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Meio Ambiente

Análise: Por que Biden pode fazer história no combate às mudanças climáticas

Joe Biden discursa em Scranton - Angela Weiss / AFP
Joe Biden discursa em Scranton Imagem: Angela Weiss / AFP

12/11/2020 15h04

O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, assumirá a Casa Branca com a promessa de trazer o país "de volta ao jogo" das lideranças mundiais e colocou o combate às mudanças climáticas no foco da sua futura gestão. Mas, para além dos discursos, dá para esperar milagres em um tema em que os Estados Unidos sempre atuaram na defensiva?

Para o biólogo Carlos Rittl, pesquisador visitante do Instituto de Estudos Avançados em Sustentabilidade de Potsdam, na Alemanha, a resposta é sim. Biden se comprometeu não apenas em reverter a decisão de Donald Trump de retirar o país do Acordo de Paris sobre o Clima, como pretende "ir muito além".

"Os Estados Unidos voltam à mesa de negociações e isso é muito significativo. Na sua plataforma de governo, Biden aponta para a neutralidade de carbono até a metade do século, algo que já foi anunciado pela União Europeia e outros países", diz.

"A China pode se encaminhar para isso em meados desse século e outros grandes países estão fazendo o mesmo", complementa Rittl, um dos maiores especialistas do país em negociações climáticas internacionais.

No plano doméstico, o primeiro passo será revogar as mais de uma centena de medidas de desregulamentação ambiental adotadas por Trump. Em resumo, os decretos diminuíram limites de emissões de gases de efeito estufa, prejudicaram avanços para a redução da poluição dos veículos e reativaram a nociva indústria fóssil, como o carvão.

Maioria republicana no Senado pode atrapalhar

Mas Biden não deve se limitar em apenas voltar à estaca zero dos anos pré-Trump. Rittl ressalta que o presidente democrata vai contar com muito mais apoio de Estados, empresas e da sociedade em geral para emplacar uma agenda ambiental mais ambiciosa do que a do ex-presidente Barack Obama.

"Com estímulo, ele poderia levar a um boom muito grande de determinados setores, como a energia soltar e a fabricação de carros elétricos, e ser um passo importante para uma recuperação econômica acelerar. Essa indústria já gera milhares de novos empregos nos Estados Unidos", frisa. "A indústria do carvão não acabou por causa da regulação do Obama, mas por forças de mercado."

O desenvolvimento de uma economia verde é a cereja do bolo do programa do democrata, um plano de desenvolvimento sustentável de US$ 2 trilhões.

Para este objetivo, porém, será necessário o apoio do Congresso, salienta Philip Fearnside, pesquisador americano do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), radicado há mais de 40 anos em Manaus.

"Tem a eleição na Geórgia, em janeiro, que vai decidir quem controla o Senado. Me parece importante porque se os republicanos continuarem controlando o Senado, e se continuarem negando o aquecimento global, como vêm fazendo, será um impedimento grande. Mas, mesmo sem isso, dá para fazer bastante coisa, embora sempre exista o perigo de haver outras prioridades na frente - e, no momento, é o coronavírus", ressalta.

Influência mundial e no Brasil

A mudança de posicionamento dos Estados Unidos exerce um papel decisivo no cenário mundial - historicamente, o país sempre foi um dos mais avessos a compromissos globais para limitar as mudanças climáticas.

A devastação da Amazônia também entrou no radar do democrata, que ameaçou o Brasil de sanções comerciais se os índices de desmatamento continuarem em alta.

"É muito mais sensato do ponto de vista brasileiro não desmatar a floresta amazônica e limpar a cadeia da produção exportada. É do interesse do país manter a floresta amazônica", constata Fearnside. "Não é que o resto do mundo esteja tentando enganar o Brasil e fazer alguma coisa contra os interesses do país."

Em Brasília, os comentários de Biden foram mal recebidos - o presidente Jair Bolsonaro insiste em evocar a soberania nacional na gestão do problema. Mas para Carlos Rittl, apesar da retórica de confronto, o governo brasileiro não ficará indiferente ao aperto que virá dos Estados Unidos.

"Eu não tenho dúvida disso, porque todo posicionamento adotado pelo presidente Jair Bolsonaro anticlimático antiambiental tinha o respaldo no seu ídolo do norte. Essa mensagem do Bolsonaro, que mais parece uma conversa de churrasco, não vai funcionar com a maior economia do mundo", sublinha o especialista brasileiro. "Se o Brasil quer ter ainda um espaço significativo no mundo e no mundo dos negócios, ele vai ter que se ajustar."

Philip Fearnside destaca ainda que a pressão do agronegócio e dos demais parceiros comerciais do Brasil tende a se tornar cada vez mais insustentável.

"Não é só os Estados Unidos: os países da Europa têm a mesma preocupação. A grande questão é a China, que até agora tinha tido pouquíssima preocupação com o meio ambiente, principalmente fora da China", lembra. "Mas, nos últimos tempos, tem ficado bem mais séria em relação ao problema climático. Se eles passarem a colocar alguma condicionante sobre o desmatamento, seria um outro jogo", adverte.

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