Os EUA não devem descer ao nível dos terroristas

Eileen McNamara

Vidas de civis foram as primeiras baixas desta guerra. As liberdades civis podem ser as próximas vítimas.

É algo de encorajador ouvir o presidente Bush condenando os ataques e as agressões cometidas por motivos raciais que se seguiram aos ataques ao Pentágono e ao World Trade Center. Mas as suas palavras, proferidas em uma mesquita de Washington, não se encaixam com as imagens de agentes federais aterrorizando uma família saudita em um hotel de Boston na semana passada.

É bom ver as bandeiras tremulando como um símbolo da determinação norte-americana, mas a retórica presidencial, falando em "passar fogo" nos terroristas e pegar Osama bin Laden "vivo ou morto" é um convite para um perigoso declínio do orgulho nacional rumo a uma histeria nativista. Uma distorção do "my country, free and strong" (meu país, livre e forte) para "my country, right or wrong" (meu país, certo ou errado).

A raiva solidifica, a determinação do país e o amor à liberdade individual dá lugar à necessidade da segurança comunitária, mas, no decorrer de apenas alguns dias de crise, vale a pena lembrar que, o que distingue os Estados Unidos dos seus inimigos é o império da lei, e não a sua cultura de caubóis.

Essa cultura tem estado bem à mostra desde que os seqüestradores suicidas pilotaram quatro aeronaves rumo a seus alvos, matando todos a bordo e milhares no solo. No dia seguinte, membros da Agência Federal de Investigação (FBI) lideraram a Polícia de Boston e funcionários do Serviço de Imigração e Naturalização em uma operação realizada com armas automática no Westin Copley Place Hotel. Telespectadores de todo o país viram a chegada do esquadrão antibomba e a Biblioteca Pública de Boston foi evacuada.

Os alvos da operação? Três cidadãos sauditas, que estavam na cidade para visitar um parente hospitalizado. O motivo pelo qual um rapaz e duas moças, todos com pouco mais de vinte anos de idade, teriam sido espancados, chutados, algemados e interrogados sob a mira de armas pelos agentes federais, sem ordem judicial, durante cinco horas? Um recibo de cartão de crédito com um nome similar, mas não idêntico, ao de um dos seqüestradores.

Tempos difíceis podem exigir medidas extremas, mas isso não é uma justificativa para esses fatos. Nem tampouco a votação apressada do Congresso, que conferiu ao presidente liberdade total para combater o terrorismo, substitui uma deliberação tomada com mais racionalidade.

Seria então motivo para surpresa o fato de que os cidadãos tenham na última semana adotado a prática de atuar como justiceiros, estimulados pelas táticas de terror da polícia e incitados pela retórica belicosa travestida de debate público racional?

A deputada Barbara J. Lee, da Califórnia, o único membro dissidente na hora de conceder ao presidente poderes tão amplos para conduzir uma guerra, foi criticada como destituída de patriotismo. Será que os seus críticos nunca ouviram falar da resolução do Golfo de Tonkin, a justificativa enganosa da administração Johnson para a escalada da Guerra do Vietnã?

Jonathan Shapiro, o advogado de Boston que representa a família saudita, tem enfrentado ameaças feitas por telefone por estar defendendo as liberdades civis de gente inocente. Será que aqueles que fazem essas ligações nunca ouviram falar dos campos de concentração nos quais os Estados Unidos confinaram cidadãos norte-americanos descendentes de japoneses após o ataque a Pearl Harbor?

As vítimas sauditas da nossa crescente histeria nacional estão muito assustadas para se identificar, mas muito tristes e revoltadas para ficar em silêncio: "A nossa família condena os atos realizados na cidade de Nova York e em Washington, D.C., na terça-feira, 11 de setembro de 2001. Não foi apenas uma tragédia norte-americana, foi uma tragédia humana - havia mais de 40 nacionalidades representadas no World Trade Center. Por que os Estados Unidos foram atacados de forma tão horrível e, ao mesmo tempo, por que a reação violenta contra a comunidade islâmica? A resposta é simples: trata-se do ódio acumulado, resultado da ignorância de certas pessoas dos dois lados. Oramos a Deus para que auxilie todas as famílias do mundo que foram afetadas pela recente tragédia. Também rezamos a Deus para que nos conceda a benção de vivermos neste mundo com a capacidade de escolher o caminho do aprendizado e do entendimento, a fim de que possamos ter uma vida melhor e mais pacífica".

Tradução: Danilo Fonseca

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