Banco FleetBoston deve diminuir investimentos na América Latina

Scott Bernard Nelson


Quando o FleetBoston Financial Corporation incorporou o BankBoston, três anos atrás, uma das jóias mais valorizadas do negócio era a pequena filial do banco na Argentina. O BankBoston inaugurou a sua primeira unidade argentina em 1917. A instituição cresceu até chegar a ser o segundo maior banco do país, e, até recentemente, proporcionava lucros anuais de US$ 150 milhões (cerca de R$ 348,3 milhões).

Em dezembro do ano passado, no entanto, uma depressão econômica se alastrou pela Argentina e fez com que a estrela dos investimentos do Fleet se transformasse em um autêntico campo minado financeiro. O maior banco da Nova Inglaterra perdeu o equivalente a seis anos de lucros na sua filial, somente no quarto trimestre de 2001, e a ameaça de que haja mais problemas na região fez com que o preço das ações do Fleet caísse.

A reestruturação anunciada pelo Fleet na terça-feira parece deixar pouco espaço para as operações internacionais em geral, e o diretor-executivo, Chad Gifford, disse que a Argentina com certeza estará sendo examinada cuidadosamente nos próximos meses. Na verdade, à medida em que o banco volta a concentrar as suas energias sobre as operações na Nova Inglaterra, o compromisso de 85 anos da empresa para com a América Latina pode estar chegando ao fim.

"Os problemas na Argentina são desconcertantes", afirma Gifford, expressando a preocupação de que o governo argentino pudesse aprovar medidas que penalizassem empresas estrangeiras. "Temos que nos perguntar se esse é um novo paradigma político que ignora os direitos dos investidores estrangeiros. Será que isso significa uma tendência secular para o aumento dos riscos?".

Gifford prometeu aos acionistas, na terça-feira, que o Fleet não investirá nenhum capital novo na América Latina, e que o banco reduziria os seus empréstimos na região em US$ 1 bilhão (cerca de R$ 2,32 bilhões). Ele disse que "a paciência do Fleet não é ilimitada" e deu a entender que o banco reduzirá as suas operações na região caso a situação não melhore. No entanto, os analistas do setor especulam que o Fleet não conta com muitas opções.

Poucos compradores estariam interessados em patrimônios na América Latina em um momento em que a situação econômica na região é tão incerta, dizem os analistas, e quando regras esdrúxulas baixadas pelo governo argentino fazem com que seja quase impossível desmontar a filial naquele país, mesmo que o Fleet deseje faze-lo.

"Talvez, o melhor que eles possam esperar é que não precisem despejar capital adicional na sua filial argentina", afirma Craig Woker, do Morningstar. "Isso já seria uma boa notícia".

Independentemente de quanto capital novo seja investido na região, um novo problema para o Fleet é a forma como os negócios latino-americanos são vistos pelos olhos de Wall Street. Em um momento em que o forte preço das ações poderia ser a melhor defesa dos bancos, os rendimentos latino-americanos geralmente são descontados pelos investidores dos Estados Unidos, devido a sua volatilidade.

"Quando as coisas vão bem, não somos integralmente recompensados pelos investidores", diz o porta-voz do Fleet, James Mahoney. "E, quando tudo vai mal, somos excessivamente penalizados por eles".

Um possível cenário, segundo analistas do setor e executivos da companhia, seria que o Fleet reduzisse as suas operações na região de maneira suficiente para que tanto as perdas quanto os ganhos futuros fossem minimizados. Essencialmente, de acordo com essa estratégia, com o passar do tempo os negócios na América Latina se tornariam cada vez menos importantes.

Enquanto isso, há quem se pergunte se o investimento argentino não faria com que fosse mais difícil para os executivos do Fleet experimentar uma retomada dos lucros, já que poucos compradores querem os títulos latino-americanos.

"A Argentina é quase que como uma pílula de veneno para a administração", diz Nancy Bush, analista da Ryan Beck & Co. "A Argentina ainda está lá e ninguém consegue resolver o problema da reestruturação. Quem quer uma batata-quente dessas nas mãos?".



Tradução: Danilo Fonseca

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