EUA estabelecem condições para que haja eleições palestinas

Anthony Shadid e Mary Leonard
The Boston Globe
Em Washington (EUA)

As eleições palestinas para a escolha de um presidente e de um parlamento -- peças centrais para os esforços dos Estados Unidos pela criação de uma nova liderança na região -- serão adiadas até que as reformas impostas por Washington possam assegurar votos livres e justos, segundo uma autoridade do Departamento de Estado.

Originalmente marcadas para janeiro de 2003, as eleições ainda poderão ocorrer no início do ano que vem, disseram autoridades norte-americanas. Mas eles advertem que mudanças drásticas devem ocorrer primeiro, incluindo medidas estritas por parte dos palestinos para garantir a lisura das votações e uma retirada militar dos israelenses para as posições anteriores ao início da atual intifada, que começou em setembro de 2000. As autoridades norte-americanas disseram que a implementação de tais medidas não será possível até janeiro, e que ela poderá ser prejudicada pela violência.

"Creio que as eleições acontecerão, idealmente, no início de 2001, mas não acho que janeiro seja uma previsão realista", disse em entrevista uma autoridade da Casa Branca.

Para a insatisfação das autoridades palestinas, elas foram informadas no início deste mês, em Washington, sobre a posição norte-americana, afirmou Edward Abington, ex-cônsul geral dos Estados Unidos em Jerusalém e consultor junto à Autoridade Palestina.

Segundo as informações mais detalhadas até o momento, autoridades norte-americanas fizeram um esboço das seguintes reformas que desejam que ocorram antes das eleições: uma comissão eleitoral independente para fiscalizar as eleições, acesso dos candidatos de oposição à mídia livre e independente, a proibição do uso de verbas da Autoridade Palestina por quaisquer candidatos, e um código de ética que deve ser assinado por candidatos e partidos, no sentido de que se assuma um compromisso quanto à não violência.

"Gostaríamos de presenciar eleições as mais livres e limpas possíveis. Creio que isso é o mais importante", disse uma autoridade dos Estados Unidos. "Eu diria que o prazo de janeiro é por si mesmo crítico".

As eleições emergiram como um dos pontos fundamentais da estratégia do presidente Bush para resolver o conflito entre israelenses e palestinos. Em um discurso em 24 de julho, o presidente pediu a criação de um Estado palestino em um prazo de três anos, mas somente após os palestinos promoverem amplas reformas institucionais e elegerem aquilo que ele definiu como "líderes sem compromisso com o terrorismo". Desde então, as autoridades norte-americanas deixaram claro que não vão mais negociar com o líder palestino Iasser Arafat.

Bush afirmou inicialmente que os Estados Unidos e outros países ajudariam os palestinos a promover eleições locais até o final deste ano, "seguidas por eleições nacionais". A Autoridade Palestina disse que fará eleições presidenciais e parlamentares em janeiro.

Embora Arafat não tenha anunciado oficialmente a sua candidatura, vários palestinos esperam que o líder de 73 anos concorra novamente. A sua vitória em eleições que fossem consideradas livres e limpas por observadores internacionais se constituiria em um desafio para futuras políticas dos Estados Unidos -- uma possibilidade com a qual as autoridades norte-americanas afirmaram que terão que lidar mais tarde.

Conforme as reformas progredirem, disse a fonte do Departamento de Estado, os Estados Unidos pressionarão Israel para que se retire dos territórios devolvidos aos palestinos de acordo com um tratado, mas reocupados após o levante palestino.

Os palestinos têm insistindo que uma retirada e um fim aos bloqueios que limitaram drasticamente a movimentação na Cisjordânia são medidas necessárias não apenas para uma eleição, mas também para a campanha que antecederá a votação. Autoridades norte-americanas parecem apoiar a idéia, mas insistem que um fim aos ataques contra israelenses deve ocorrer primeiro.

"É preciso que haja segurança para que se promova uma retirada, é preciso fazer a retirada para se ter eleições, e são necessárias eleições para se dar início a uma mudança na liderança ou sustentar a transformação dessa liderança", disse uma fonte.

A exigência de Bush de uma nova liderança palestina tem sido o elemento mais polêmico na estratégia que vem sendo implementada pelos Estados Unidos para lidar com um conflito que conheceu a sua fase mais violenta em um período de mais de uma geração -- tanto no que se refere aos ataques suicidas palestinos, quanto às operações do exército judeu. Embora vários líderes árabes e europeus estejam insatisfeitos com a liderança de Arafat, eles se sentem pouco à vontade com a idéia de derrubar um líder eleito pelo povo. Não obstante, todas as partes reconheceram que somente Washington é capaz de garantir um acordo entre israelenses e palestinos.

Arafat continua sendo o líder palestino mais popular. Mas autoridades dos Estados Unidos esperam que, à medida que as reformas progridam e que Israel se retire, uma nova liderança possa emergir.

Uma autoridade norte-americana disse que têm sido presenciados sinais de uma motivação real, especialmente quanto à reforma de instituições financeiras palestinas, além do acordo desta semana quanto à retirada israelense da Faixa de Gaza e da cidade de Belém, na Cisjordânia.

Mas há quem esteja mais incerto quanto aos resultados.

Abington disse que as reformas parecem voltadas mais para a remoção de Arafat do que para incrementar a governabilidade palestina. Ele afirmou que a iniciativa de adiar as eleições se deve ao temor prevalecente em Washington de que Arafat ganhe quaisquer eleições realizadas nos próximos meses.

"E, por trás de tudo isso há a sensação de que, caso haja eleições, Arafat provavelmente concorrerá novamente, e mais uma vez será eleito, de forma que as coisas não mudem", disse Abington. "O que então os norte-americanos vão fazer? Eles estão cada vez mais convencidos de que o processo eleitoral deve ser adiado e que a situação deve seguir o seu atual curso por mais algum tempo".

Autoridades norte-americanas dizem que não desejam adiar as eleições, somente garantir salvaguardas para que o processo eleitoral seja limpo. Autoridades do Departamento de Estado planejam se reunir com representantes da União Européia, Rússia, Nações Unidas, Japão, Noruega, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, esta semana, em Paris, para darem início àquilo que descrevem como linhas "muito claras e específicas" para reformas palestinas que exigirão uma resposta israelense. Uma prioridade será fazer com que Israel libere a receita de impostos, confiscada da Autoridade Palestina.

O encontro de Paris será seguido por uma conferência de nível mais elevado em setembro, em Nova York, paralela à reunião da Assembléia Geral das Nações Unidas.

Os Estados Unidos estarão representados em Paris por David Satterfield e Elizabeth Cheney, ambos vice-secretários-assistentes de Estado. Cheney, filha do vice-presidente Dick Cheney, foi designada para o cargo no primeiro semestre deste ano.

Tradução: Danilo Fonseca

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