Opinião: Arafat precisa se empenhar mais na luta contra o terror

Scot Lehigh

No momento em que o mundo ocidental se concentra em pressionar Iasser Arafat para que ponha um fim ao terrorismo, o líder palestino tomou a medida sem precedentes de ir até a televisão para declarar que a violência contra os israelenses deve terminar.

É claro que, apenas dois dias após fazer essa declaração de peso, Arafat estava novamente enviando sinais equívocos. Em um discurso inflamado, feito na terça-feira, na cidade de Ramallah, ele declarou que "a nação de gigantes defenderá a terra santa com o seu sangue", acrescentando que um mártir na terra santa vale setenta em outros lugares.

Tais palavras vindas de um homem cuja administração enviou condolências aos pais dos homens-bomba, enaltecendo os seus filhos pelo "martírio heróico", fizeram com que crescessem as dúvidas sobre as suas verdadeiras intenções.

"Isso demonstra que o discurso ambíguo não terminou", acusa Yigal Carmon, presidente do Instituto de Pesquisas de Mídia do Oriente Médio, um grupo respeitado que analisa as declarações de Arafat.

E então, Arafat está falando sério sobre por um fim à carnificina feita pelos homens-bomba? Em caso afirmativo, ele poderia fazer muito mais para acabar com os fatores que os encorajam, sejam eles a ajuda financeira às famílias dos homens-bomba mortos ou o encorajamento às suas missões suicidas, que prevalece na sociedade palestina.

Em um artigo publicado em 28 de outubro pelo "The New York Times", o ex-diretor-executivo do jornal, Joseph Lelyveld, falou sobre uma visita à casa dos pais de Ismail al-Masawabi, um homem-bomba que matou a si e a dois soldados israelenses em 22 de junho. Membros do Hamas forneceram à família, que antes vivia em um campo de refugiados, um apartamento relativamente espaçoso, dotado de infraestrutura, tapetes e mobília. Um vídeo glorificando o homem-bomba mostra a nova residência da família orgulhosa pela missão do filho. "Parece claro que o vídeo de despedida de Ismail foi ampliado e re-editado, de forma a se transformar em uma propaganda de recrutamento", escreveu Lelyveld. "A fita parecia dizer: a sua família também pode vir a ter este padrão de vida".

Em um artigo publicado em nove de dezembro no "Sunday Telegraph", de Londres, Nasra Hassan, um funcionário de uma agência internacional de auxílio humanitário, que entrevistou diversos familiares e responsáveis pelo treinamento dos homens-bomba, afirma que os pais desses suicidas geralmente recebem uma quantia de até US$ 5 mil (R$ 11,7 mil) depois que o homem-bomba completa a sua missão.

Esse tipo de recompensa tem sido causa contínua de preocupação para o Departamento de Estado dos Estados Unidos, que tem pressionado repetidamente Arafat para que ponha um fim a essa forma de incitação ao terrorismo.

De fato, no início deste mês, quando o governo dos Estados Unidos congelou os bens controlados pela organização Fundação Terra Santa para Ajuda Humanitária e Desenvolvimento, com sede no Texas, o presidente Bush afirmou especificamente que o grupo estaria enviando dólares a escolas para "doutrinar crianças a se tornarem futuros homens-bomba", além de apoiar as famílias dos homens-bomba.

Tendo em vista tudo isso, uma prova clara da sinceridade de Arafat não seria uma ação imediata para proibir as recompensas às famílias dos homens-bomba, assim como uma declaração de que, com as suas ações, esses militantes trazem desgraça e desonra para as suas famílias?

Porém, quando a questão de por um fim a essas recompensas foi apresentada a Ghaleb Darabya, conselheiro de assuntos políticos do escritório em Washington da Autoridade Palestina, ele se recusou a sequer reconhecer que esse tipo de ação anda ocorrendo.

"Não sei se alguém paga alguma quantia a essas pessoas", disse Darabya, referindo-se à família dos homens-bomba. Ele insistiu que Arafat já provou a sua seriedade ao pedir um fim aos ataques suicidas e ao fechar escritórios do Hamas e da Jihad Islâmica, dois dos grupos terroristas que promovem missões suicidas. Apesar de terem demorado muito para ser colocadas em prática, essas medidas são encorajadoras.

Mas, como Carmon observa, os atentados suicidas a bomba são o resultado de uma triste celebração da violência que permeia as escolas, a mídia e as mesquitas palestinas. "Essas instituições glorificam o martírio", diz ele. "A onda de violência é um resultado da doutrinação para a violência".

É por esse motivo que, se Arafat quiser contar com alguma credibilidade como parceiro no processo da paz, ele precisa tomar medidas para criminalizar a onda de atentados suicidas a bomba, além de manter uma condenação pública, firme, consistente, repetida e inequívoca desse tipo de violência.

Somente dessa maneira o líder palestino pode começar a fazer frente a uma cultura que considera assassinos como mártires e recompensa os seus pais, por acreditar que os homens-bomba são heróis.

Tradução: Danilo Fonseca

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