A história de amor proibido entre um agente penitenciário e uma detenta na França

Stéphanie Marteau

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Ela foi presa por homicídio. Ele era agente penitenciário. A união deles, iniciada na prisão, irrita a Justiça francesa

É uma história de amor fora dos padrões, uma história como às vezes surge atrás das grades, entre uma detenta e um agente penitenciário. Essa história, nos últimos dias, assumiu um viés dramático.

Liliane Paolone tem 37 anos. Essa ex-prostituta, que trabalhava na Suíça, está presa em Joux-la-Ville (Yonne, França), condenada a 23 anos de prisão pelo assassinato, em 2005, de Christophe Millet, em Saint-Louis (Haut-Rhin).

Apesar de ter cometido um crime de extrema violência, Liliane Paolone sempre foi uma detenta exemplar, uma morena de olhar alerta de quem as pessoas só se lembrariam devido aos episódios do programa de televisão "Mande entrar o acusado" dedicados a seu caso.

No entanto, ela surtou no último 1º de julho. Em uma carta endereçada a seu advogado, a detenta, grávida de cinco meses de um bebê concebido na prisão, anunciou que iria começar uma greve de fome para protestar contra sua colocação em regime fechado. Segundo ela, essa sanção, normalmente reservada às detentas violentas e perigosas, foi consequência da relação que ela mantém há dois anos com B., um ex-agente penitenciário de 46 anos.

O artigo 20 do código de ética dos agentes penitenciários proíbe que funcionários tenham relações com detentos, inclusive por até cinco anos após a soltura destes últimos ou a retirada de autoridade do agente penitenciário.

Os dois amantes teriam sido pegos no dia 25 de junho bem no meio de uma relação sexual durante uma visita, algo que eles contestam. Desde esse dia, B. foi proibido de fazer visitas. Liliane Paolone aguarda a decisão de uma comissão disciplinar, segundo a qual ela pode ter seu direito de visita suspenso por três meses.

Desde que ela parou de se alimentar, Liliane Paolone diz que não sente mais seu bebê mexer e está com dor nas costas. No entanto, ela não recebeu nenhuma visita médica da unidade de saúde, que, segundo seu companheiro, não teria sido avisada sobre sua greve de fome. Pelo telefone, mal se consegue ouvir a jovem. "Se acontecer algo com ela, não respondo por mim", se exalta B., que afirma que "ela vai morrer se nos impedirem de nos vermos."

Já punidos por motivos similares em maio passado, Liliane Paolone e B. haviam recebido uma pena de um mês de proibição de visita, mal recebida pelo agente penitenciário, uma vez que coincidiu com a negação do pedido de liberdade condicional de sua companheira pelo tribunal de Auxerre, no dia 17 de maio de 2016.

Uma decisão "incompreensível" para o advogado de Liliane Paolone, que lembra "seu percurso carcerário sem percalços, os cursos de formação que ela fez nos últimos dez anos, a indenização das vítimas, o fato de que ela possui um endereço fixo e uma promessa de emprego."

Os amantes oficializaram sua união civil no dia 1º de julho.

17 mil telefonemas em 8 meses

Mas, segundo a sentença da qual o "Le Monde" teve conhecimento, a negação do pedido de liberdade condicional de Paolone foi claramente motivada pelo cargo de B. no momento em que o casal se encontrava na prisão de Roanne (Loire), em dezembro de 2013.

Na época, após uma turbulenta passagem pela direção do centro de detenção masculina (uma campanha de distribuição de panfletos denunciou os atos de violência cometidos por certos agentes penitenciários, incluindo B.), o agente havia acabado de ser nomeado chefe da unidade feminina. Foi em seu escritório, onde Liliane aparecia regularmente para fazer a limpeza, que a história de amor deles começou.

Em janeiro, B. pediu demissão para poder viver plenamente sua relação com Liliane Paolone, uma escolha bastante significativa para esse homem que é um produto típico da administração penitenciária, ex-chefe de seção da Eris (equipe regional de intervenção e segurança) em Lyon entre 2004 e 2007, e que passou pela central de Moulins.

Só que para os olhos da Justiça, ele "infringiu, voluntariamente, proibições básicas incompatíveis com as regras de ética de sua profissão, e continua a desprezar aquelas que regem a conduta carcerária, que ele conhece perfeitamente". Os dois amantes devem comparecer no dia 4 de outubro perante o tribunal correcional de Roanne após a descoberta, em agosto de 2015, de um celular usado por Liliane Paolone.

"A partir de então, eu nunca mais voltei ao trabalho", conta B. "Entrei em depressão".

Os investigadores fizeram um levantamento de cerca de 17 mil telefonemas entre a prisioneira e o carcereiro ao longo de oito meses. Convocado pelos policiais em fevereiro passado, B. "admitiu tudo, exceto ter dado o telefone". "Ela o obteve através de uma companheira de prisão que havia voltado de uma licença", ele explica.

Esse último episódio, na visão de Eric Jallet, procurador da República para o tribunal de Roanne, justifica em grande parte a negação do pedido de liberdade condicional de Liliane Paolone. "Sua situação penal não foi cumprida. A permissão para sair, quando se está sob uma nova pena, constitui um risco de fuga".

B. faz pouco do argumento: "Ela acaba de cumprir onze anos de prisão, e com isso ela corre o risco no máximo de pegar dois meses só em caso de reincidência."

A negação do pedido de liberdade condicional de Liliane Paolone também se baseia na ideia que os magistrados fazem dessa ex-prostituta, que eles suspeitam de ter manipulado seu atual companheiro, que seria crucial para seu plano de saída.

"Não é algo trivial para uma presa seduzir um guarda penitenciário", comenta Eric Jallet. "Sobretudo quando sua relação com os homens costuma se basear na manipulação". Contudo, seria um esquema maquiavélico que nenhuma avaliação psicológica conseguiu comprovar.

Conheça as presas estrangeiras da Penitenciária Feminina de SP

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Tradutor: UOL

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