Saqueadores pilham Afeganistão em busca de artefatos arqueológicos

David Filipov

Ai Khanun, Afeganistão -- Mahbuhbullah não se envergonha ao falar sobre o que fez para comprar sua confortável residência, no norte do Afeganistão, e ainda ficar com um tesouro enterrado que vale milhões -se ao menos conseguir ultrapassar os soldados do Taleban que o guardam inadvertidamente.

Mahbuhbullah é um 'Indiana Jones' afegão, um saqueador de tumbas, que ganha a vida vendendo importantes artefatos arqueológicos das escavações que pilha. Diferentemente da versão hollywoodiana, Mahbuhbullah não precisa viajar para longe de casa para fazer isso. As ruínas que rouba ficam a apenas 15 minutos de Jeep de sua luxuosa residência em Dashti-Qala. Ali, aos pés do Monte Ai Khanum, com vista para o rio Pyandzh, que corre pela fronteira do Afeganistão com o Tadjiquistão, estão as ruínas de 2.300 anos, da cidade construída por Alexandre o Grande para sua esposa afegã, Roxanne.

As ruínas em Ai Khanum, que um dia foram a poderosa fortaleza de Alexandria Oxiana, agora são uma lembrança triste de décadas de guerras e destruição que arruinaram grande parte do legado arqueológico do Afeganistão.

O caos civil forneceu uma oportunidade de enriquecimento para milhares de caçadores de artefatos como Mahbuhbullah, que fez fortuna vendendo as relíquias que pilhou das ruínas. As batalhas entre o Taleban e a Aliança do Norte, que freqüentemente tomam conta deste trecho árido de terra com vista para o Pyandzh, estão gradualmente destruindo os restos que os salteadores deixaram para trás.

Arqueólogos em torno do mundo condenaram o Taleban por destruir monumentos históricos do Afeganistão neste ano, inclusive duas gigantescas estátuas de Buda que guardaram pacificamente um vale das montanhas do Hindu Kush por mais de 1.500 anos, antes da milícia puritana islâmica decidir, em março último, que eram um sacrilégio.

Os generais da Aliança do Norte anti-Taleban, por outro lado, também não demonstraram grande respeito por monumentos antigos.

Depois que seu exército conquistou a parte da Pérsia antiga, que hoje é o Irã, Alexandre o Grande fundou Alexandria Oxiana -hoje conhecida como Ai Khanum- em 328 aC, para Roxanne. Roxanne era filha de um barão que Alexandre vencera e matara, no que é hoje a província Balkh do Afeganistão. Como os conquistadores subseqüentes, Alexandre ocupou o território afegão, mas nunca dominou seu povo. Sua marca, entretanto, permanece nas cidades que fundou, incluindo Candahar, atual reduto do Taleban.

Quando o arqueólogo francês Paul Bernard descobriu as ruínas antigas de Ai Khanum, no final dos anos 60, ele contratou residentes locais para ajudar a desenterrar os tesouros.

A equipe francesa abandonou o trabalho depois que o Afeganistão entrou em caos, nos anos 70. O povo do lugar, entretanto, lembrava-se dos tesouros escondidos nas ruínas.

"O pessoal local viu o que havia sido escavado e sabia o que havia lá", disse Mahbuhbullah enquanto mostrava aos repórteres o local durante o final de semana. "Eu fui um deles".

Durante anos, Mahbuhbullah extraiu inúmeros artefatos, que vendeu a compradores locais e internacionais. Sua posição como importante comunista no governo pró-soviético de Najibyllah, durante a ocupação de uma década de Moscou no Afeganistão, nos anos 80, ajudaram-no a continuar sua pilhagem. Ele fez um intervalo durante a guerra civil que seguiu a saída dos soviéticos, em 1989, para mudar de lado e ajudar a capturar Cabul dos comunistas, como comandante no exército do general uzbeque Abdurrashid Dostum.

Nos nove anos que se seguiram, Mahbuhbullah extraiu um tesouro que, segundo ele, vale US$ 4 milhões (cerca de R$ 10,8 milhões). Infelizmente para ele, grande parte do material -moedas de ouro e prata antigas- está em uma mala de 130 kg, enterrada em uma localização secreta na cidade de Mazar-i-Sharif, no centro da província Balkh ao norte, que hoje é controlada pelo Taleban.

Mahbuhbullah diz estar consciente da ironia que parte do tesouro possa ter pertencido ao pai de Roxanne, e, portanto está de volta a sua origem. Isso, no entanto, não o impede de defender a campanha da Aliança do Norte, apoiada pelos EUA, para capturar a cidade.

"Se um governo normal jamais chegar ao poder no Afeganistão, vou até lá, desenterro e vendo as coisas", disse, enquanto estudava um pedaço de coluna de alvenaria em uma grande trincheira que, há 23 séculos, foi o quarto de dormir de Roxanne.

Mahbuhbullah tem um pedaço da coluna no jardim de sua casa. Ele também tem várias moedas que disse valer US$ 200 (aproximadamente R$ 540) e uma fonte de mármore em formato de leão, valendo US$ 4.000 (cerca de R$ 10.800). Se ele recuperar seu tesouro enterrado, poderá vendê-lo no Afeganistão por US$ 1 milhão (cerca de R$ 2,7 milhões) -uma soma assustadora nesta terra onde 30% da população de 21 milhões vivem à beira da fome.

Enquanto o homem prospera, Alexandria Oxiana enfrenta tempos difíceis. As ruínas estão sendo usadas como pasto. Os pastores parecem tão indiferentes à importância cultural do local quanto aos constantes barulhos de tiros de rifles, artilharia, e foguetes que ecoam diariamente da linha de batalha, que agora está somente a poucos quilômetros a oeste. Fragmentos de cerâmica antiga estão espalhados pelo solo argiloso, misturados com fezes de carneiro e projéteis, evidências das inúmeras batalhas travadas em torno das ruínas no ano passado. Essas ruínas foram bombardeadas pelo Taleban e pela Aliança do Norte, que vêm conquistando e perdendo o controle desta parte do norte do Afeganistão há um ano.

As forças de oposição agora controlam essa área, mas não cuidam dela, disse Mahbuhbullah. Quando os soldados da Aliança do Norte recapturaram a área, no ano passado, eles destruíram a tiros várias colunas que os arqueólogos franceses tinham meticulosamente reconstruído de fragmentos de pedras.

"Por que os soldados destruíram as colunas? Porque são analfabetos", disse Mahbuhbullah. "Não sabem o valor dessas coisas".

Poucas pessoas na região têm tempo ou energia para se preocupar com o significado de Ai Khanum. A maior parte está lutando para sobreviver, como os salteadores procurando pelas areias de Pyandzh, esperando encontrar um pedaço de ouro em meio à lama do rio. Ocasionalmente, guias locais mostram o local, quando sobem o morro para ver o front. Um jornalista de televisão grego, Christos Seferlis, pediu seu tradutor afegão para tirar sua foto em pé sobre o que foi o quartel general de Alexander. "Alexander foi um grande rei", disse Seferlis, gesticulando. Um combatente da Aliança do Norte observava, indiferente, segurando seu rifle Kalashnikov.

Entre as ruínas, o arqueólogo francês Paul Bernard encontrou uma inscrição em um pilar que parecia uma ironia perante a carnificina e o caos do Afeganistão de hoje: "Enquanto criança, aprenda boas maneiras. Enquanto jovem, aprenda a controlar as paixões. Enquanto adulto, seja justo. Ao envelhecer, dê bons conselhos. Depois, morra, sem arrependimentos".

Tradução: Deborah Weinberg

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