático já estão desgastadas há um tempo, devido a constantes ataques de políticos brasileiros ao país comunista.

O próprio chanceler brasileiro mais de uma vez associou o novo coronavírus a uma tentativa de controle por parte do país asiático. Segundo especialistas, isso não só arranha o bom relacionamento com um parceiro essencial do Brasil.

"Ironicamente quem não está nem aí para nada disso [questão ambiental] é a China. Só que ideologicamente escolheram a China como pretensa inimiga, ameaça comunista. E aí você esgotou as opções [de parcerias]", diz Feliú.

Por outro lado, é possível que a China veja no isolamento brasileiro uma oportunidade de avançar suas pautas. "A China pode tentar se aproveitar deste momento para tentar avançar algumas pautas, como a questão do 5G", diz o professor da FGV Guilherme Casarões.

O 5G é uma das questões mais delicadas nas relações entre EUA e China. A Huawei foi banida do país americano sob a acusação de representar uma ameaça à segurança nacional. Outros países aliados dos EUA também já negaram o serviço. O Brasil participará neste ano do megaleilão do 5G que terá a participação da empresa chinesa.

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