Foragidos sérvios enfrentam cerco da Otan

Charles M. Sennott

Pale, Bósnia-Herzegovina - Tudo indica que Radovan Daradzic e Ratko Mladic estejam trocando constantemente de esconderijo.

Os líderes sérvios são os dois suspeitos mais procurados entre aqueles que podem ser condenados por crimes internacionais de guerra no tribunal de Haia. Acredita-se que os dois tenham saído e entrado neste reduto sérvio durante vários anos, o que representa uma violação de leis internacionais.

Agora, passados seis anos desde o indiciamento dos dois homens, cuja liberdade impede a efetivação de acordos duradouros de paz para a região, autoridades da Otan afirmam estar muito próximas da captura desses fugitivos.

Em Sarajevo, o comandante de campo da missão de paz da Otan na Bósnia, o general americano Michael Dodson, revelou nesta semana a repórteres que a Otan conhecia o paradeiro dos fugitivos, mas se recusou a revelar sua localização.

"Não tenho dúvidas de que estes homens serão entregues à Justiça; para eles, a movimentação está se tornando cada vez mais difícil", disse ele em uma entrevista coletiva.

Pale, uma pequena cidade montanhesa arruinada próxima a Sarajevo, funcionou como quartel-general dos sérvios durante a guerra, e continua a ser um dos mais radicais e rancorosos redutos sérvios. Aqui os sérvios cristãos ortodoxos guardam um profundo ódio contra os bósnios muçulmanos, e aqui a guerra, e toda a sua brutalidade, é compreendida somente sob o prisma da vitimização dos sérvios.

Contudo até mesmo os moradores de Pale parecem ter se esquecido de Karadzic e Mladic, que ao longo de vários anos manipularam as emoções dos sérvios e os instigaram para a guerra. Poucos moradores agora se dispõem a defender os dois fugitivos e os atos de crueldade executados pelos combatentes sérvios sob seu comando.

E como a pobreza do pós-guerra afetou Pale de maneira especialmente violenta, a recompensa de US$ 5 milhões (aproximadamente R$ 12,5 milhões) oferecida pelos Estados Unidos para quem os capturasse e tentadora o bastante para que autoridades da Otan não encarem a cidade como um santuário para os dois fugitivos.

Karadzic e seu mais alto general, Mladic, foram indiciados em julho de 1995 por aquilo que se definiu como o mais grave crime de guerra cometido na Europa desde a Segunda Guerra Mundial: o massacre da pequena cidade de Srebrenica, na região oeste da Bósnia, aonde mais de sete mil homens e garotos muçulmanos foram executados sumariamente e lançados em valas comuns.

As valas comuns de Srebenica e outras regiões em que foi implementado o programa de "limpeza étnica" continuam a ser exumadas na Bósnia.

Quando os helicópteros e as tropas da Otan cercaram estas montanhas na semana passada, corria em Pale e em outros redutos sérvios o rumor de que as forças estrangeiras estavam prestes a capturara Karadzic e Mladic. A Otan garantiu que toda a movimentação não passava de um exercício, e alguns altos dirigentes da ONU declararam que a Otan provavelmente estaria treinando para capturar os fugitivos.

Supõe-se que Karadzic esteja viajando em um comboio fortemente armado, e cercado por guarda-costas. Mladic, pelo que se sabe, viria se escondendo em uma série de antigos abrigos construídos pelo Marechal Tito.

Dodson afirmou que as forças da Otan não acreditam que os dois fugitivos estejam na Bósnia, e alguns altos oficiais da Otan declararam que Karadzic e Mladic talvez estivessem ou na Iugoslávia ou em Montenegro, o que traria mais dificuldades para a Otan, uma vez que seu mandato de prisão só é válido para o território bósnio.

Em defesa da atuação da Otan na Bósnia, apesar da não-captura dos fugitivos, um capitão da Otan declarou: "As pessoas ficam se perguntando: 'mas eles têm 20 mil soldados e não fizeram nada até agora? Nós estamos fazendo outras coisas muito importantes por aqui. Não somos capazes de estar em todos os lugares ao mesmo tempo".

A região oeste da Bósnia, aonde os dois homens supostamente teriam mantido inúmeros esconderijos nos últimos seis anos, é controlada pelas forças francesas da Otan, o que levantou suspeitas entre investigadores que advertem sobre a antiga simpatia dos franceses pelos sérvios. Em 1997, duas autoridades francesas da Otan teriam, segundo se afirma, passado para Karadzic algumas informações que impediram a sua captura.

Na quermesse municipal de Pale, que comemorou a Festa Ortodoxa da Assunção, uma banda tradicional sérvia executou uma canção nacionalista que trata dos fugitivos como heróis. Mas nem todos aqui neste reduto sérvio partilham desta opinião.

"As pessoas que defendem Karadzic e Mladic ficam apenas no discurso", afirmou Miladen Ristic, 39, gerente de um hotel que pertence à sua família. "A verdade é todos pensam de outra maneira agora. Não temos empregos. Os salários são baixos. As pessoas só têm tempo para pensar no seu próprio destino, e não para pensar em Karadzic ou Mladic. Ninguém mais se preocupa com eles".

Alexandra Stiglmayer, porta voz do Departamento de Altos Representantes na Bósnia-Herezegovina, afirmou: "Temos um outro ambiente. A pressão está crescendo".

Ao ser perguntada pela razão para que Karadzic e Mladic não tenham sido detidos, ela disse: "Inicialmente esta era apenas uma questão política, e (caso os dois homens fossem detidos) os sérvios poderiam abandonar o processo de negociação". Stiglmayer referia-se aos acordos de paz assinados em Dayton, Ohio, no ano de 1995.

Stiglmayer e outros altos representantes citam duas razões que os fazem considerar as condições atuais mais favoráveis para a prisão dos dois homens.

Em primeiro lugar, afirmam eles, a disposição do governo democrático sérvio para cooperar com as autoridades internacionais na captura de Slobodan Milosevic e no seu encaminhamento para o tribunal de Haia revelaram que o país já não é mais um abrigo para os dois fugitivos. Como dizem alguns sérvios, "se entregaram Milosevic, qualquer um pode ser pego".

Em segundo lugar, há poucos meses, quando as autoridades bósnias muçulmanas definiram a entrega de três líderes bósnios que haviam sido indiciados pelo tribunal de Haia sob a acusação de autoria de crimes de guerra, este gesto imediatamente desautorizou o já tradicional argumento de que o tribunal só processava sérvios.

O caso do tribunal contra os líderes bósnios muçulmanos tornoupermitiu que o governo bósnio-sérvio apresentasse uma proposta que concederia poderes especiais à polícia sérvia para efetuar a prisão de criminosos de guerra. Embora esta tarefa geralmente seja executada por soldados da Otan, a medida - que será votada no final do mês - é vista por Stiglmayer como "um importante sinal político".

Esta mudança era evidente na delegacia policial de Pale, na semana passada.

Vista no passado como o temido quartel-general das forças paramilitares alinhadas com o partido político de Karadzic, a delegacia agora é comandada pelo Capitão Ivan Sarac, um chefe policial da ONU.

"Se ele aparecer por aqui, minha polícia cumprirá as ordens", disse Sarac. "Creio pessoalmente que a guerra foi um representou um enorme dano".

Ainda assim, pairam dúvidas quanto à razão pela qual a Otan não teria detido os fugitivos.

"Como a aliança mais poderosa do mundo pode nos dizer que não é capaz de encontrar dois sérvios?", pergunta o embaixador Jacques Klein, coordenador da missão da ONU na Bósnia e na Herzegovina.

O malogro do empenho para prender Kradzic e Mladic, afirma Klein, insuflou os radicais e desanimou os moderados, e tornou mais dificil para a ONU e outras agências internacionais a tarefa de reaproximar as comunidades étnicas desta região fraturada.

"Eles são como uma nuvem venenosa que paira sobre as nossas cabeças", disse Klein, que, na condição de chefe de uma missão da ONU na Eslovênia, comandou uma ousada detenção de um suspeito de crimes de guerra. "Nós não podemos encarar um bósnio de frente enquanto (os dois) estiverem soltos".


Tradução: André Medina Carone

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