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Como vulcões podem provocar tsunamis? Pesquisadores explicam

Lava e fumaça são projetadas na erupção do vulcão no parque nacional Cumbre Vieja em El Paso, nas ilhas Canárias de La Palma (Espanha) - BORJA SUAREZ/REUTERS
Lava e fumaça são projetadas na erupção do vulcão no parque nacional Cumbre Vieja em El Paso, nas ilhas Canárias de La Palma (Espanha) Imagem: BORJA SUAREZ/REUTERS

Heloísa Barrense

Do UOL, em São Paulo

20/09/2021 08h46Atualizada em 20/09/2021 21h01

A erupção do vulcão Cumbre Vieja, na ilha de La Palma (Espanha), acendeu um antigo debate sobre a possibilidade de vulcões serem responsáveis pela formação de tsunamis ao redor do mundo. O caso gerou comoção no Brasil por conta de um estudo publicado em 1999, que assinala que uma potencial erupção explosiva - nível mais alto de atividade vulcânica - pode ser capaz de gerar deslizamentos e provocar uma tsunami com força suficiente para chegar à costa do país.

O risco desse cenário, no entanto, é baixíssimo, segundo os especialistas. Mas, afinal, como podem os vulcões provocarem tsunamis?

Guilherme Lessa, doutor em Ciências Marinhas pela Universidade de Sydney e professor e pesquisador na UFBA (Universidade Federal da Bahia) no Departamento de Oceanografia, explica ao UOL que os tsunamis são provocados por uma onda de choque, que se propaga na superfície do oceano.

Eles são diferentes das marés, que ocorrem por atração gravitacional, e distintos das ondas que vemos na praia, que são geradas pelo vento. Os tsunamis são formados por um choque, que pode ser de movimentação ao longo de falhas geológicas ou pela colisão de algo que está acima da água com a própria água, como o deslizamento de uma grande quantidade de terra."

Segundo o pesquisador, os tsunamis não são necessariamente destrutivos. Eles podem ter alturas diferentes, o que inclui fenômenos dimensionados em centímetros até grandes metros. "Isso depende da intensidade do abalo sísmico, ou do volume de terra que desaba", afirma ele.

No caso de uma formação de uma tsunami por atividade vulcânica, o fenômeno, portanto, só poderia ocorrer em decorrência de uma forte erupção explosiva que ocasionasse intensos abalos sísmicos e um grande desabamento de terra na água.

"A lava força a passagem por entre fissuras nas rochas, e isso gera tremores ao longo do processo, mas são muito fracos comparados aos das placas tectônicas. Não são os tremores que geram tsunamis", explica o pesquisador. Ainda que, durante a erupção, o cone vulcânico possa sofrer deslizamentos, o fenômeno isolado não possui energia suficiente para gerar as grandes ondas.

"O que poderia acontecer em Las Palmas, por exemplo, é que os tremores poderiam induzir a queda de uma parte de uma ilha que já está fraturada, que já sabemos que há uma fissura ali", diz. No entanto, não há motivo para grandes preocupações no momento: os volumes de terra que poderiam cair na região das Ilhas Canárias são muito menores do que os propostos no estudo inicial de 1999, tornando a previsão da possível tsunami ainda menor.

Mesmo que ocorra o deslizamento, o potencial dele gerar danos é muito pequeno"

estudo - Arquivo pessoal/Guilherme Lessa/Abadie, pulbicado em Nat. Hazards Earth Syst. Sci., 20, 3019–3038, 2020 - Arquivo pessoal/Guilherme Lessa/Abadie, pulbicado em Nat. Hazards Earth Syst. Sci., 20, 3019–3038, 2020
Estudo mostra que impacto de possível deslizamento de terra provocaria ondas de menos de um metro
Imagem: Arquivo pessoal/Guilherme Lessa/Abadie, pulbicado em Nat. Hazards Earth Syst. Sci., 20, 3019–3038, 2020

Carlos Teixeira, pesquisador do Instituto de Ciências do Mar, da UFC (Universidade Federal do Ceará), diz que o estudo foi pensado em um deslocamento de 500 metros cúbicos. "Mas os maiores deslizamentos que ocorrem geralmente são de 50 ou 80 metros cúbicos. A possibilidade de um tsunami é muito baixa, teria que ter um deslocamento muito grande de terra e em uma velocidade muito alta. Toda essa terra teria que cair de uma vez."

Mas, ainda assim, grandes ondas chegariam ao país?

George Sand França, doutor em sismologia e professor do Observatório Sismológico da UnB (Universidade de Brasília) aponta que os relatos sobre tsunamis provocadas por vulcões são muito raros e, quando há, são em regiões muito próximas às atividades vulcânicas em questão. "Pode ser que possa gerar ondas, mas muito próximas. Não é comparável com os tsunamis como os que aconteceram na Indonésia, em 2004, e no Japão, em 2011", explica.

Ainda, segundo o professor, não é possível mensurar com certeza se fenômenos distantes poderiam chegar à costa brasileira. "Há pesquisadores que acreditam que o terremoto de 1755 que atingiu Lisboa, em Portugal, fez com que uma grande onda chegasse ao Brasil, mas eu ainda sou cético a respeito disso. Existem alguns relatos de que a onda chegou, mas não em proporções tão grandes. O que é interessante é que mesmo se tivesse uma ilha caída que gerasse uma onda gigante, para chegar ao Brasil, viria com um efeito muito pequeno".

Para o professor, os efeitos maiores do vulcanismo estão relacionados à própria emissão de gases que incidem na visibilidade dos locais e na qualidade do ar. "Os casos piores são sobre o estilo e o tipo de vulcanismo, como por exemplo o que aconteceu na Islândia, que a atividade vulcânica atrapalhou o trânsito aéreo", diz. "Também tem a questão das toxinas, que podem causar danos respiratórios".

E as grandes ondas no Brasil?

Muitas vezes, órgãos governamentais emitem avisos de navegação a respeito de grandes ondas pela costa do Brasil. Apesar da perturbação marinha, o fenômeno não pode ser percebido como tsunamis. "Quando passa uma frente fria, um ciclone, ainda que sejam propagadas do hemisfério norte para a costa do Ceará, por exemplo, são ondas geradas por vento, e não tsunamis", explica o professor Carlos Teixeira. "O tsunami é provocada necessariamente por um abalo sísmico."

O Brasil não possui atividades tectônicas e, por isso, não corre grandes riscos quando o assunto são as mega ondas. "A gente está no meio de uma placa tectônica, um abalo sísmico pode chegar aqui - mas de forma muito pequena. Não há motivos para alarme ou pânico", tranquiliza.

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