Apoio britânico é indispensável na campanha americana contra o Iraque

Robert Schlesinger
The Boston Globe
Em Washington (EUA)

O primeiro-ministro britânico Tony Blair não fez grandes revelações ao divulgar o relatório de seu governo sobre Saddam Hussein na terça-feira, mas ao menos apresentou novos detalhes desta campanha contra o Iraque e protegeu os americanos contra a acusação de que eles estariam praticando um unilateralismo ao estilo dos faroestes.

A exposição de Blair reeditou, em traços genéricos, as afirmações feitas há vários meses pelo presidente e por diversas autoridades do governo americano a respeito da busca iraquiana por armas de destruição em massa. O primeiro-ministro revelou ainda alguns novos detalhes -- que o Iraque produz armas biológicas e químicas em ritmo acelerado e tentou comprar urânio junto a países africanos -- além de ter indicado algumas regiões mais críticas e detalhado os produtos buscados pelo Iraque para seu programa nuclear.

Mas a cena da defesa feita por Blair dos argumentos americanos -- não só diante do público nacional, mas de toda a Europa -- talvez tenha sido o elemento mais significativo daquela exposição, no momento em que o apoio britânico tornou-se uma peça importante para a divulgação e a defesa das políticas americanas no exterior.

"Os Estados Unidos e a Inglaterra atuam juntos em situações desta espécie há pelo menos cinco anos", afirma John Pike, diretor da GlobalSecurity.org, um instituto de pesquisas sobre defesa sediado no estado de Virgínia. "Hoje um dos elementos centrais da política externa americana é a defesa de seus argumentos pelos ingleses".

Embora estes detalhes esclareçam melhor os argumentos contra o Iraque, o meio talvez seja aqui mais relevante do que a mensagem, segundo afirmam especialistas em defesa e política externa: Blair confere aos argumentos americanos uma dimensão internacional e obriga as lideranças européias a conceder maior apoio político aos Estados Unidos.

"George W. Bush se encontraria em uma posição muito mais delicada se Blair não estivesse ao seu lado, pois neste caso não haveria absolutamente ninguém que o apoiasse", afirma Ian Cuthbertson, diretor do Projeto de Contra-Terrorismo do World Policy Institute em Nova York.

O documento britânico não apresenta grandes novidades em parte porque apenas debate conclusões obtidas a partir de relatórios de inteligência e não revela fontes ou métodos.

O programa nuclear iraquiano se concentrou no empenho em desenvolver urânio enriquecido -- um elemento decisivo para a fabricação de armas nucleares. Embora as tentativas iraquianas de aquisição de tubos especializados de alumínio necessários para a construção de uma centrífuga de gás para o projeto já tivessem sido denunciadas anteriormente, o dossiê britânico acrescenta novos itens à lista de compras nucleares de Hussein: bombas a vácuo para criar e manter as pressões, uma linha de produção de imãs para os motores da centrífuga, os gases necessários, uma máquina de impulsão de filamentos que fabricasse os rotores e uma grande balança para o início da atividade da centrífuga.

Autoridades americanas já declararam publicamente que o Iraque possui vasto acervo de armas químicas e biológicas, mas o relatório britânico argumenta explicitamente pela primeira vez que o Iraque retomou a produção de substâncias letais -- uma acusação que ultrapassa todos os cálculos da inteligência americana. Há apenas dois anos, a inteligência britânica não dispunha de provas de que o Iraque tivesse retomado sua produção, segundo afirma Cuthbertson, que já trabalhou no ministério britânico de relações exteriores.

O relatório britânico ainda revela mais detalhadamente do que investigações anteriores quais instalações iraquianas merecem ser objeto de maior preocupação. E ainda nos pemite observar a estrutura iraquiana de comando e controle para estas armas, destacando que estas armas não apenas são parte constitutiva do planejamento militar iraquiano como também "a força militar iraquiana teria condições de lançar armas químicas e biológicas 45 minutos após a emissão de uma ordem". Em uma guerra, o planejamento militar americano deverá priorizar trabalhos para romper esta cadeia de comando, na esperança de que a ordem não chegue até a linha de combate.

O relatório ainda oferece outros detalhes reveladores acerca da busca secreta dos iraquianos por armas de destruição em massa. Embora contenha poucas informações sobre a produção atual e futura de mísseis, ali encontra-se uma fotografia de satélite que aparentemente revela uma maquina capaz de estimar a capacidade de sistemas de propulsão para mísseis de balística de médio alcance -- e que poderia atingir a Europa. Entretanto, a fabricação de tais armamentos provavelmente continua a ser uma perspectiva distante.

De maneira análoga, o dossiê traz uma fotografia aérea de um dos "palácios presidenciais" que Hussein tenta proteger da ação dos inspetores da ONU. Destacada do resto, para que chamasse a atenção, está a imagem de um terreno que possui a área do Palácio de Buckingham -- uma extensão considerável de terra escondida no território iraquiano.

O papel de Blair não é novo. Recentemente ele defendeu o ataque contra o Afeganistão no momento em que os Estados Unidos buscavam o apoio a uma ofensiva contra o país para derrubar o Taleban.

"Ao longo das últimas seis décadas, a política externa britânica consistiu em ser o parceiro menor do império americano", afirma Pike. "Agora que já não comandam seu império, eles nos ajudam a comandar o nosso".

Cuthbertson destaca que, além de garantir a Bush uma cobertura internacional para sua política, Blair concede a outros líderes europeus "um forte incentivo" para que adotem a linha dos Estados Unidos.

Tradução: André Medina Carone

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