Bush quer que aliados ajudem a pagar a conta da guerra no Afeganistão

John Donnelly

Washington, EUA -- O governo Bush, que está gastando mais de US$ 2 bilhões por mês em custos da guerra no Afeganistão, pressiona aliados para que eles assumam maior fração do custo da reconstrução da nação devastada, de acordo com autoridades americanas e funcionários de organizações de ajuda internacional.

Tradicionalmente, os EUA financiam cerca de 25% dos esforços de auxílio internacional, mas alguns membros do governo, especialmente do Escritório de Administração do Orçamento, querem pagar muito menos. Autoridades da Casa Branca estão até emperrando sugestões do Departamento de Estado de pagar 15% ou 20% de um plano de reconstrução internacional de US$ 9 bilhões em cinco anos.

Autoridades americanas vêm ressaltando para seus três maiores parceiros -União Européia, Japão e Arábia Saudita- que, como os EUA assumiram quase todo o custo da guerra, os outros devem assumir uma parte maior dos custos de paz.

A decisão final do comprometimento americano deverá ser feita logo antes de uma reunião entre os países que colaborarão na reconstrução do Afeganistão, em Tóquio, nos dias 20 e 21 de janeiro. Alguns grupos, no entanto, já estão argumentando que essa é uma área na qual o governo Bush deve ser generoso.

"Se o governo fizer menos, enviará um sinal desastroso", disse Kenneth H. Bacon, ex-porta-voz do Pentágono que hoje chefia um grupo de defesa de refugiados em Washington. "O sinal diria: 'Nós bombardeamos, mas vamos deixar outros reconstruírem'. Certamente não é a mensagem que o presidente vem transmitindo, ou que o país quer transmitir".

Mark Malloch Brown, administrador do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas que está chefiando os esforços da ONU para começar a reconstrução do Afeganistão, disse que ainda estavam em curso as negociações entre os EUA e outros colaboradores sobre quanto cada um pagaria.

"Existem duas dinâmicas atuantes no momento: Os EUA esperam redução de sua participação no financiamento da paz, dada sua contribuição maior na guerra; os outros doadores querem ver os EUA desempenhando papel importante, e não procurando a porta de saída quando a Al Qaeda estiver eliminada".

Malloch Brown disse que provavelmente os EUA pagariam uma percentagem "tipo Salomão", que definiu como "provavelmente menos do que o que os EUA em geral gastam em projetos de desenvolvimento internacional, mas mais do que querem gastar agora".

Segundo Brown, a União Européia arcará com a maior porcentagem, seguida pelo Japão, EUA e depois um "quarto pilar", um grupo de países que inclui a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, outras nações do Golfo e vizinhos do Afeganistão, incluindo a Índia, Paquistão, Irã e Turquia.

Até agora, as negociações progrediram sem problemas, disse Malloch Brown. E acrescentou: "Acho que chegaremos lá mas, se cairmos em brigas sobre percentagens, será terrivelmente desestimulador".

O presidente Bush, em várias ocasiões, insistiu que os EUA não abandonariam o Afeganistão depois da guerra. No entanto, ele tomou o cuidado de não especificar o nível de envolvimento do país. O presidente autorizou no ano passado uma ajuda humanitária ao Afeganistão de US$ 320 milhões (aproximadamente R$ 736 milhões) e os EUA agora cobrem 65% de custos de alimentos enviados ao país.

"Os Estados Unidos e seus aliados farão sua parte na reconstrução do Afeganistão", disse Bush no dia 13 de dezembro, em uma cerimônia no Museu Nacional de Mulheres nas Artes. "Aprendemos nossas lições do passado. Não sairemos quando a missão terminar. Trabalharemos com instituições internacionais no desenvolvimento de longo prazo do Afeganistão".

Duas autoridades americanas disseram que quase toda a ajuda americana não será enviada por meio dos organizadores do esforço de reconstrução -ONU, Banco Mundial e Banco de Desenvolvimento da Ásia. Ao invés disso, os EUA pretendem investir o dinheiro diretamente em iniciativas que promovem de agricultura alternativa à produção de drogas; educação de meninas; apoio a professoras; e programas de construção de democracia como serviços de justiça e policiamento, disseram as autoridades.

No passado, em esforços de alívio internacional, pediu-se aos EUA que custeassem 25% dos gastos, aproximadamente a sua porcentagem do PIB mundial.

O primeiro ano de reconstrução do Afeganistão deverá começar lentamente, com talvez um total de US$ 1 bilhão, principalmente pela falta de segurança no país. O financiamento deverá crescer anualmente, até US$ 2,5 bilhões no quinto ano, de acordo com estimativas preliminares.

A questão de quanto os EUA devem pagar ainda não chegou a Bush, ou ao vice-presidente Dick Cheney e o secretário de estado Colin L. Powell. Malloch Brown reuniu-se na sexta-feira, em Washington, com Stephen Hadley, assessor de segurança nacional, e Richard N. Haas, chefe de planejamento de política do Departamento de Estado.

Malloch Brown disse que a liderança americana na reconstrução "continua indispensável. Todos estão olhando de soslaio, assegurando-se que estão caminhando juntos". E concluiu: "Não é bom simplesmente eliminar o câncer da Al Qaeda. É preciso tratar o ambiente mais amplo, que criou o problema no país. Isso não é compensação pelo bombardeio. O raciocínio da guerra era eliminar a ameaça e só será completado se um novo estado for construído no Afeganistão".

Tradução: Deborah Weinberg

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