Paranapiacaba chama a atenção e deverá ser preservada

Christine Temin
The Boston Globe
Em Paranapiacaba (Brasil)

A maioria das pessoas se atrapalham com o nome polissilábico desta cidade a uma hora e meia ao norte de São Paulo. Mas não Bonnie Burnham. Ela flui ligeiramente pela língua da mulher que é presidente do World Monuments Fund (Fundo dos Monumentos Mundiais), que está ajudando a cidade a restaurar e remodelar sua herança.

Ela já foi um importante elo ferroviário entre as plantações de café do planalto e o porto por onde os grãos eram enviados. No final do século 19, engenheiros britânicos descobriram uma forma de puxar os vagões por inclinações acentuadas, antes intransponíveis. A ferrovia britânica se tornou a mais lucrativa no Império onde o sol nunca se punha.

Quando os britânicos partiram, eles deixaram para trás um oásis arqueológico praticamente intocado por décadas. Se continuasse esquecido por mais algum tempo, este capítulo chave da história colonial correria o risco de desaparecer.

Felizmente, este é o tipo de sítio industrial que cada vez mais atrai a atenção dos preservacionistas.

Como a Rainha da Inglaterra, Burnham aconselha sem administrar diretamente o espetáculo. E, como uma rainha visitando uma aldeia cheia de monarquistas, a presença de Burnham interessa imensamente aos moradores de Paranapiacaba. Para as pessoas que vivem em casas arruinadas de dois cômodos, de paredes de concreto e telhados de chapas onduladas enferrujadas de estanho, ela é um símbolo da esperança de um futuro melhor.

A visita dela a Paranapiacaba foi a culminação de uma conferência realizada em São Paulo -a primeira que o fundo organizou sobre a preservação na América do Sul. Foi também a primeira conferência abrangente sobre um assunto não tratado pelos governos, mas por organizações não-governamentais, ou ONGs. Não havia papo burocrata. Mais de 150 dos mais importantes especialistas no campo estavam livres para dizer o que pensavam. As apresentações que fizeram no auditório da Pinacoteca de São Paulo foram claras -um grito de ajuda para um continente várias vezes caracterizado como empobrecido e corrupto.

As casas de concreto estão de um lado dos trilhos de Paranapiacaba. As casas britânicas, feitas de madeira, estão do outro, um pequeno pedaço da Inglaterra vitoriana a alguns poucos milhares de quilômetros fora do país. As casas de madeira estão todas pintadas de vermelho escuro, porque esta era a cor oficial da ferrovia e os britânicos deixaram suas latas de tinta para trás. As construções, agora de propriedade do governo local e habitadas por pessoas que trabalham em outro lugar ou não trabalham, precisam não apenas de reforma, mas de novas soluções.

Alguns moradores locais querem torná-las pousadas, para fazer de Paranapiacaba um destino turístico com ênfase na produção e venda do artesanato local. Uma ilusão? Burnham cita um precedente, outra cidade economicamente em depressão cujos prédios industriais abandonados renasceram por meio da cultura, o resultado de outro plano que inicialmente soava implausível. É North Adams, em Berkshires, que deve seu renascimento ao Museu de Arte Contemporânea de Massachusetts.

O World Monuments Fund, com sede em Nova York, descreve a si mesmo como "a única organização privada, sem fins lucrativos, dedicada à conservação de monumentos e sítios em todo o mundo". Muitos países fazem algo semelhantes como parte de sua política de governo. "Os Estados Unidos estão errados em não tornar a conservação do patrimônio histórico uma parte de suas relações internacionais", disse Gustavo Araoz, diretor executivo do US/International Committee on Monuments and Sites (Comitê Internacional-americano de Monumentos e Sítios), uma ONG. "Os franceses e japoneses são mestre nisto. Estes dois países estão promovendo 10 vezes mais (em conservação) no Camboja do que os Estados Unidos. A política externa americana trata de negócios, democratização e direitos humanos. Mas também devia tratar de arte e arquitetura".

Até agora, a arte e a arquitetura da América do Sul não têm sido foco dos esforços internacionais de preservação. Dos 721 sítios do Patrimônio da Humanidade da Unesco, metade estão na Europa e 106 estão na América do Sul, um desequilíbrio que data da época em que "preservação" significava "Europa".

Previsivelmente, o primeiro projeto do fundo ocorreu na Europa. Foi em 1966. O fundador da organização, o coronel James Gray, era um engenheiro civil americano que amava a Itália e a história. Ele tentou fazer com que o governo italiano o autorizasse endireitar Torre de Pisa: a resposta foi não. Logo depois ocorreram terríveis inundações em Florença e Veneza. Gray começou a trabalhar em Veneza, e assim nasceu a organização que se tornaria o World Monuments Fund.

Um de seus primeiros projetos foi na América do Sul, na Ilha de Páscoa. Não houve outro no continente nas três décadas seguintes. Durante estes anos, o fundo operou conscientemente mas também casualmente. "Bonnie e eu obtínhamos as idéias para os projetos lendo os jornais", disse John Stubbs, o vice-presidente para programas do fundo.

Então, em 1996, o fundo inaugurou sua lista bienal dos 100 Sítios Mais Ameaçados. A American Express foi a primeira patrocinadora, destinando US$ 10 milhões. A idéia era a de que qualquer pessoa de qualquer país poderia indicar um sítio, o que literalmente abriu um mundo de possibilidades.

A queda da União Soviética, o desenvolvimento da Internet, e o aumento do tráfego aéreo internacional também ajudaram a globalizar a lista. Os monumentos sul-americanos começaram a aparecer na lista, o que automaticamente dá ao sítio um maior destaque -e ajuda. Até o momento, o fundou arrecadou e contribuiu com mais de US$ 75 milhões para os sítios "Mais Ameaçados". O tom da conferência de São Paulo foi tanto sombrio quanto esperanço. Negligência do governo; corrupção e saque; falta de recursos; falta de visibilidade; falta de interesse: estes eram os tópicos. Assim como o turismo. As Ilhas do Havaí atraem mais turistas por ano do que toda a América do Sul. A América do Sul quer um aumento; o turismo cultural e de patrimônio histórico é importante para as economias de todas as partes do mundo. Mas o turismo traz seus problemas, que Araoz resume: "Nós salvamos os lugares para que as pessoas possam apreciá-los, e então nós permitimos a entrada de milhares de pessoas para destruí-los".

Os assuntos tratados na conferência foram de arte pintada nas pedras na Bolívia sendo apagada pelos turistas que as escalam, até uma frágil sinagoga do século 17 no Suriname. Havia um desacordo sobre se os arquitetos que lidam com sítios históricos deveriam acrescentar suas próprias vozes. Graziano Gasparini, uma autoridade venezuelana em prédios coloniais, fez um discurso inflamado contra arquitetos contemporâneos enxertando novas declarações de design em outras importantes já existentes. "Quem", ele disse com escárnio, "teria a coragem de adicionar uma nova arquitetura a Corbusier?"

Houve até mesmo algumas poucas queixas sobre a preservação da natureza estar recebendo mais apoio do que a preservação do patrimônio histórico. "Quando foi a última vez que um solicitador bateu à sua porta para pedir dinheiro para salvar um prédio ao invés de uma baleia?" perguntou um participante.

Alguns dos sítios sul-americanos que o World Monuments Fund quer ver preservados refletem o atual interesse na arquitetura industrial. Veja o exemplo dos elevadores de Valparaiso, Chile. À medida que a cidade prosperava no final do século 19, bairros cresceram nas encostas íngremes com vista para ela. Para transportar as pessoas para cima e para baixo eficientemente, duas dúzias de elevadores gigantes foram construídos entre 1883 e 1915. Eles se tornaram fonte de orgulho cívico, um símbolo da cidade. Apesar de ainda estarem em uso, a existência deles foi ameaçada nos últimos anos por meios mais modernos de transporte. Finalmente, os elevadores foram declarados monumentos nacionais e foi desenvolvido um plano para reformá-los e mantê-los -mas os recursos para a implementação do plano ainda precisam ser levantados.

Evitar elevadores, e não preservá-los, tem sido uma questão no sítio arqueológico mais famoso da América do Sul, Machu Picchu. Há duas formas para se chegar até as ruínas incas: a pé ou com um ônibus altamente poluente que segue por uma estrada sulcada em ziguezague. Uma terceira alternativa quase surgiu em 1998, quando o governo peruano deu a investidores privados uma concessão para a construção de um bondinho até Machu Picchu, que aumentaria em quatro a seis vezes o número de visitantes em um sítio já lotado.

Os preservacionistas chiaram. O governo do Peru mudou. No ano passado o novo regime descartou o bondinho -o motivo de Machu Picchu ter sido removida da lista neste ano.

Não que os problemas do sítio tenham sido solucionados. "É irreal tentar manter as pessoas afastadas quando elas estão determinadas a vir", disse Burnham. "Mas o que é necessário é um planejamento em grande escala para o sítio". Entre as sugestões dela estão: um centro para visitantes para preparar as pessoas para o que vão ver, já que virtualmente não há placas ou outras informações nas ruínas; regular o fluxo de visitantes; levar os turistas para muitos outros sítios incas que são pouco visitados.

O que provocou preocupação local em torno do destino de Machu Picchu foi um acidente terrível ocorrido dois anos atrás, quando seu icônico relógio de sol foi atingido pelo braço de uma grua -parte do equipamento trazido para filmar um comercial de cerveja. O resultado foi um sulco em "uma pedra que é um dos poucos monumentos ligados diretamente ao culto inca do sol que sobreviveram à conquista espanhola", disse uma participante da conferência, Mariana Mould Pease, uma das maiores oponentes ao bondinho. Segundo ela, a permissão para os produtores do comercial de cerveja filmarem em Machu Picchu se deve à corrupção do funcionalismo.

O trem para Paranapiacaba sobe por colinas verdejantes, finalmente parando em uma estação decrépita envolta em neblina e com uma réplica do Big Ben -uma incompatibilidade que beira o ridículo. Burnham chegou armada com US$ 50 mil em "seed money" (contribuição inicial) para gastar na vila. Ela também veio com uma idéia que parecia boa em Nova York: restaurar um dos prédios de cimento e estanho no lado "errado" dos trilhos, para servir como um centro de recepção aos turistas. O prédio, a Casa 33, se mostrou apertada, muito esfacelada e longe do centro da cidade.

Independente de quão humilde, a Casa 33 ainda é uma candidata a restauração. "Este tipo de casa com cômodos enfileirados é um tipo importante de construção", disse Stubbs, do World Monuments Fund. "Faz parte da paisagem industrial. A meta não é salvar apenas os prédios mais chamativos".

Enquanto isso, uma casa com localização mais central -que foi construída pelos britânicos- provavelmente se tornará o novo centro de turistas. A percepção de que os prédios britânicos são mais dignos de conservação do que os locais não tem sido um problema, disse Stubbs, porque a escolha foi feita em colaboração com a comunidade local. "Nós somos apenas advogados", disse ele em um tom modesto. "Nós não queremos dizer às pessoas o que fazer".

Quer as pessoas de Paranapiacaba sintam ou não que estão lhes dizendo o que fazer, elas trataram a delegação do fundo como se fosse a realeza, oferecendo uma recepção generosa com guloseimas caseiras. Alguns moradores realizaram um protesto inesperado, com discursos e folhetos condenando a recente construção "ilegal" de uma nova casa horrorosa, posicionada proeminentemente ao lado da igreja da cidade, supostamente erguida por um
funcionário da Prefeitura, com as autoridades fazendo vista grossa.

Os manifestantes queriam que o fundo cuidasse disto também, pedindo a Burnham que lutasse por "uma verdadeira política de inspeção e proteção da vila pelas nossas autoridades", como se ela tivesse poderes para persuadir a Prefeitura.

Enquanto Burnham embarcava no trem para a viagem de volta para São Paulo, um morador local correu para presenteá-la com uma bela caixa cheia de gravuras feitas pelos artistas locais -o tipo de produto artístico que eles esperam que ajudará a despertar a vila adormecida.


Tradução: George El Khouri Andolfato

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