Pai da austeridade brasileira, Meirelles promete recuperação "progressiva" do país

Claire Gatinois

Em São Paulo

  • Pedro Ladeira/Folhapress

O ministro da Fazenda tem como missão tirar o Brasil da recessão, com reformas difíceis e impopulares. Um desafio e tanto, que não intimida o ex-presidente do Banco Central do país. Ocupar o posto mais delicado e mais exposto do momento não tirou nem sua fleuma, nem sua confiança.

O ex-banqueiro queridinho do mercado, Henrique Meirelles, à frente do Ministério da Fazenda do Brasil desde maio e confirmado no cargo após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, no dia 31 de agosto, se encontra diante de um "grave problema", como ele resume.

Seu país está afundado em uma recessão histórica, sujeito a sérias dificuldades orçamentárias, devastado por um desemprego em massa e abalado por manifestações quase diárias que acusam o novo governo—do qual ele faz parte—de ter fomentado um "golpe de Estado parlamentar" para tirar do poder o PT.

Em sua agenda constam reformas consideradas tão urgentes quanto impopulares: rigor orçamentário, aumento da idade mínima da aposentadoria, flexibilização do mercado de trabalho. De acordo com ele, nada de intransponível. "A recuperação será progressiva", ele afirma, pronto para assumir todos os desafios que vierem pela frente.

Durante a uma hora de conversa telefônica concedida ao "Le Monde", na quarta-feira passada (7), em nenhum momento o septuagenário pareceu hesitar. O ex-presidente do Banco do Central (de 2003 a 2011) do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mal pareceu preocupado de ter sido afetado pelo último escândalo ligado à gestão fraudulenta de fundos de pensão por montantes astronômicos.

A empresa de investimentos J&F, de cujo conselho de administração ele foi presidente por um breve período, está envolvida no caso.

"Meu trabalho se limitou à consultoria", ele minimiza, resumindo seu envolvimento nesse escândalo a "zero, nada". A revolta popular não o preocupa muito mais. "Eu conheço o PT, é um partido militante, vocal", lembra ele, que considera as manifestações "saudáveis e legítimas". E acrescenta: "As vaias fazem parte da democracia."

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Com essa tranquilidade toda, Meirelles embarca em sua missão: salvar o Brasil do marasmo. Para conseguir isso, o filho bem nascido de Anápolis, no Estado de Goiás, tem a vantagem de um carisma herdado de sua participação indireta no governo Lula, que impede que ele seja detestado pela esquerda, ao mesmo tempo em que compartilha das ideias da direita.

Formado em engenharia civil na Escola Politécnica da prestigiosa Universidade de São Paulo (USP), com uma passagem por Harvard, nos Estados Unidos, ele começou sua carreira dentro do Bank Boston, que ele presidiu durante 28 anos, antes de ser indicado, sobretudo pelo seu currículo, para a presidência do braço Lazard nas Américas e para um trabalho de consultoria para o fundo americano KKR.

Foi só quando perdeu totalmente os cabelos que ele decidiu entrar para a carreira política, deixando um cargo de deputado para aceitar, em 2003, a direção do Banco Central a convite do presidente Lula.

Na época, o ex-metalúrgico se serviu dessa figura conhecida em Wall Street para tranquilizar os meios empresariais, que temiam o ex-sindicalista por achar que ele era um revolucionário. Apesar de pertencer à oposição, o PSDB, Henrique Meirelles aceitou, à vontade em uma coabitação que resultou em um crescimento espetacular, uma inflação controlada e no pagamento das dívidas com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Com Lula, não compartilhávamos das mesmas ideias, mas havia um respeito mútuo. Eu tinha muita autonomia", explica. Nos bastidores, o clima na verdade era mais de euforia, como contam Cristiano Romero e Alex Ribeiro, em um grande relato sobre a crise de 2008 publicado pelo jornal financeiro "Valor", em novembro de 2009.

Os dois jornalistas contam que esse adepto da ortodoxia monetária se irritou, após um aumento de mais de 6% do PIB em 2007, por não poder voltar a subir a taxa de juros, contrariado pelo ministro da Fazenda da época, Guido Mantega, que teria dito que "neoliberal tem medo do crescimento."

Adaptabilidade ou até oportunismo

A carta de demissão de Meirelles estava pronta. E só. A ausência de escândalos ilustrava uma outra de suas qualidades, entre as mais apreciadas na política brasileira: a adaptabilidade, para não dizer o oportunismo.

Inicialmente filiado ao PSDB, Henrique Meirelles agora pertence ao PSD, e não tem nenhum problema de consciência de fazer parte de um governo dirigido pelo PMDB, do atual presidente Michel Temer. "Ele muda em função do vento", diz um antigo conhecido seu, que o descreve como extremamente ambicioso.

Por um tempo cogitado para ser ministro da Fazenda de Dilma Rousseff, ele foi descartado sem cerimônias pela ex-presidente, "de cujas ideias ele não compartilha", segundo ele, para usar um eufemismo.

Aos 71 anos de idade, o destino voltou a bater à sua porta, e eis que agora ele é o encarregado de fazer dar certo onde um outro homem do mercado, Joaquim Levy, ministro da Fazenda de janeiro a dezembro de 2015, fracassou.

Caso tenha sucesso, há quem preveja para Meirelles uma possível estatura de presidenciável, assim como Fernando Henrique Cardoso, o FHC, que depois de conter a hiperinflação graças ao Plano Real quando ocupou o cargo de ministro da Fazenda entre 1993 e 1994, foi alçado ao cargo de chefe de Estado.

Em um cenário político brasileiro devastado pelos escândalos de corrupção, poderia Meirelles ser o homem providencial?

A ideia atrai Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central (1983-1985) e diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas. "Meirelles não é somente o queridinho do mercado, ele é competente. Sua visão macroeconômica é coerente", descreve o economista, com um tom de admiração.

A visão de Henrique Meirelles é a de um crescimento que começa pelo rigor. Uma etapa necessária, segundo ele, para restabelecer a confiança que permitirá reduzir as taxas de juros, relançar os investimentos, o consumo e o emprego. Isso explica sua primeira medida que está sendo examinada pelo Congresso, visando limitar durante anos o avanço das despesas do Estado no ritmo da inflação.

Já o deficit do sistema da aposentadoria justificaria o aumento para 65 anos a idade mínima para a aposentadoria (hoje estabelecida em 35 anos de contribuição). Os contornos da "modernização" do mercado de trabalho ainda não foram revelados, mas Meirelles explica que o objetivo é reduzir o custo da mão de obra para empregar com mais facilidade e reduzir o trabalho informal.

"Essas reformas levarão o Brasil de volta para os anos 1990", diz furioso João Cayres, membro da direção nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), sindicato próximo do PT. Para ele, Henrique Meirelles não passaria de um subalterno encarregado do trabalho sujo de um governo a serviço das elites.

"A reforma da aposentadoria só beneficiará os privilegiados que entram na vida ativa uma vez concluídos seus estudos superiores", ele diz, lembrando que os mais pobres muitas vezes começam a trabalhar quando saem da adolescência. Quanto à flexibilização do mercado de trabalho, o sindicalista vê ali só uma desconstrução dos avanços sociais conquistados nos últimos anos.

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Os sindicatos não são os únicos críticos. Uma parte dos economistas se espantam com as prioridades do ministro, duvidando que uma reforma da aposentadoria vá estimular o crescimento, e lamentando não verem nenhum sinal de reforma do sistema fiscal brasileiro, que é pesado e injusto, e que, uma vez otimizado, poderia voltar a encher os cofres do Estado e reduzindo ao mesmo tempo as desigualdades.

 "Meirelles tem uma visão limitada da economia focada na estabilidade financeira e monetária", lamenta André Nassif, professor de economia na Universidade Federal Fluminense (UFF), no Estado do Rio de Janeiro. E critica essa que seria uma política somente capaz de provocar um sobressalto econômico com ares de "voo de galinha".

Ponderado, Henrique Meirelles acalma os impacientes, explicando que cada reforma virá em seu tempo. E àqueles que o acusam de defender o "Estado mínimo", ele responde: "Estado viável". A briga da opinião pública será feia, ele sabe, mas o obstáculo mais sério será político.

O ministro dispõe do apoio maciço do Congresso que faltava no governo de Dilma Rousseff, uma oportunidade extraordinária. Só que os parlamentares são volúveis. E não há muito tempo a perder. Meirelles tem dois anos até a eleição presidencial de 2018 para agir, e alguns analistas já observam que o governo atual em cinco meses até agora falou muito, mas ainda não fez nada.

Tradutor: UOL

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