Brasil está pronto para inspirar um filme de terror, diz diretor de "Aquarius"

Isabelle Regnier

  • Divulgação

O cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho está preocupado com a situação "surreal" que seu país vem atravessando, refletida magnificamente por seu filme "Aquarius"

Nascido em 1968 em Recife, no Brasil, Kleber Mendonça Filho por muito tempo foi crítico e programador de cinema, ao mesmo tempo em que realizava curtas-metragens e documentários. Seu primeiro longa, "O Som ao Redor", lançado na França em 2012, lhe rendeu um belo reconhecimento que "Aquarius" acabou ampliando durante sua apresentação no último Festival de Cannes. Embora esnobado pelo júri, esse filme causou furor na Croisette. E sua equipe, que, do topo da escada passou uma mensagem denunciando o "golpe" que estava acontecendo ao mesmo tempo no Brasil, virou a heroína do festival.

Ao chegar ao Brasil, "Aquarius" sofreu um revés. Depois de ser proibido para "menores de 18 anos", e reclassificado de última hora para "censura 16 anos", após uma disputa com as autoridades, o filme foi descartado da corrida pelo Oscar de melhor filme em língua estrangeira após um processo de seleção altamente polêmico. Quem saiu como vencedor foi "Pequeno Segredo", de David Schurmann (cineasta de documentários para a TV e de um pequeno filme de terror lançado em 2011), que tem poucas chances de permanecer na competição.

Le Monde: "Aquarius" tem provocado muita hostilidade do Brasil. Tem sido muito difícil?

Kleber Mendonça: As coisas me parecem mais surreais. Acabo de ler uma entrevista do procurador encarregado da acusação do Lula que fala sobre a importância da palavra de Jesus no combate à corrupção. Isso poderia ter saído de um filme do Monty Python dos anos 1970. Quando você lê coisas assim na imprensa, você pensa que o Brasil está preparado para inspirar um filme de terror.

Le Monde: Essa intrusão da religião na política é algo novo?

Mendonça Filho: Isso se tornou muito forte nos dez ou quinze últimos anos. Hoje em dia se fala da "bancada evangélica" do Congresso, o que é um absurdo, já que não existe uma bancada judaica ou católica no Congresso. Mas é o sinal do poder dessas pessoas.

Le Monde: Proibir "Aquarius" para menores de 18 anos parece surreal, como você diz. Mesmo para os menores de 16 anos parece algo excessivo, sendo que é um filme onde há pouquíssimas cenas de sexo, nenhuma violência física...

Mendonça Filho: Claro! Mas, no Brasil, os critérios não são os mesmos que na França. Eu imaginava uma censura de 14 anos. "Censura 16 anos", eu até consigo entender. Mas 18 anos não tem sentido nenhum! A maneira como foi pervertido, do início ao fim, o processo de escolha do candidato brasileiro ao Oscar de melhor filme estrangeiro, é muito mais sintomática da realidade sinistra do país. Primeiro, foram procurar um jornalista muito de direita, que havia atacado o "Aquarius" em Cannes sem nem mesmo ter visto o filme, para integrar o comitê de seleção. Vários cineastas retiraram seus filmes da competição em solidariedade ao "Aquarius"; dois dos jurados nem se deslocaram, contentando-se em votar por e-mail, tanto que não houve debate. O presidente do comitê acabou dizendo que ele lamentava não ter anulado o processo, e agora se fala de uma ação na Justiça para invalidá-lo. Mas isso equivaleria a desabonar o ministro da Cultura —um homem que não tem intimidade nenhuma com a cultura, mas que em compensação é muito conhecido por suas "selfies". Ele nos criticou muito após nosso discurso em Cannes, nos acusando de ter constrangido o Brasil. Foi o dia em que o "New York Times" atribuiu a medalha de ouro em corrupção para o Brasil. Eu escrevi para ele para dizer que respeitava seu ponto de vista, mas que ele devia ler o "New York Times", porque, para mim, se alguma coisa estava constrangendo o Brasil, era aquilo.

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Le Monde: "Aquarius" estreou no Brasil dia 1º de setembro. Como foi recebido lá?

Mendonça Filho: Ele fez uma bilheteria de 200 mil espectadores em duas semanas, o que é um ótimo resultado. O filme tem produzido uma energia fantástica nos debates, as pessoas me enviam depoimentos apaixonados pelo Facebook, li excelentes críticas.

Le Monde: No filme estão os temas de todos seus filmes anteriores. A mulher amputada, por exemplo, remete ao seu curta-metragem "Vinil Verde".

Mendonça Filho: Está tudo ligado, certamente, mas de maneira inconsciente. Foi só durante a edição de "Vinil Verde" que me dei conta de que o filme falava sobre a morte de minha mãe. Esse trabalho me permitiu acessar pensamentos, sentimentos sobre minha mãe que eu nunca havia expressado. Com "Aquarius" foi parecido. A ideia da mastectomia me veio enquanto eu escrevia a cena onde Clara voltava da praia. Eu escrevi: "Ela volta da praia, volta para casa, tira a roupa e vemos que lhe falta um seio." As coisas nascem assim. Se elas vêm da minha própria experiência? Com certeza. Seria mais interessante que um personagem tivesse um seio amputado, ou que tivesse os dois seios? Acho que é mais interessante que lhe falte um. Isso o torna mais complexo, mais singular.

Le Monde: Por que você quis que Clara fosse uma crítica de música?

Mendonça Filho: É uma versão disfarçada de mim mesmo, e era mais fácil para mim me projetar em uma personagem de crítica aposentada do que uma dentista aposentada. Também havia um lado prático: essa mulher que vive cercada por discos poderia se tornar uma espécie de juke-box ambulante. Minha escolha também tem a ver com um desejo de colocar em cena um personagem intelectual. No cinema brasileiro, os intelectuais são representados como figuras caricatas, nunca como pessoas normais, que poderiam ter ideias.

Le Monde: Também não havia a ideia de que no Brasil, meio que como em todo lugar, o estilo de vida dos intelectuais da classe média se encontra ameaçado?

Mendonça Filho: É uma espécie de risco, sim. Talvez a França seja o último bastião, nesse sentido, da normalidade.

Tudo tem significado em "Aquarius". Cada acessório, cada canção, cada móvel possui uma história própria. Assim como os arquivos da sequência de abertura, esses objetos são precipitados de passado que explodem no presente, que dão a impressão de que o filme pode acolher o mundo inteiro.

Nós falamos muito sobre a questão dos arquivos, na verdade. Primeiro há aqueles que são objetivamente arquivos, as fotos de Recife do começo do filme. Em seguida há os outros, mais íntimos, ou banais, cada um com sua história. O artigo sobre o John Lennon na capa do disco, por exemplo. Mas também o disco. É um vinil que comprei em Los Angeles, na Amoeba, essa fabulosa loja de discos e de vídeos que será demolida e substituída por um prédio de apartamentos de luxo, como acabo de descobrir. É meio louco. Dentro da capa, tinha esse artigo sobre o John Lennon. À sua maneira, a cômoda também é um arquivo. O simples fato de que ela existe há tanto tempo e que alguém, ao olhar para ela, se lembre de algo, lhe confere um valor imenso. Enquanto eu escrevia, pensava no monólito de "2001: Uma Odisseia no Espaço", um objeto preto, um bloco, que só estava lá, mas que causava apreensão, medo, e estimulava a inteligência humana... Era assim que eu via essa cômoda.

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Le Monde: No apartamento de Clara, tem um pôster de "Barry Lyndon" na parede. Você é fã de Stanley Kubrick?

Mendonça Filho: Sim, assim como muita gente. Mas não tem nenhuma mensagem. Tenho muitos pôsteres em minha casa e queria pendurar um na parede da Clara. Escolhi esse porque "Barry Lyndon" é um belíssimo filme, lançado em 1975. É possível imaginar que ela o tenha visto quando jovem, assim como é possível imaginar que ela descobriu o Queen naquele ano.

Le Monde: Seus filmes se passam em Recife, cidade em permanente transformação. Você sente que tem uma missão de arquivista de sua memória?

Mendonça Filho: Sim, talvez. Acredito profundamente que os filmes de ficção sejam documentários. "Taxi Driver", por exemplo, é uma ficção sobre um taxista que enlouquece e começa a matar as pessoas. Mas é também um formidável documentário sobre a Nova York da época. Se daqui a 60 anos o Aquarius ainda estiver por aqui, será interessante ver que cara tinham em 2015 os apartamentos da classe média burguesa de Recife, os playgrounds, a maneira como as pessoas se vestiam.

Le Monde: Com essa arquitetura anárquica, suas placas de sinalização alertando para o perigo dos tubarões, essa linha divisória entre os bairros ricos e pobres, a cidade aparece como um corpo vivo, quase como um personagem.

Mendonça Filho: Esse não é realmente meu objetivo. O que importa para mim é fazer com que as pessoas entendam como a cidade funciona, revelar seus segredos. Clara caminha na praia com seu sobrinho e a namorada dele, por exemplo, e fala para eles sobre essa fronteira entre os ricos e os pobres. Gosto muito dessa sequência. A maneira como a câmera deixa os três personagens na praia para abrir uma perspectiva sobre todo o litoral, isso também é informação, para mim. Hoje existe todo um debate sobre a quantidade de informações que um filme deveria passar ou não. Em suma, quanto menos passar, mais "cool". Mas, evidentemente, as pessoas esperam que você capte toda a informação que nunca lhe passaram! Acho isso completamente idiota.

Le Monde: Você mencionou a ideia de um filme de terror sobre o Brasil. Existe um projeto?

Mendonça Filho: Não nesse sentido estrito. O que eu leio na imprensa me faz lembrar muito desse filme tcheco, "Orelha", de Karel Kachyna, que não é um filme de terror, mas um filme muito perturbador, porque nada faz sentido. Meu próximo filme é um pouco inspirado nele.

Le Monde: Quem são seus mestres no cinema?

Mendonça Filho: Carpenter, Altman, Spielberg, Wim Wenders dos anos 1970, Godard, Truffaut são os cineastas que me deram vontade de fazer filmes. Sobretudo Carpenter. Ele chegou na hora certa, no início da minha adolescência. "Halloween", "O Nevoeiro" eram filmes formidáveis e muito modestos. Eles me davam a impressão de que eu seria capaz de fazer a mesma coisa.

Le Monde: E o cinema brasileiro?

Mendonça Filho: Eu só descobri mais tarde os melhores filmes brasileiros. Eles eram proibidos aos menores de 18 anos.

Trailer de Aquarius

Tradutor: UOL

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