Irã conquista espaço comercial e militar no Afeganistão

ANTHONY SHADID e JOHN DONNELLY

THE BOSTON GLOBE

HERAT, Afeganistão - Nas últimas semanas o governo iraniano aumentou dramaticamente o seu envolvimento militar e comercial no Oeste do Afeganistão, fortalecendo o poder do líder regional Ismail Khan e aumentando os temores dos Estados Unidos de que esse indivíduo acabe por desafiar o frágil governo interino instalado em Cabul.

Os movimentos do Irã são tanto encobertos como ostensivos, variando desde uma ofensiva para aumentar o comércio na fronteira entre os dois países até o envio de conselheiros militares, armas e munições às tropas leais a Khan.

O Estados Unidos advertiram Khan - um velho líder mujahedin que governa Herat e quatro outras províncias - assim como os seus financiadores no Irã de que tal interferência poderia enfraquecer o governo interino afegão.

"O Irã precisa honrar uma política de não-interferência nos assuntos internos do Afeganistão", disse na semana passada Zalmay Khalilzad, enviado dos Estados Unidos ao Afeganistão.

Os Estados Unidos esperam que uma injeção de ajuda externa, sob o controle do novo governo de Cabul, ajude a conquistar a lealdade da população carente do Oeste do Afeganistão, diluindo assim o controle de Khan sobre a região. Nesse ínterim, os diplomatas iranianos no consulado recém-aberto em Cabul se recusaram a fazer comentários sobre o envolvimento crescente do seu país no Afeganistão.

Khan, que voltou ao poder após a queda do Taleban, depois de passar dois anos exilado na cidade iraniana de Mashhad, defendeu as suas ligações políticas com o Irã, tendo negado, entretanto, ter recebido armamentos ou assistência das forças armadas iranianas.

"As nossas relações amigáveis são para o bem-estar da nossa vizinhança", disse Khan, usando um turbante preto e branco e uma longa barba grisalha. "Não creio que ninguém chegue sequer a conceber que o Irã tenha um motivo para pretender interferir nos assuntos internos do Afeganistão". Ele frisou essa sua posição para Francesc Vendrell, enviado especial da ONU ao Afeganistão, que na quinta-feira disse que não tinha evidências para contestar a versão de Khan.

Mesmo assim, funcionários do governo norte-americano sugeriram que o Afeganistão se transformou na mais recente arena para a prolongada luta pelo poder entre os iranianos relativamente moderados - agrupados em torno do presidente Mohammad Khatami, e ansiosos para melhorar as relações com o Ocidente - e o grupo clerical de linha dura, que continua nutrindo suspeitas profundas quanto às intenções dos Estados Unidos na região.

O governo de Khatami, em Teerã, prometeu dar apoio à autoridade interina de Hamid Karzai. Realmente, os seus diplomatas contribuíram para que se chegasse a um acordo em Bonn, fazendo com que Karzai fosse o chefe de governo. Mas uma operação mais dissimulada parece estar em andamento para cristalizar o apoio das facções que controlam a fronteira de 870 quilômetros entre os dois países.

Uma grande quantidade de armamentos vindos do Irã teria chegado a Herat no mês passado. Entre o arsenal estão 1.700 fuzis automáticos Kalashnikov AK-47, um número igual de AK-74, e da submetralhadora alemã MP-5, segundo um agente de segurança de uma organização internacional de auxílio, que pediu para não ser identificado. As AK-47 são de uma versão egípcia, com o design distinto dos fuzis mais tradicionais dessa marca fabricados pela Rússia e pela Romênia, que são abundantes neste país de 18 milhões de habitantes, disse o agente de segurança.

"Todas as armas são novas", disse ele.

Pelo menos cinco conselheiros militares iranianos estão treinando juntamente com mil soldados em uma base nas imediações de Herat. Essas tropas incluem um batalhão de 200 afegãos que retornaram do Irã, disse um funcionário de auxílio humanitário afegão que possui contatos junto à milícia local. Outros conselheiros foram vistos com uma brigada de tanques, a cerca de cinco quilômetros da cidade, comandados por um líder da facção Hizb-e Wahdat, apoiada pelo Irã, disse esse funcionário, pedindo também que o seu nome não fosse revelado.

Os funcionários do governo de Khan se recusaram a permitir que os jornalistas visitassem as áreas.

Um ex-oficial de inteligência da CIA que atuou no Paquistão e no Afeganistão disse que a presença iraniana no Oeste do Afeganistão reflete em parte a falta de sucesso dos Estados Unidos na área. Embora os oficiais de inteligência norte-americanos tenham se instalado em Jalalabad, Candahar, Cabul e Mazar-e-Sharif, eles teriam menos conexões na parte ocidental do país.

"Se nós não conseguirmos travar relações com Ismail Khan, adivinhe quem o fará", diz o ex-agente da CIA. "O problema é que os iranianos provavelmente já estão encastelados na região".

Além da assistência militar dissimulada, que a inteligência norte-americana tem monitorado há um mês, o Irã está empenhado em um papel bem mais visível no que diz respeito a atividades comerciais e humanitárias em Herat.

Agentes da alfândega registraram um aumento de 80% no tráfego na cidade fronteiriça de Eslam Qal'eh, e os produtos iranianos - incluindo pistache, rádios, televisores e carros trazidos a partir do porto iraniano de Bandar Abbas - inundaram o mercado local. Os cambistas dizem que o touman iraniano quase que dobrou de valor no mês passado.

Uma equipe de engenheiros iranianos está recuperando a estrada repleta de buracos que vai de Herat a um grande campo de refugiados em Maslakh, e que continua por mais 112 quilômetros até a fronteira.

Enquanto isso, o Crescente Vermelho iraniano se mobilizou para fornecer ajuda às áreas devastadas pela seca no noroeste do país. Mais recentemente, um comboio de oito caminhões levou várias toneladas de arroz, óleo de cozinha, açúcar, roupas e sandálias para a região. Na província de Herat, o Crescente Vermelho iraniano (semelhante à Cruz Vermelha) atende a sete mil órfãos e a um número similar de viúvas, assim como a 10 mil deficientes físicos. Além disso, segundo Maalim Nureddin, que chefia a delegação iraniana, o seu país está administrando duas clínicas em Herat e quatro nas províncias vizinhas.

Porém, ele reclama de que a ajuda estaria sendo usada para fins políticos. "Isso acontece com a maioria dos países. Todos procuram se beneficiar do trabalho de suporte e auxílio humanitário", critica Nureddin, que chegou a Herat há dois meses.

O Irã há muito tempo exerce influência sobre Herat, uma cidade-oásis construída cinco mil anos atrás, que é uma encruzilhada cultural para o islamismo medieval. Nos últimos séculos, as suas elites copiaram os modelos da corte real do xá da Pérsia, e, em tempos mais recentes, o Irã enviou armas e dinheiro para Khan, durante a luta contra as tropas soviéticas, nos anos 80.

Esse apoio aumentou na década de 90, tanto para Khan quanto para a Aliança do Norte, na sua luta com o Taleban. As tropas do Taleban assassinaram diplomatas iranianos na cidade de Mazar-e-Sharif, no norte do país, em 1998, e a visão draconiana da lei islâmica sunita, abraçada pelo movimento fundamentalista, não se coadunava com a teologia xiita que levou os líderes clericais do Irã ao poder.

"O pessoal que realmente possui boas fontes de inteligência e contatos com os afegãos - e a quem nós temos de ser gratos por ter mantido viva a oposição contra o Taleban por todos estes anos - não são norte-americanos da CIA, mas os iranianos", afirma Julie R. Sirrs, uma ex-analista da Agência de Inteligência de Defesa no Irã e no Afeganistão, que questiona a preocupação manifestada pelos Estados Unidos com o Oeste do Afeganistão. "Creio que devemos aos iranianos um bom agradecimento".

Mas o papel desempenhado pelo Irã enfureceu as tribos de etnia pashtun no sul do Afeganistão, que acusam os iranianos de terem interferido nos assuntos do seu país por meio do envio de dinheiro e, provavelmente, armas, para os chefes tribais rivais.

Na última quinta-feira, na cidade de Candahar, no sul do país, o governador local, Gul Agha, acusou o Irã de enviar veículos e armas à região do Afeganistão sob influência de Khan, a fim de enfraquecer o governo de Karzai.

"Sabemos que o governo iraniano está enviando veículos e armas contra o Afeganistão", disse Agha em uma manifestação pela democracia à qual compareceram cinco mil pessoas. "Não enviamos nenhuma milícia contra eles. Estamos esperando pelo governo interino do primeiro-ministro Karzai. Tenho mantido contato com ele. Farei o que quer que ele determine." Agha negou as alegações de que teria enviado combatentes a Herat.

O mais ameaçador para Khan pode ser a reação negativa que os seus financiadores iranianos podem estar criando junto à população, que possui fortes suspeitas quanto à interferência dos seus vizinhos. Muitas pessoas em Herat afirmam que estão ressentidas com aquilo que eles descrevem como os maus tratos infligidos pelo Irã aos dois milhões de afegãos que procuraram refúgio do outro lado da fronteira.

"A história nos mostrou dois países - primeiro o Paquistão, depois o Irã - que não têm interesse pelos afegãos", acusa Abdel-Alim, que tem uma loja de produtos agrícolas em uma ruela poeirenta do mercado de Herat. "O que eles querem é satisfazer os seus próprios interesses."

A iniciativa dissimulada do Irã fez com que muita gente passasse a suspeitar que Khan, apesar das suas promessas de lealdade ao governo interino, esteja determinado a seguir o seu próprio rumo, frustrando as tentativas de reconciliação do governo e ameaçando trazer mais problemas para uma cidade devastada durante a ocupação soviética, e depois desmoralizada pelo Taleban.

"Queremos paz, e esse líder pertence a uma facção guerreira. Não queremos outra facção bélica na liderança", diz Khandan, um comerciante de 55 anos. "O problema é que os iranianos estão com ele."

Tradução: Danilo Fonseca

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