Sem talento, futebol dos EUA deve apostar em carisma dos jogadores

Frank Dell'Apa

A Major League Soccer (MLS), liga profissional de futebol dos EUA, está se saindo melhor do que a extinta North American Soccer League (NASL) em termos de organização e visão de longo termo. Mas a NASL era uma criação espontânea e, portanto, foi capaz de se ajustar a algumas variáveis incrivelmente imprevisíveis, capturar oportunidades e sobreviver por 18 anos.

Tendo feito a sua sétima temporada em 1973, a NASL tinha nove times, dois deles canadenses, e incluiu entre as suas partidas um jogo de cada uma das equipes contra o Vera Cruz, do México. A confederação não possuía uma fórmula para o sucesso, mas os seus diretores obviamente estavam usando a imaginação. No ano seguinte, o número de times da NASL aumentou para 15 e, o mais importante, a liga passou a procurar grandes jogadores, como Eusébio e Pelé. A NASL acrescentou equipes aos seus quadros de forma aleatória, muitas vezes tendo atraído oportunistas que só buscavam lucros ou taxas de franquia. Mas, pelo menos, ela conseguiu arrebanhar times.

A MLS deu início a sua sétima temporada no último sábado, com 10 equipes e um público médio de 16 mil torcedores. Ela é muito menos ambiciosa do que a NASL em termos de aquisição e promoção de jogadores, e exibe menos coerência em termos de tentar melhorar a qualidade dos jogos. A MLS pode não ser capaz de conseguir jogadores estrangeiros de alta qualidade técnica, mas ela precisa entender que jogadores carismáticos são a atração mais importante.

O Los Angeles contratou Carlos "El Pescadito" Ruiz, um guatemalteco de 22 anos que fez dois gols na vitória de 2 a 1 do seu time sobre o D.C. United. Ruiz está muito longe de ser cobiçado pelas grandes ligas européias de futebol, mas ele exibe os instintos de um sobrevivente, como se fosse um pequeno peixe em uma lagoa muito grande. Trata-se de um jogador de personalidade, uma atração. Isso está explícito tanto no seu armário decorado com decalques religiosos, quanto no seu estilo dramático.

Quando Ruiz jogou pela seleção da Guatemala contra os Estados Unidos, nas eliminatórias da Copa do Mundo em Mazatenango, ele se mostrou especialista em provocar o goleiro Kasey Keller. Apesar de não ter tanto talento quanto Keller, Ruiz acabou marcando um gol. Ruiz parecia estar jogando com uma espécie de fome desesperada, e os torcedores e companheiros de equipe foram incentivados pela sua garra.

A MLS precisa contar com essas qualidades em mais jogadores. O futebol não se constitui em uma atividade linear e não há uma fórmula garantida para o sucesso nesse nível. A melhor forma de tornar o jogo interessante é contar com jogadores interessantes.

O técnico Fernando Clavijo estava otimista com relação ao Revolution, quando o time se reestruturava no campo de treinamentos em Foxborough, na segunda-feira, após ter perdido de 3 a 1 para o MetroStars.

"Assisti por três vezes a uma fita do jogo no domingo", conta Clavijo. "E jogamos bem, tocamos a bola bem. Perdemos a concentração quando partimos para frente. Mas não tenho preocupações. Não tenho dúvidas de que estamos na direção certa".

"Fiquei desencorajado ao ver o jogo no sábado, mas é diferente quando se está no campo, já que as suas emoções estão muito ligadas àquilo que está se passando no gramado. Mas, vendo a fita, dá para se contar com uma perspectiva melhor do jogo".

Clavijo diz que pensa em fazer mudanças durante o jogo do Revolution em San Jose, no dia 6 de abril. "Porém, não se trata de modificar formações. A questão é a disciplina", diz Clavijo. "Disciplina é a chave de tudo. Após termos marcado o nosso primeiro gol, o MetroStars se tornou mais agressivo. Mas, ao invés de ficarmos mais cautelosos, permitimos que eles criassem mais espaço para as jogadas de Clint Mathis e de Diego Serna".

Mamadou Diallo parecia estar crescendo em campo com o desenrolar da partida, mas raramente recebeu a bola no ataque durante o segundo tempo.

"Deveríamos ter lançado mais a bola à frente", afirma Diallo. "Em Tampa, Carlos (Valderrama) tentava fazer lançamentos toda hora, e foi por isso que tive tantas chances. Esse deveria ser o principal objetivo dos meio-campos, fazer com que a bola chegue ao ataque. E, se eu tiver chances, faço gols".

"Mas, lembre-se, eu só joguei durante jogos de 90 minutos antes da temporada. A maior parte dos membros da equipe não jogou mais do que duas partidas de 90 minutos na pré-temporada, e precisamos ter um mínimo de cinco, seis ou dez jogos de 90 minutos para que a equipe fique pronta. Com todos os jogadores novos que possuímos, tudo de que precisamos é jogar juntos mais vezes para que as coisas melhorem".

Tradução: Danilo Fonseca

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