Cientistas identificam enzimas causadoras da "barriga de cerveja"

Patricia Wen

Embora a cura não vá ser desenvolvida a tempo para as festas de fim de ano, cientistas de Boston acreditam que descobriram uma informação que pode levar a novas formas de reduzir um problema basicamente masculino: a "barriga de cerveja".

Pesquisadores do Centro Médico Beth Israel Deaconess identificaram uma enzima específica em células de gordura que faz com que essas células se aglomerem na região abdominal. Ratos que possuem uma quantidade excessiva dessa gordura têm a aparência daquilo que seria a versão de Homer Simpson no mundo dos roedores.

Segundo os pesquisadores, caso as empresas farmacêuticas forem capazes criar remédios que possam desligar essas enzimas, isso poderia auxiliar os homens a perder a odiada gordura abdominal.

A redução dessa barriga tem implicações que vão além da vaidade masculina. O tipo de gordura que se acumula na região abdominal, criando a barriga de cerveja, está também associada a um alto risco de diabetes, hipertensão arterial, doenças cardíacas e certas formas de câncer.

"Centenas de estudos levaram à conclusão de que qualquer gordura pode ser problemática, mas ela é muito mais perigosa quando se acumula no abdômen", afirma Jeffrey S. Flier, endocrinologista do Beth Israel Deaconess e chefe da equipe que realizou o estudo, que será publicado na revista "Science".

"Se formos fazer uma comparação quilo a quilo, a gordura intra-abdominal tem uma possibilidade muito maior de causar diabetes, doenças cardíacas e outras enfermidades", afirma Flier.

O seu trabalho é parte de uma onda de novas pesquisas, que têm por finalidade descobrir que tipos de drogas podem ajudar a combater o problema da obesidade que, segundo a estimativa dos especialistas, custa anualmente US$ 100 bilhões (R$ 240 bilhões) aos cofres do governo norte-americano. Um em cada cinco norte-americanos é considerado obeso.

Os médicos tiveram um sucesso apenas parcial com duas drogas que estão atualmente no mercado. Uma é um supressor de apetite e a outra um limitador de absorção de gordura pelo corpo. Outras drogas estão em fase experimental. Dois remédios anteriores que, quando combinados formam o composto conhecido como Fen-Phen, foram retirados do mercado em 1997, devido aos seus efeitos colaterais desastrosos sobre o coração.

Mas os cientistas afirmam estar confiantes que as novas drogas possam ajudar os norte-americanos que não conseguem perder os quilos indesejados, a despeito de todo o exercício e dieta que façam.

"A ciência do entendimento da base bioquímica da obesidade está na sua infância", explica Alan Saltiel, professor de medicina da Universidade do Michigan. "Não tenho dúvidas de que, no futuro, teremos novas drogas que serão eficientes e seguras".

Saltiel, que estuda a relação entre a obesidade e a diabete, diz que 90% dos indivíduos que desenvolvem a doença quando adultos são obesos.

O estudo de Flier revelou que o aumento da atividade de uma enzima em particular, chamada de 11 beta HSD-1, nas células de gordura, desencadeia a superprodução do hormônio cortisol. Células de gordura que experimentam um aumento excessivo desse hormônio tendem a se acumular na região abdominal, segundo Flier.

Ele diz que ainda não se sabe ao certo o porquê de quatro entre cada cinco indivíduos que sofrem de obesidade abdominal serem do sexo masculino, embora o pesquisador acredite que tal fenômeno possa estar relacionado com a forma como os diferentes hormônios masculinos e femininos reagem com as células de gordura nas várias partes do corpo.

Alguns cientistas recomendam cautela, lembrando que a experiência de Flier ainda não foi reproduzida em seres humanos.

"O trabalho é muito interessante, mas temos que ser cuidadosos", afirma Andrew Greenberg, diretor do programa de obesidade e metabolismo do Centro Tufts de Nutrição Humana, em Boston. "Essa experiência só foi realizada em animais".

A menos que a identificação da enzima leve a um tratamento efetivo, as pessoas que possuem barriga de cerveja vão continuar contando com poucas alternativas além da malhação pesada e das dietas para tentar adquirir um perfil mais esguio.

No entanto os especialistas em exercícios físicos afirmam que não há forma de se reduzir a gordura em apenas uma parte do corpo. Segundo eles, a única forma de reduzir a gordura localizada no abdômen é tentar reduzir a gordura corporal em sua totalidade.

"Ouço homens que vem aqui toda hora dizendo que querem se livrar de suas barrigas de cerveja", diz John Damon, um personal trainer do Mount Auburn Club, um clube de saúde da cidade de Watertown.

"Mas infelizmente eu sou obrigado a dizer a essas pessoas que não dá para eliminar apenas a gordura localizada", diz Damond. "Eles precisam malhar para diminuir a totalidade de gordura presente no corpo".

Tradução: Danilo Fonseca

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