Após queda do Taleban, sufismo retorna com força ao Afeganistão

ANTHONY SHADID

THE BOSTON GLOBE



CABUL, Afeganistão - O movimento sufista, um ramo do islamismo no qual os fiéis rejeitam interpretações dogmáticas da fé em prol de uma relação mais pessoal com Deus, está passando por um renascimento, dando uma nova face ao cenário religioso afegão após a queda do Taleban.

Esse renascimento ocorre após anos de repressão, nos quais o Taleban prendeu os membros do movimento, torturou os seus líderes e obrigou milhares de pessoas a atuar na clandestinidade, em uma tentativa de erradicar aquilo que os líderes talebans viam como uma forma degenerada de sua religião.

O crescimento do sufismo aponta para uma ironia do regime Taleban: a queda de um regime que justificava o seu governo pela religião fez com que muitos afegãos se tornassem mais religiosos.

"O islamismo que eles trouxeram se baseava em turbantes e barbas; ele era feito pelo homem", acusa Qari Mushtaq Ahmed, um líder religioso do bairro Tamin Ansar, em Cabul, onde existe uma tumba erguida para dois seguidores do profeta Maomé, que foram martirizados.

"No nosso islamismo, não há hierarquias nem repressão", diz Ahmed. "As pessoas vêm até nós por iniciativa própria. Eles não vêm pela força e sim devido à sua própria vontade".

Mas conhecidos no Ocidente como bailarinos rodopiantes, devido à dança dos praticantes, realizada em estado de êxtase, os sufistas representam uma forma enormemente popular do islamismo no mundo muçulmano. Muitas vezes incorporando costumes folclóricos e práticas pagãs, as fraternidades sufistas estimularam a disseminação do islamismo pela Ásia e pela África, devido à sua tolerância e flexibilidade.

Atualmente, a sua diversidade é surpreendente: os seguidores variam dos místicos que vestem peles de leão em rituais no Sudão ao falecido aiatolá Ruhollah Khomeini, do Irã, um doutrinador ascético que, segundo os boatos, teria escrito poemas sufistas.

Durante séculos, os sufistas apresentaram também uma grande diversidade no Afeganistão, onde quatro ordens possuíam grande número de seguidores entre os 18 milhões de habitantes do país.

Mas o Taleban desaprovava as visitas semanais às sepulturas dos santos, o hasteamento das bandeiras coloridas nos cemitérios, e a popular comemoração do tradicional ano novo persa. Quando o Taleban chegou ao poder no Afeganistão, ele se voltou contra os sufistas com o mesmo fervor messiânico utilizado para obrigar os homens a usar barbas e para expulsar as meninas das escolas.

Algumas semanas após a captura de Cabul, em 1996, o Taleban reprimiu os rituais sufistas conhecidos como zikrs, nos quais os homens em mesquitas e albergues cantavam, tocavam instrumentos musicais, ou dançavam, como forma de atingir o êxtase que acreditavam leva-los mais próximos a Deus. Alguns dos principais líderes sufistas foram presos, e a repressão contra o movimento passou a ser uma rotina.

Um dos líderes, Maulwi Sutfullah, de 31 anos, afirma que foi encarcerado por três vezes. Durante uma das prisões, foi espancado com tanta violência nas solas dos pés que ficou sem poder andar durante um mês.

Os homens se lembram do Taleban invadindo cerimônias religiosas e espancando alguns anciãos para dar um exemplo de repressão. Em um dos episódios mais infames, o Taleban interrompeu um ritual no qual os fiéis tocavam instrumentos musicais como parte da cerimônia. Eles levaram os tambores, as cítaras e o harmônio e os dependuraram na parede de uma delegacia de polícia durante meses.

"Mesmo com toda a repressão e as punições, nós continuamos", conta Lutfullah, que atualmente lidera um grupo de 200 fiéis, todas as sextas-feiras, nos arredores de Cabul. "Nos continuamos com a nossa música e temos as nossas cerimônias. Não foi uma iniciativa minha, apenas, e sim de todo o grupo".

Embora não haja estatísticas confiáveis, os atuais líderes sufistas afirmam que existem centenas, ou mesmo milhares, de novos adeptos.

Um fenômeno também muito comum é o retorno dos seguidores que abandonaram o movimento devido à intimidação promovida pelo Taleban. As bandeiras proibidas pelo Taleban voltaram a ser hasteadas sobre as tumbas dos santos, e os trabalhadores limparam 15 grandes templos e dezenas de outros menores em Cabul e outras localidades.

"Isso está ocorrendo por toda parte", diz Luftfullah.

O vigor do movimento é evidente em um ritual na Tumba de Ashqan wa Arfan. Em uma sala de segundo andar, decorada com uma inscrição que diz, "Não há deuses, e sim Deus, e Maomé é o mensageiro desse Deus", os homens se reúnem no chão de terra batida em volta de um cantor, que entoa poemas persas do famoso poeta iraniano Hafez e de outros mestres do sufismo.

Quase que simultaneamente, eles começam a gritar "Deus" em uníssono, já que a repetição da palavra é tida como uma forma de atingir o êxtase místico. Alguns balançam os corpos para frente e para trás. Outros batem a cabeça contra o solo. Os cantos ecoam pela sala, como as batidas de um tambor, pontuadas pelos gritos dos outros. Um homem, suado e de olhos fechados, grita, "Não existe ninguém, a não ser Ele!".

O ritmo se acelera, e palavras são pronunciadas mais altas e com mais rapidez. É quando, abruptamente, o canto coletivo cessa. Os homens se sentam e escutam, enquanto o cantor continua a entoar a canção.

Muitas vezes a poesia reflete o desejo de paz em um país devastado por mais de 20 anos de guerra, além de pela seca e pela fome. "Ah, Deus, houve uma época em que tive uma casa, um jardim e amigos", diz o cantor. "Olhe para mim. Estou sem teto e solitário. Meus amigos estão mortos. Estamos chorando defronte ao Seu portão. Ah, Deus, liberte-nos de nossos problemas".

Os sufistas têm esse nome derivado da palavra árabe suf, que significa lã, em uma referência às roupas de lã grosseiras que antigamente eram usadas pelos místicos como parte da sua renúncia ao materialismo. Até os dias de hoje, os sufistas manifestam uma grande devoção aos santos, muitos dos quais criaram as suas próprias ordens religiosas.

A seita Qadiriyya, uma das maiores do Afeganistão, foi criada pelo xeique Abdel-Qader Jailani, que, segundo se diz, visitou o Afeganistão, vindo do Iraque, há cerca de mil anos. A sua devoção é lendária. Segundo uma estória, ele nasceu no primeiro dia do Ramadã, um mês sagrado no qual os muçulmanos jejuam da aurora ao crepúsculo vespertino. Nascido durante o dia, o bebê teria se recusado a mamar no seio da mãe até o cair da noite, tendo repetido essa rotina durante todos os dias do Ramadã.

Um outro santo, Khowaja Sayyid Muineddin Chishti, teria trazido o islamismo para o subcontinente por meio da música, tocando um instrumento de cordas conhecido como rabab.

Os instrumentos musicais - incomuns para a maioria das ordens sufistas - ainda são populares para a seita Chishtiyya, que tem o seu nome derivado do santo. Em uma cabana de estuque apertada, os homens se reúnem em volta de um fogão a lenha para tocar uma sítara, o rabab, dois tambores, conhecidos como tablas, e um harmônio. A fumaça do incenso circula pela sala e várias velas iluminam o aposento.

Faqir Mohammed, um devoto de 50 anos de idade, diz que parou de cantar por mais de cinco anos, sob o regime Taleban. Agora ele canta até quase o por do sol. "Sempre que começo a recitar uma poesia, o amor cresce no meu coração", afirma.

Para a maioria dos homens, o ritual conjuga atos aparentemente disparatados com uma intensa experiência pessoal que só pode ser compartilhada no seio de uma comunidade. Os indivíduos que não são membros do movimento são recebidos como hóspedes, e com freqüência ouvem a observação: "Esta casa não tem portas".

"Qualquer um que traga dor na alma ou feridas no coração pode vir até nós e nos ouvir", afirma Mohammed Hashim, de 40 anos, um devoto que começou a participar novamente dos cultos após a queda do Taleban. "Ouvindo o nosso culto, o seu sofrimento desaparecerá".



Tradução: Danilo Fonseca

23 de janeiro de 2002 Islamismo

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