Há vezes em que o terrorismo vence?

H.D.S. Greenway
The Boston Globe

O terrorismo, definido como assalto a civis para atingir fins políticos, alguma vez é bem sucedido? Estudiosos do assunto têm opiniões díspares. Caleb Carr, historiador militar, diz que não. Seu novo livro tem como título: "The Lessons of Terror: A history of warfare against civilians - why it has always failed and why it will fail again" (As lições do terror: Uma história de Guerra contra civis --porquê sempre fracassou e sempre fracassará).

"A guerra contra civis, seja inspirada pelo ódio, vingança, cobiça ou insegurança política e psicológica, tem sido uma das táticas mais contraproducentes de toda a história militar", escreve Carr. "A erradicação do terrorismo não será alcançada por algum tipo de acordo com seus agentes, nem por sua destruição física. Mas sim quando for percebido como uma estratégia e um comportamento que não levam a nada, a não ser eventuais perdas para as causas que os inspiram".

Outros estudiosos do terrorismo não estão tão seguros. Paul Wilkinson, diretor do Centro para Estudo de Terrorismo e Violência Política da Universidade Saint Andrews, na Escócia, é um deles. Apesar de admitir que em geral, é difícil dizer que o terrorismo atingiu importantes objetivos políticos, ele escreve que, em alguns casos, o terrorismo foi "eficaz como arma auxiliar em batalhas revolucionárias e de liberação nacional". Segundo ele, houve casos nos quais o terrorismo "foi importante para provocar grandes mudanças políticas". Um exemplo teria sido o papel dos terroristas judeus na expulsão dos britânicos da Palestina, na década de 40. Circunstâncias atenuantes tornaram os esforços britânicos de combate ao terrorismo ineficientes. Dentre elas, os "limites humanitários e legais", respeitados pelos britânicos, que impediram ataques draconianos e a disputa comunal pelo poder entre árabes e judeus, que impossibilitou um acordo diplomático pacífico.

Na Palestina, a principal luta armada judia contra os britânicos foi desenvolvida pelo Haganah, que não ficou famoso por ataques terroristas contra civis. O Irgun e o Stern Gang, porém, liderados respectivamente por Menachem Begin e Yitzhak Shamir, não respeitaram esse tipo de limite. Os dois líderes foram considerados terroristas mesmo por muitos judeus e vieram a ocupar o cargo de primeiro ministro de Israel.

Certamente, ambos acreditavam que o terror funcionara. Eric Silver, biógrafo de Begin, escreveu, "Está claro, com base em documentos britânicos e debates, que o terrorismo judeu teve papel significativo em minar o desejo do Reino Unido de permanecer na Palestina". Além disso, as táticas que o governo britânico adotou contra refugiados judeus que tentavam ir para a Palestina tornaram-se tão objetáveis que Winston Churchill levantou-se dos bancos da oposição para denunciar a "guerra esquálida contra os judeus" pelo governo britânico.

Carr, entretanto, alega que as atividades terroristas do Irgun e do Stern Gang, no final, foram contraproducentes. Ele diz que suas táticas "assassinas" fizeram os britânicos, "que tinham sido os mais poderosos protetores dos judeus na região", virarem-se contra os judeus. Depois que os britânicos se foram, os extremistas perderam o confronto com o novo governo de Israel, que nunca estivera à vontade com as táticas terroristas.

"Menachem Begin ainda acreditava que matar civis e jogar bombas em multidões de árabes, de alguma forma, quebrariam o espírito árabe e provocariam simpatia aos judeus na comunidade mundial. Ele continuava errado", de acordo com Carr. O Irgun e o Stern Gang fracassaram em seus objetivos políticos --queriam um estado de Israel maior, que incluísse ambos os lados do Rio Jordão. Além disso, o "terrorismo cruel que o Irgun criou no caráter israelense nunca foi removido", de acordo com Carr. "Pior, inspirou imitação vingativa entre os palestinos árabes", escreveu. A Organização pela Liberação da Palestina "usou o Irgun como um de seus modelos organizacionais e operacionais... Se não tivessem testemunhado tantos anos de eficiência assassina do Irgun, os palestinos poderiam ter sido tentados a escolher um caminho diferente. No entanto, a raiva, o desespero e a impaciência levaram-nos à mesma estratégia e, inevitavelmente, os resultados de suas decisões foram similares".

É impossível negar que as táticas de terror dos palestinos custaram muito a sua causa. Por outro lado, as imagens de meninos armados com pedras enfrentando tropas israelenses na primeira intifada, dos anos 80, conquistaram-lhes simpatia. Como diz Carr: "A guerra contra civis nunca deve ser respondida na mesma moeda. Assim como o terrorismo tem sido uma tática falida, as represálias igualmente dirigidas foram ainda piores --particularmente quando excederam a amplitude do ataque original".

Aí temos a tragédia do Oriente Médio, onde a vingança segue a vingança, até que o terrorismo e o combate ao terrorismo tornam-se a única forma de diálogo.

Tradução: Deborah Weinberg

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