Abuso sexual cometido por padres traumatiza pais de vítimas

Walter V. Robinson
The Boston Globe
Em Canton (EUA)

Kenneth A. MacDonald era uma presença constante na Igreja St. Gerard Majella, e constantemente contribuia com a paróquia: lia o Evangelho durante as missas de domingo, era professor de educação religiosa e integrava o Conselho Paroquial. Era ainda uma das pessoas mais engajadas no projeto de criação de uma escola para crianças pobres no Haiti.

Para MacDonald, sua esposa Eileen e as nove crianças criadas pelo casal, a paróquia representava muita coisa em suas vidas, e seus pastores e padres lhes demonstravam um respeito incomum por seu exemplo e por seu trabalho.

Mas agora, abatido por uma seríssima doença cardíaca, MacDonald se pergunta se o enorme respeito que tinha por sua igreja -- uma atitude tão comum para sua geração -- não fez com que ele se tornasse complacente demais. Em 1980, Bryan, seu filho de 14 anos, lhe confessou que teria sido alcoolizado e depois sofrido abuso sexual pelo reverendo Peter R. Frost.

Além de todo o sofrimento que este e vários outros incidentes semelhantes causaram às vítimas, e agora à Igreja, há para os pais uma dor adicional: muitos se perguntam se não teriam deixado de perceber os sinais de perturbação de seus filhos. Houve outros que descobriram na época e foram constrangidos pela vergonha e pela culpa. MacDonald enfrentou Frost, mas aceitou sua palavra de que procuraria ajuda.

MacDonald, que tem 72 anos, preferiria hoje ter ido à polícia. "Isso sempre me incomodou. Eu deixei que ele escapasse ileso. No final, acobertei seu problema", ele lamentou em uma entrevista recente. "E nós tínhamos tanto respeito pelos padres".

Sua esposa interrompe: "Isso é só uma parte da história. Foi a igreja que o acobertou".

Apesar da palavra empenhada por Frost em 1980, um outro homem de Canton relatou em detalhes ao The Boston Globe como Frost supostamente o teria molestado na escadaria da igreja de St. Gerard em 1985. A segunda vítima afirmou que ele e seu pai se queixaram ao reverendo William R. Coen, que afirmou que providenciaria tratamento para Frost. Coen morreu no início deste ano. Frost, que hoje tem 62 anos de idade e interrompeu suas atividades paroquiais em 1992, desde esta data retira licenças médicas, e se recusou repetidamente a comentar o assunto.

O Reverendo Christopher J. Coyne, porta-voz da arquidiocese, externou na quarta-feira sua compaixão pela família MacDonald, e por quatro outras vítimas de padres, e que se sentem aflitas por acreditar que alguns padres continuarão a molestar outras crianças. "Os relatos destas pessoas são horrendos, e nos fazem querer mudar completamente o passado", disse Coyne.

Após ter entrado em contato com outras autoridades da Igreja, Coyne afirmou que Frost era um entre diversos padres cujos nomes foram apresentados a procuradores sob alegações de abusos sexuais. No caso de Frost, afirma Coyne, a arquidiocese agora "sabe perfeitamente que ele esteve envolvido em abusos de menores".

Na quarta-feira, Bryan MacDonald tornou-se o mais recente adulto a confirmar em processos que teria sido abusado sexualmente por padres da arquidiocese de Boston em sua infância. Desde janeiro, mais de 500 supostas vítimas de padres constituíram defesa legal para indiciar a arquidiocese e alguns de seus padres.

No processo de MacDonald, registrado na Corte Superior de Suffolk, o procurador Douglas K. Sheff acusa a arquidiocese por ter sido informada a respeito de abuso de crianças antes que Bryan MacDonald fosse molestado. E Sheff afirmou em uma entrevista que possui certeza quase absoluta de que a interrupção das atividades paroquiais de Frost em 1992 foi motivada por seu passado de abusos contra menores.

Os MacDonalds -- pai e filho - afirmam que têm tratado constantemente do assunto nos últimos meses, após a piora do quadro de saúde de Kenneth MacDonald e a eclosão dos escândalos de abusos cometidos por padres.

Bryan, que hoje tem 36 anos e mora em San Diego, afirma que passou por graves problemas psicológicos decorrentes do abuso que sofreu. Ele e seu pai disseram acreditar ser importante falar abertamente a respeito do ocorrido para a família.

"Em 1980, meu pai fez quase tudo o que se esperaria de uma pessoa razoável quando enfrentou Frost, se levarmos em conta a maneira como os católicos de sua geração estavam condicionados a lidar com os padres", afirmou Bryan MacDonald.

No início daquele ano, Bryan acabara de ingressar no colegial, e havia começado a trabalhar em meio período na Igreja, onde atendia o telefone. Frost se aproximou dele. Houve duas ocasiões em que o padre lhe fez cócegas, mas ele não se incomodou.

Certa noite, Frost o convidou para acompanhá-lo até a casa de seus pais, em Hyde Park. Ali, segundo consta do processo, Frost convenceu o garoto a ingerir bebidas alcóolicas e abusou-o com a prática de sexo oral.

"Fiquei transtornado, e contei tudo ao meu primo", recorda Bryan MacDonald. "Ele contou para minha tia e meu tio, e eles contaram ao meu pai". Ken MacDonald se recorda de ter chamado seu filho e lhe arrancado a verdade. "Na hora em que descobri, tive vontade de dar um tiro em Frost", ele disse. Ele pediu ao filho que permanecesse em casa, e seguiu para a igreja.

"Ele estava lá, e nós fomos até sua sala. Eu estava irado, e disse: 'Não acredito no que aconteceu'. Ele não negou nada. Ele disse: 'você me pegou'. Eu perguntei como ele pôde fazer aquilo, e não houve resposta", disse MacDonald. Frost lhe disse que já contava com auxílio psiquiátrico, e o convenceu de que seus superiores já o ajudavam.

De tempos em tempos, recorda-se MacDonald, "eu falava sobre o assunto com o padre Frost. Eu perguntava: 'Como está o seu problema?' Ele dizia que estava bem".

E no entanto cinco anos depois, em 1985, Frost supostamente teria molestado um garoto de 15 anos de idade que na época tinha o mesmo emprego temporário -- atendia o telefone na igreja -- segundo informa a vítima, que tratou do assunto sob a condição de que seu nome não fosse revelado. The Boston Globe adota a política de não identificar nomes de vítimas de abuso sexual sem o seu consentimento.

A vítima, que hoje tem 31 anos, afirmou que Frost o convidou para subir a escadaria, onde ele teria encontrado o padre em uma banheira. Frost lhe pediu que lavasse suas costas. O homem afirma que foi "pego de surpresa", e concordou. Em seguida, ele disse, se sentiu aturdido. Frost saiu da banheira, convenceu-o a assistir um vídeo pornográfico e mais tarde molestou-o.

O homem recorda-se de que saiu do quarto, desceu a escadaria, escreveu um bilhete em que dizia: "Peço demissão", pendurou-o no escaninho de Frost, segui até sua casa e contou para seus pais.

"Eles ficaram chocados, mas me asseguraram de que eu não havia feito nada de errado. Meu pai me disse que se sentia orgulhoso por saber que eu havia pedido demissão e ido embora", afirma a vítima. Após ele e seu pai terem relatado o incidente a Coen, o pastor pediu ao garoto que os deixassem a sós. Coen garantiu ao pai que Frost receberia tratamento.

Em 1988, Frost foi transferido para a igreja de St. Elizabeth em Milton, onde permaneceu por três anos, segundo atesta o registro anual da arquidiocese, e mais tarde para a igreja de St. Anne em Readville, tendo ali permanecido por mais um ano, antes que obtivesse uma licença médica.

O homem de 31 anos afirma ter se sentido desamparado por vários anos. "Sempre senti que não havia nada a fazer. Agora estou satisfeito por ver que algo está sendo feito", ele diz, embora tenha acrescentado que não apresentará queixa.

Bryan MacDonald também afirmou sentir-se aliviado diante do fato de que agora as pessoas saberão o que aconteceu. "Fico revoltado por saber que ele permaneceu impune durante todos estes anos. E isso só aconteceu porque ele é um padre. Se ele fosse uma outra pessoa, estaria na cadeia".

Tradução: André Medina Carone

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