Os EUA já superaram os traumas do Vietnã?

Joan Vennochi

Será que a síndrome pós-guerra do Vietnã finalmente terminou? Será que a passagem do tempo e o choque tenebroso do ataque ao World Trade Center reverteram a aversão americana ao combate homem a homem, à batalha mortal em uma terra distante?

O presidente dos EUA, que não estava no exterior naquela guerra e sim na Guarda Nacional Aérea do Texas, diz que sim. O povo americano parece concordar. O senador do Massachusetts John F. Kerry, herói de guerra condecorado do Vietnã, respondeu: "Sim, desde que a estratégia da guerra seja clara e que, no fim, nos deixe mais seguros e não sob mais riscos".

Ou seja: talvez.

Aquela geração questionou a guerra, desafiou-a e fugiu dela. Trinta anos depois, a grande divisão nacional, entre os adversários à participação americana no Vietnã e os veteranos da guerra, está se fechando. Estará o chão sob nossos pés firme o bastante para iniciar o tipo de guerra que sugerem nossos líderes?

Todo veterano da Segunda Guerra é um herói. Mas, quanto ao Vietnã, a definição ainda é atormentada por ambigüidade. Lembre-se, há apenas quatro meses, o país ficou chocado em saber que o ex-senador Bob Kerrey de Nebraska, outro herói de guerra condecorado do Vietnã, chefiou um grupo de soldados em um ataque brutal em 1969 que matou mulheres e crianças indefesas.

A comoção causada pela revelação indica um mal estar americano remanescente em relação ao significado de uma guerra e o que é necessário para vencer. Os terroristas que seqüestraram aviões e os jogaram contra milhares de pessoas inocentes não tinham esse tipo de sensação.

No espírito de alguma Guerra Santa -que parece obscena, se não insana, ao americano comum-, de boa vontade eles mataram a si mesmos e a todos a sua volta.

Presumimos que os pais dos terroristas compreendem e aceitam algo que não conseguimos. Estarão os pais americanos dispostos a aceitar a morte de seus filhos na "guerra contra o mal", declarada na semana passada pelo presidente George W. Bush?

Kerry, que pensa em candidatar-se à presidência, disse ontem: "Acho que o país está pronto para fazer os culpados pagarem um preço. Está claramente pronto e absolutamente unido para tentar prender Osama bin Laden e fazê-lo pagar um preço, assim como seus aliados. O que o país está preparado para fazer no longo prazo é uma pergunta mais complexa".

É verdade que temos um incentivo mais visceral para lutar do que jamais tivemos no Vietnã. Existem lembranças frescas e horríveis de corpos chovendo nas ruas da cidade de Nova York, e não alguma teoria hipotética de dominação comunista em efeito dominó em terras longínquas. Mas o inimigo atual é tão ardiloso quanto aquele. O colapso e a incineração de dois arranha-céus cheios de gente são suficientes para pacifistas de ontem adotarem a pena de morte como punição justa para os perpetradores. O problema é que os perpetradores, neste caso, já estão mortos. Capturar e punir as mentes perversas por trás do atentado talvez seja possível, mas não será rápido nem fácil. Este país está sendo preparado para uma batalha dura e prolongada contra Bin Laden e qualquer país que o abrigue, com o Afeganistão como alvo presumível. Os russos sabem como pode ser teimoso esse inimigo, e o governo Bush já está admitindo a dificuldade de identificar alvos para bombardeio no Afeganistão. O governo Clinton tentou derrotar Bin Laden e não conseguiu.

Em Massachusetts, onde o humor é irreverente, o consultor político Michael Goldman observou: "Não conseguimos achar Whitey Bulger. Como vamos encontrar Bin Laden?" Será que realmente podemos "espantá-los de suas tocas" como disse Bush outro dia? "Esta é uma pergunta muito legítima", respondeu Kerry. "É por isso que, na minha opinião, prefiro operações menores, mais clandestinas, mais inteligentes e rápidas". Kerry disse ainda que a estratégia de Bush ainda não estava clara. "Se tudo que você faz é gerar muitas vítimas inocentes e criar um estado islâmico mais radical no Paquistão, com armas nucleares, estará mais seguro? Temos obrigação de fazer essas perguntas. O patriotismo não é cego".

Mesmo assim, se existe uma força organizada, em algum lugar, decidida a destruir as cidades americanas e matar civis americanos, será que os patriotas podem ficar escolhendo qual guerra enfrentarão?

Que Deus abençoe a América. Mas, graças a Deus, nossos filhos e filhas não poderão ser involuntariamente absorvidos em uma guerra longa, dura e possivelmente invencível. Pelo menos, ainda não.

Tradução: Deborah Weinberg

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