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O 'álibi científico' que pode inocentar os morcegos da pandemia de coronavírus

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24/06/2020 09h10

Pensar sobre morcegos deixa Iroro Tanshi emocionada. "São obras de arte!", ela diz.

Tanshi, doutoranda nigeriana na Texas Tech University, nos Estados Unidos, está entre um grupo considerável de cientistas que desejam corrigir a imagem negativa dos morcegos — uma reputação que foi piorada pela possibilidade de eles terem sido parte do início da pandemia de coronavírus.

Relatos de matanças em massa de morcegos, da Austrália à Indonésia, alarmaram os conservacionistas em todo o mundo.

Eles explicam que culpar os morcegos, na verdade, deixa os verdadeiros culpados de fora.

Por que algumas pessoas culpam os morcegos?

Iroro Tanshi atribui o medo de morcegos aos nossos equívocos, porque sua natureza noturna os torna difíceis de observar - Chidiogo Okoye/SMACON/BBC - Chidiogo Okoye/SMACON/BBC
Iroro Tanshi atribui o medo de morcegos aos nossos equívocos, porque sua natureza noturna os torna difíceis de observar
Imagem: Chidiogo Okoye/SMACON/BBC

As pessoas estão culpando os morcegos porque o vírus Sars-Cov2, que causa a covid-19, é 96% semelhante a outro vírus anteriormente detectado em morcegos selvagens, explica Tanshi.

Isso transformou todos os morcegos em suspeitos. Mas os morcegos têm um álibi científico.

"Pesquisas evolutivas recentes mostram que, cerca de 40 a 70 anos atrás, o vírus Sars-Cov2 se separou do vírus encontrado em morcegos-ferradura", diz Tanshi, "fornecendo mais evidências de que os morcegos podem não ter transmitido diretamente o vírus Sars-Cov2 aos seres humanos. "

Paul W. Webala, professor sênior de biologia da vida selvagem da Universidade Maasai Mara, no Quênia, concorda. "Em termos evolutivos, morcegos e humanos estão bem distantes um do outro e, portanto, se o SARS-CoV-2 realmente veio de morcegos, pode ter passado por algum hospedeiro intermediário."

Ou seja, se de fato os morcegos foram a origem do vírus, eles ainda não foram os que nos transmitiram. A suspeita recai sobre os pangolins como potenciais intermediários.

Então, quem é o 'culpado'?

Na zona rural do Quênia, onde Webala cresceu, acreditava-se que as pessoas com morcegos no quintal eram bruxas, que mantinham morcegos para atrair riqueza - Dr Paul Webala/BBC - Dr Paul Webala/BBC
Na zona rural do Quênia, onde Webala cresceu, acreditava-se que as pessoas com morcegos no quintal eram bruxas, que mantinham morcegos para atrair riqueza
Imagem: Dr Paul Webala/BBC

Tanshi e seus colegas cientistas concordam enfaticamente que os humanos, e não os morcegos, são os culpados pelo atual surto e pela propagação do vírus.

Webala diz que a atividade humana criou a "tempestade perfeita" para a pandemia. "A invasão humana de habitats silvestres e a consequente perda e degradação deles, bem como o transporte, armazenamento e comércio de animais silvestres são atividades que criam condições ideais para a transmissão de patógenos entre espécies que não tiveram contato anterior."

"Várias evidências mostram que o risco de surtos zoonóticos (surtos de doenças que se originaram em animais, mas saltaram para os seres humanos) aumenta com a destruição do habitat", diz Tanshi.

Matar morcegos não nos protegerá do coronavírus. Pelo contrário, destruí-los em massa e deslocá-los de seus habitats poderia piorar a situação, apontam os conservacionistas.

Dormir de cabeça para baixo é uma adaptação brilhante: competição quase zero por espaço para descanso e sempre pronto para voo em caso de emergência - Getty Images/BBC - Getty Images/BBC
Dormir de cabeça para baixo é uma adaptação brilhante: competição quase zero por espaço para descanso e sempre pronto para voo em caso de emergência
Imagem: Getty Images/BBC

"Cerca de 70% das mais de 14 mil espécies de morcegos são insetívoras, o que significa que se alimentam apenas de insetos e outros artrópodes", diz Webala.

"Muitos dos insetos aéreos e noturnos comidos por morcegos são vetores de patógenos relevantes para a saúde humana", diz ele. Em outras palavras, eles carregam doenças que afetam os seres humanos, incluindo dengue e malária.

Atacar e deslocar morcegos provavelmente aumenta o número de surtos de doenças.

Como os morcegos beneficiam seres humanos?

Morcegos polinizam mais de 500 espécies de plantas - Getty Images/BBC - Getty Images/BBC
Morcegos polinizam mais de 500 espécies de plantas
Imagem: Getty Images/BBC

"Se você está vestindo algodão, se bebeu café ou chá, se comeu alimentos à base de milho ou um dos muitos alimentos agrícolas, seu dia já foi influenciado por morcegos", diz Webala.

Os morcegos fornecem serviços vitais para o ecossistema, como polinizadores, espalhadores de sementes e controladores de pragas. Tudo, de alimentos a cosméticos, móveis e remédios, exige atuação de morcegos.

Sem eles, a Indonésia não teria uma colheita bem-sucedida de durião, Madagascar perderia seus icônicos baobás e as plantações de macadâmia seriam devastadas.

"Os morcegos espalham mais que o dobro de sementes que os pássaros", diz Webala, "permitindo fluxo vital e reflorestamento de florestas fragmentadas nos trópicos".

Segundo vários estudos, apenas nos EUA, os morcegos representam uma economia de bilhões de dólares por ano em pesticidas e reduzem os danos às culturas.

O que mais torna os morcegos tão especiais?

Morcegos são os únicos mamíferos capazes de voar - Wellcome Collection/BBC - Wellcome Collection/BBC
Morcegos são os únicos mamíferos capazes de voar
Imagem: Wellcome Collection/BBC

"Os morcegos são animais surpreendentemente bem-sucedidos: são encontrados em todos os continentes, exceto na Antártida", diz Tanshi. "Como pesquisadora de morcegos, explorei cavernas, florestas, montanhas e savanas."

Os morcegos se destacaram na adaptação evolutiva, acrescenta ela.

"Dedos como asas, navegação por ecolocalização e visão estelar que lhes permitiu colonizar o céu noturno. Se ser mamífero é uma arte, os morcegos seriam obras-primas!"

Webala compartilha esse entusiasmo e apresenta um argumento pragmático para sua conservação.

"Os morcegos podem ter um ótimo sistema imunológico especialmente adaptado para tolerar patógenos e doenças. Essa notável resiliência poderia potencialmente gerar novas terapias para reforçar as defesas antivirais humanas."

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