Estudos avaliam efeitos de alimentação sobre risco de câncer

Stephen Smith
The Boston Globe

Mudanças na alimentação podem reduzir drasticamente o risco de câncer em ratos, uma descoberta que pode gerar esclarecimentos importantes sobre tumores malignos em seres humanos, segundo anunciaram pesquisadores na terça-feira (15), durante um grande simpósio de especialistas na doença, em Boston.

As descobertas sobre a relação entre alimentação e câncer foram divulgadas em uma reunião da Associação Americana de Pesquisas sobre o Câncer, na primeira vez em que a organização dedicou um dos seus encontros à prevenção do câncer. O encontro é um sinal da atenção crescente dispensada pelos cientistas ao papel vital que os alimentos podem desempenhar sobre o risco da doença.

Ratas jovens que receberam refeições ricas em um óleo comumente encontrado nos salmões tiveram uma incidência de câncer da mama bem menor do que a observada nos animais que tiveram uma dieta comum. E, em uma descoberta que surpreendeu os pesquisadores, ratas adultas que fizeram um regime do tipo "iô-iô", similar àquelas dietas que causam o chamado "efeito sanfona" nos seres humanos, tiveram uma incidência de câncer do seio duas vezes menor do que a dos animais submetidos a uma dieta constante.

A relação entre o que comemos e o risco de câncer há muito tempo é um assunto explorado pelos livros de pseudo-medicina. Vários alimentos, desde óleos até aveia, foram apresentados ao público como sendo inibidores do câncer. Mas, agora, esse campo se transformou em parte das pesquisas científicas sérias sobre a doença.

"Acreditamos que no futuro seremos capazes de tratar o câncer de maneira similar àquela como os cardiologistas atualmente tratam as doenças do coração", afirma Susan Band Horwitz, cientista da Faculdade de Medicina Albert Einstein, em Nova York, e presidente da associação de pesquisa sobre o câncer. "Por meio do uso de medicamentos preventivos e modificações no estilo de vida, a cardiologista deixou de se concentrar no tratamento de grandes doenças cardiovasculares para identificar e corrigir os fatores de risco".

Em ratos, a obesidade sem dúvida aumenta o risco de câncer, segundo os cientistas que apresentaram as suas descobertas na terça-feira. Um estudo feito pelo Instituto Nacional do Câncer utilizou ratos geneticamente modificados para apresentarem uma maior suscetibilidade ao câncer da mama. A seguir, os ratos foram separados em dois grupos: a metade pôde comer o quanto quisesse, enquanto que os outros consumiram uma dieta que continha apenas 60% das calorias utilizadas pelo outro grupo. Os ratos que fizeram dieta ficaram livres de tumores por um período duas a três vezes maior do que os ratos obesos.

Um fator que confere um grau de urgência à pesquisa de laboratório é a epidemia de obesidade que varre o mundo. O periódico especializado, "Journal of the American Medical Association" anunciou na semana passada que quase dois em cada três americanos estão acima do peso recomendado ou são obesos.

"As estatísticas relativas à obesidade são bastante alarmantes", afirma Stephen Hursting, pesquisador do Instituto Nacional do Câncer, que estuda a relação entre alimentação e câncer. "Estamos nos deparando com um problema de verdade, que está presente em todos os grupos demográficos".

Na Universidade Georgetown, pesquisadores descobriram que jovens ratos alimentados com uma dieta com pouca gordura e rica em ácidos gordurosos Omega-3 provenientes de óleo de peixe apresentavam uma probabilidade 35% menor de sofrer de câncer da mama do que os animais que tinham uma dieta gordurosa. Porém, segundo Leena Hilakivi-Clarke, professora de oncologia da Universidade Georgetown, os cientistas ainda não estão preparados para dizer aos pais que estes deveriam começar a alimentar os filhos com uma dieta composta por peixes de águas frias.

Isso porque não se pode afirmar inequivocamente que as pesquisas feitas com ratos possam ser aplicadas aos seres humanos. É esse o desafio com que se depara Margot Cleary, da Universidade de Minnesota, ao tentar fazer com que as suas pesquisas se apliquem a homens e mulheres. Ela criou três grupos de ratos geneticamente modificados. Um grupo podia comer o quanto quisesse, enquanto que um outro foi submetido a uma dieta rigorosa durante toda a duração do estudo. O terceiro grupo teve uma dieta cíclica: Durante três semanas eles receberam apenas a metade da alimentação fornecida aos ratos do primeiro grupo. A seguir, durante as três semanas seguites, permitiu-se que eles se empanturrassem.

Após acompanhar o efeito da experiência nos ratos durante um ano e meio, Cleary descobriu que, entre os ratos que fizeram a "dieta iô-iô", somente 15% tiveram câncer de mama, comparados a 37% dos ratos que fizeram uma dieta rigorosa, e a 84% dos que comeram a vontade.

"Esse resultado é absolutamente o oposto do que havíamos previsto no início do estudo", afirma Cleary.

Cleary se queixa de que tem sido difícil obter verbas para o estudo.

"Tento obter apoio para o estudo, mas me respondem que não sei como funciona o processo", afirma. "Eu digo então que realmente não compreendo o mecanismo e que é exatamente por isso que preciso das verbas".


Tradução: Danilo Fonseca

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