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Saída de princesa põe em risco continuidade da monarquia japonesa; entenda

Família real japonesa - Divulgação/Império Japonês
Família real japonesa Imagem: Divulgação/Império Japonês

Weudson Ribeiro

Colaboração para o UOL, em Brasília

26/10/2021 23h11

Considerada a mais antiga monarquia contínua na história da humanidade, a Família Imperial do Japão está encolhendo e pode enfrentar uma crise de sucessão nas próximas décadas.

Ao abrir mão esta semana de seu título real depois de se casar com um plebeu, o recém-formado advogado Kei Komuro, a princesa Mako do Japão tornou-se a terceira a deixar a Família Imperial desde o início dos anos 2000 e a nona desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Com a saída dela, a família real do Japão passou a ter 17 membros ante os 67 em 1945.

O casal, que pretendia se casar em 2018, foi alvo de protestos de parte da população japonesa depois de a mídia local afirmar que a mãe do noivo havia recebido um empréstimo equivalente a cerca de R$ 200 mil. O dinheiro teria sido usado para financiar os estudos de Kei. "Eu senti medo, dor e tristeza que informações incorretas tenham sido tomadas como verdade", disse Mako sobre o caso. As agora ex-princesas Ayako (em 2018) e Noriko (em 2014) também abandonaram a Coroa depois de se casarem plebeus.

Poucas opções para elas

Embora deixar de lado as regalias da vida num palácio para se casar com uma pessoa comum possa lembrar o enredo de um conto de fadas, o fato é que as princesas do Japão têm poucas opções com relação à seleção de parceiros. A única alternativa para as mulheres da realeza seria não se casar, a menos que elas resolvam trocar alianças com um parente de sangue masculino —algo quase impraticável numa família em que só três homens são elegíveis para substituir o atual imperador Naruhito no trono: os príncipes Hisahito, 15 anos; Akishino, 55; e Hitachi, 85

Regidas pela Lei da Casa Imperial —instituída em 1947 durante a ocupação norte-americana do Japão após a Segunda Guerra Mundial—, as princesas que se casam com plebeus devem perder o status real. A elas é de direito um dote equivalente a R$ 7 milhões ao deixarem a Coroa. Mako tornou público o desejo de não receber a quantia, decisão sem precedentes no império japonês.

O Japão continua sendo uma das poucas monarquias no mundo em que as mulheres são proibidas de herdar o trono, embora o país tenha tido oito imperatrizes em sua história. Propostas para mudar a lei e permitir que as mulheres ascendam ao trono são reiteradamente contestadas por conservadores no poder, incluindo políticos do Partido Liberal Democrático, do ex-premiê Shinzo Abe.

Hiato de 41 anos sem herdeiros

Os príncipes do Japão podem conferir status real às esposas plebeias. Os filhos deles —mas não as filhas— juntam-se à linha de sucessão para o Trono do Crisântemo. Essa regra tem há milênios garantido a continuidade da dinastia no país. Mas de 1965 e 2006, nenhum menino nasceu na Família Imperial do Japão.

Duas décadas atrás, o então príncipe herdeiro Naruhito e sua esposa, a princesa Masako, estavam tendo dificuldade para conceber um filho. Quando sua única filha, a princesa Aiko, nasceu em 2001, iniciou-se um debate nacional sobre a possibilidade de mudar essa lei milenar para que um dia ela pudesse se tornar imperatriz. A ideia contou com apoio do então premiê Junichiro Koizumi, mas foi posta de lado depois do nascimento do príncipe Hisahito, sobrinho de Naruhito, em 2006.

Dos 17 membros da família real vivos, 12 são mulheres e cinco são homens —incluindo o ex-imperador Akihito que abdicou em 2019, e o titular do trono, Naruhito.

O dever de dar à luz um menino para assegurar a continuidade da linhagem nobre deverá recair sobre Hisahito. Diante da escassez de possíveis parceiras dentro da família, o príncipe precisará buscar uma plebeia para casar. Cobranças para gerar herdeiros homens levaram Masako, a mulher do imperador Naruhito, a sofrer depressão crônica: ela foi durante anos acusada de ameaçar de extinção a dinastia do marido.

Tradição patriarcal

Uma opção para manter a continuidade genealógica na monarquia japonesa seria que as princesas pudessem passar a realeza para seus maridos plebeus. Mas os políticos conservadores se opõem a essa alternativa. O principal argumento é que isso romperia uma linhagem patriarcal de cerca de 2.700 anos. Acredita-se que as origens da Família Imperial remontem ao ano 660 a.C., com o Imperador Jimmu, descendente da Deusa do Sol japonesa Amaterasu. Modificar a lei diluiria essa tradição, considerada sagrada pelos mais tradicionalistas.

Grande parte dos imperadores se casou com mulheres de origem plebeia sem que isso tenha sido visto como obstáculo à pureza do sangue da família. Na antiguidade, concubinas engravidavam de imperadores e davam à luz filhos nomeáveis ao trono. O costume foi abolido após a Segunda Guerra Mundial.

Outra solução sugerida para a questão da sucessão seria ampliar a definição de família imperial estabelecida pela Constituição do país, imposta pelos Estados Unidos, no pós-guerra. A Carta Magna restringiu o número de membros aos descendentes do imperador Taisho (avô de Akihito). A determinação excluiu 11 ramos da família real, cujos integrantes tiveram que renunciar à dinastia.

Pesquisa da Kyodo News realizada em março e abril deste ano mostra que 85% dos entrevistados são a favor de uma imperatriz regente. Outros 79% disseram que apoiariam deixar a imperatriz passar o trono para os filhos.

Esses resultados mostram que o posicionamento do governo japonês está fora de sintonia com o sentimento popular. Cabe aos devotos da família real japonesa a seguinte reflexão: como um rapaz de apenas 15 anos deverá se sentir diante da responsabilidade imposta de carregar sozinho a tradição de um império de quase 3.000 anos?

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