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Desarmar a Coreia do Norte não é tão simples: veja os 9 passos necessários

William J. Broad, David E. Sanger e Troy Griggs

Do The New York Times

12/06/2018 18h03

O vasto alcance do programa atômico da Coreia do Norte significa que encerrá-lo seria o caso mais desafiador de desarmamento nuclear na história. Aqui está o que deve ser feito para efetuar --e verificar-- a remoção das armas nucleares, o desmonte do complexo atômico e a eliminação das outras armas de destruição em massa do Norte.

O presidente Donald Trump diz que está se encontrando com Kim Jong -un em Singapura porque o líder norte-coreano indicou sua intenção de se "desnuclearizar".

Mas essa palavra significa coisas muito diferentes em Pyongyang e em Washington, e nas últimas semanas Trump pareceu recuar da insistência inicial de um rápido desarmamento de todo o esquema nuclear --armas e instalações de produção-- antes que o Norte receba algum alívio das sanções.

Quer isso aconteça rápida ou lentamente, a tarefa da "desnuclearização completa, verificável e irreversível" --frase que o secretário de Estado, Mike Pompeo, não para de repetir-- será enorme. Desde 1992, o país repetidamente prometeu não testar, fabricar, produzir, armazenar ou utilizar armas nucleares. Ele rompeu todas essas promessas e construiu um amplo complexo nuclear.

A Coreia do Norte tem 141 locais dedicados à produção e ao uso de armas de destruição em massa, segundo um relatório de 2014 da Rand Corp. Apenas um deles --Yongbyon, o principal complexo nuclear do país-- ocupa quase 8 quilômetros quadrados. Recentemente, o Instituto para Ciência e Segurança Internacional, um grupo privado em Washington, inspecionou imagens de satélite de Yongbyon e contou 663 prédios.

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A Coreia do Norte é do tamanho da Pensilvânia. O desafio do desarmamento é agravado pela incerteza sobre quantas armas nucleares o país possui --as estimativas vão de 20 a 60-- e se túneis profundos nas montanhas escondem fábricas e mísseis móveis.

O processo de desfazer mais de 50 anos de desenvolvimento aberto e encoberto da Coreia do Norte, portanto, precisaria começar com a declaração pelo Norte de todas as suas instalações e armas, que os órgãos de inteligência comparariam com suas próprias listas e informações.

Peritos nucleares como David Kay, que chefiou a caçada infrutífera por armas de destruição em massa no Iraque, afirmam que o complexo armamentista da Coreia do Norte é grande demais para que estrangeiros o desmontem. A melhor abordagem, segundo ele, é que inspetores estrangeiros monitorem o desarmamento norte-coreano. As estimativas de tempo variam de alguns anos a uma década e meia --muito depois de Trump deixar o cargo.

A magnitude do desafio norte-coreano fica mais clara quando comparada com antigos esforços para desarmar outros países. Por exemplo, o programa nuclear da Líbia era tão pouco desenvolvido que as centrífugas que o país entregou ainda não tinham sido retiradas de seus caixotes originais. A infraestrutura na Síria, no Iraque, no Irã e na África do Sul era muito menor. Mesmo assim, Israel considerou o desafio tão grande que bombardeou um reator iraquiano em 1981 e um reator sírio em 2007.

Eis o que está envolvido em cada um dos passos principais do desarmamento:

Desmontar e remover armas nucleares

Sob a observação de um Estado nuclear declarado --como os EUA, a China ou a Rússia--, desmontar todas as armas nucleares do arsenal da Coreia do Norte e retirar as peças do país.

John Bolton, o belicoso assessor de segurança nacional de Trump, afirmou que antes que qualquer sanção seja levantada o Norte deve entregar todas as suas armas nucleares aos EUA, remetendo-as ao Laboratório Nacional Oak Ridge, no Tennessee, para onde inspetores enviaram o equipamento de urânio da Líbia.

É quase inimaginável que o Norte simplesmente enviaria suas armas --ou que o resto do mundo ficaria convencido de que havia entregado todas.

Siegfried S. Hecker, um professor de Stanford que já chefiou o laboratório de armas Los Alamos no Novo México, afirma que a única maneira segura de desmontar o arsenal nuclear do Norte é colocar o serviço, sob inspeção, nas mãos dos mesmos engenheiros norte-coreanos que construíram as armas. De outro modo, disse ele, pessoas não familiarizadas com os detalhes poderiam acidentalmente detonar as armas nucleares.

Deter o enriquecimento de urânio

Desmontar as usinas onde as centrífugas giram em velocidade supersônica para fabricar combustível para reatores nucleares e bombas atômicas.

As fábricas que contêm centenas de centrífugas giram o urânio gasoso até que seja enriquecido em uma forma rara do elemento que pode abastecer os reatores --ou, com mais enriquecimento, armas nucleares.

É fácil fechar essas usinas e desmontá-las. O problema é que elas são relativamente simples de esconder no subsolo. A Coreia do Norte mostrou uma dessas fábricas, em Yongbyon, mas agências de inteligência dizem que deve haver outras. O relatório da Rand de 2014 estima que haja cinco usinas de enriquecimento.

Como o urânio pode ser usado para abastecer reatores que produzem eletricidade, a Coreia do Norte quase certamente afirmará que precisa manter algumas usinas de enriquecimento para fins pacíficos. Isso representa um dilema para o governo Trump.

No caso do Irã, os EUA insistiram que todas essas usinas fossem fechadas permanentemente. Depois de afirmar que o governo Obama fez um "péssimo acordo" ao permitir a continuação de um enriquecimento modesto no Irã, é difícil imaginar como Trump poderia aceitar menos que um fechamento total na Coreia do Norte.

Desativar reatores

Fechar os reatores nucleares que transformam urânio em plutônio, um segundo combustível para a bomba.

Dentro de um reator, parte do urânio nos bastões de combustível é transformada em plutônio, que dá um combustível para bomba muito interessante. Em termos de peso, o plutônio produz explosões nucleares muito mais poderosas que o urânio. Em 1986, em Yongbyon, a Coreia do Norte começou a operar um reator de 5 megawatts, que segundo analistas produziu o plutônio para as primeiras bombas atômicas do país. Hoje o Norte está encomendando um segundo reator, muito maior.

Os reatores são difíceis de esconder: eles geram enorme quantidade de calor, o que torna extremamente fácil identificá-los por satélites.

Mas os reatores que produzem grande quantidade de eletricidade --como o novo que está sendo feito na Coreia do Norte-- representam um dilema, porque o Norte pode legitimamente argumentar que precisa de energia elétrica. Parece provável que o governo Trump será duro com o novo reator do Norte, mas poderia afinal permitir sua operação se o Norte concordar que os produtos usados numa bomba sejam enviados para fora do país.

Fechar locais de testes nucleares

Confirmar que as recentes explosões exibidas pelo Norte realmente destruíram os túneis profundos e a infraestrutura, ou tomar medidas adicionais para tornar o complexo inutilizável.

As bombas atômicas e de hidrogênio precisam de vários testes para verificar seu desempenho. Desde 2006, o Norte detonou dispositivos nucleares pelo menos seis vezes em túneis profundos no monte Mantap, um pico de cerca de 1.600 metros na região montanhosa do país.

No mês passado, o Norte explodiu portais de túneis de testes no monte Mantap como gesto de reconciliação antes das planejadas conversas sobre desnuclearização. Especialistas dizem que as espessas nuvens de fumaça e detritos, embora impressionantes na televisão, deixam em aberto a questão de se os danos são irreversíveis. Supostamente, o Norte também poderia escavar novos locais de testes sob outras montanhas. O governo Trump pediu o fim de todos os testes explosivos.

Acabar com a produção de combustível para a bomba H e fechar usinas de combustível exótico capazes de fazer bombas atômicas centenas de vezes mais destrutivas

No núcleo de uma ogiva de guerra, uma bomba atômica explodindo pode atuar como um fósforo superquente que incendeia o combustível termonuclear, também conhecido como combustível de hidrogênio. A explosão resultante pode ser mil vezes mais potente que a bomba de Hiroshima. A Coreia do Norte teria pelo menos dois locais para diferentes aspectos da produção de combustível para a bomba H --um em Yongbyon e um perto de Hamhung, na costa leste do país.

Os combustíveis exóticos também têm usos civis para a fabricação de iluminação que brilha no escuro, placas de saída e luzes de pistas de aeroportos. A posição do governo Trump não está clara. Especialistas atômicos dizem que a ameaça militar pode ser reduzida com o fechamento das grandes usinas, construção de fábricas menores e regulamentação cuidadosa de seus produtos.

Inspecionar em todo lugar, para sempre

Em um país montanhoso, dar aos inspetores internacionais a liberdade para se movimentar e inspecionar qualquer lugar --com monitoramento automatizado dos locais chaves.

Sob antigos acordos nucleares, inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica moraram na Coreia do Norte, mas seus movimentos eram limitados a pequenas partes da gigantesca instalação de Yongbyon, onde estão situados os reatores nucleares do país. Para que as inspeções sejam eficazes, devem cobrir o país inteiro, incluindo as instalações militares. (Uma das queixas de Trump sobre o acordo com o Irã foi que os inspetores eram impedidos de ir a qualquer lugar.)

Mas inspecionar toda a Coreia do Norte --terra de túneis subterrâneos-- seria uma enorme tarefa. Os órgãos de inteligência dos EUA gastaram bilhões de dólares observando a movimentação de mísseis, mapeando instalações e usando satélites espiões e reconhecimento cibernético para rastrear as armas. Mas eles certamente cometeram erros e não viram algumas instalações. O problema aumenta quando os inspetores estão procurando bunkers subterrâneos que escondem mísseis para ataques rápidos.

Destruir armas biológicas

Eliminar antraz e outras armas biológicas mortais, sob constante inspeção.

As armas biológicas podem ser mais destrutivas que as nucleares. Um único galão (3,78 litros) de antraz concentrado teria bactérias suficientes para matar toda a população da Terra. O desafio é como utilizar as armas vivas. Os ataques com antraz em 2001 nos EUA utilizaram cartas, matando cinco pessoas, deixando outras 17 doentes e assustando o país inteiro.

A Coreia do Norte é suspeita de possuir um grande complexo para fabricar armas biológicas. O problema é saber suas verdadeiras dimensões e verificar seu desmanche. Enquanto os testes nucleares e de mísseis anunciam abertamente sua evolução, a produção e os testes de patógenos mortíferos podem ocorrer a portas fechadas.

Além disso, os especialistas afirmam que o equipamento para a produção de armas biológicas é muitas vezes idêntico ou semelhante ao de medicamentos e agricultura, tornando extremamente difícil ou impossível que pessoas de fora verifiquem se o trabalho com armas de germes realmente terminou. A posição do governo Trump não é clara, além de querer que o Norte encerre todo o trabalho com armas biológicas.

Destruir armas químicas

Elimina o gás sarin, VX e outros agentes letais que o Norte usou contra inimigos.

No ano passado, o agente nervoso mortal VX foi usado para assassinar Kim Jong Nam, o meio-irmão rejeitado pelo líder norte-coreano. A morte revelou a longa busca do Norte por armas químicas. Embora o país negue sua posse, especialistas classificam o país entre os mais equipados do mundo, dizendo que abriga milhares de toneladas das armas proibidas.

A lista de negociação do governo Trump com o Norte inclui o desarmamento químico. A Síria é um lembrete da dificuldade. O presidente Barack Obama fechou um acordo com Damasco sobre a destruição de seu arsenal de armas químicas. Neste ano, os EUA acusaram o governo sírio de usar as armas proibidas pelo menos 50 vezes desde o início da guerra civil, superando as estimativas anteriores. Os ataques feriram e mataram centenas de milhares de sírios, incluindo muitas crianças.

Conter o programa de mísseis

Eliminar a ameaça de mísseis de longo alcance aos EUA e dos mísseis de médio alcance ao Japão e à Coreia do Sul.

Em novembro, o Norte testou um míssil balístico intercontinental muito aperfeiçoado que voou mais longe que qualquer outro --o suficiente para ameaçar todo os EUA. Foi uma conquista notável, que levou ao auge a escalada da crise atual. Enquanto especialistas dizem que o Norte ainda precisa fazer mais testes para garantir que as ogivas de mísseis sobrevivam à reentrada na atmosfera, o voo de teste mostrou que Kim chegou muito perto de conseguir uma arma capaz de ameaçar cidades americanas.

Conter o programa de mísseis do Norte está no topo da lista de negociação do governo Trump. Uma simples precaução é limitar o alcance dos voos de teste --algo bastante fácil de monitorar. Uma questão chave é se os negociadores de armamentos também tentarão redirecionar o grande corpo de engenheiros de foguetes do Norte para atividades pacíficas, como a fabricação e o lançamento de satélites civis.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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