Jordânia pressionada por alianças com Estados Unidos e Iraque

Elizabeth Neuffer


ALLAN, Jordânia - As contradições são inúmeras nesse pequeno país do Oriente Médio, alinhado entre Israel e Iraque, dois inimigos ferozes. Considerem a clínica local de saúde nesta aldeia, no noroeste da Jordânia, uma região íngreme e pedregosa, de encostas cobertas de oliveiras.

Sua fachada branca e brilhante, o médico e toda a equipe só são possíveis devido ao dinheiro da assistência norte-americana. Mas o óleo de aquecimento da clínica, como o combustível que abastece os tratores dos fazendeiros locais, vem do Iraque -o país que o governo Bush vem ameaçando com a guerra.

Não admira que a Jordânia se sinta pressionada, entre os dois. "Com sorte poderemos nos manter neutros e evitar a guerra", disse Arwa Frahat, 35, secretário da clínica. "Estamos com os iraquianos -e com os norte-americanos".

Uma segunda guerra no Golfo Pérsico seria um delicado ato de equilibrismo para a Jordânia, dividida entre suas alianças históricas e os modernos laços comerciais com o Iraque e os Estados Unidos. Já está claro que balancear as realidades de Bagdá, Washington e dos cidadãos jordanianos não será tarefa fácil, caso uma guerra realmente aconteça.

Por um lado, o jovem soberano da Jordânia, rei Abdullah II, comanda um país que é um dos mais leais aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio. A nação dele depende da assistência militar e estrangeira norte-americana, no valor de US$ 550 milhões, uma receita anual que os jordanianos não têm condições de dispensar. Além disso, os Estados Unidos se tornaram o maior mercado para as exportações jordanianas, que chegaram a US$ 400 milhões este ano depois de subir espantosos 213% desde 1999.

Mas um décimo dos moradores do reino são cidadãos iraquianos. A Jordânia depende inteiramente do Iraque em termos petroleiros, e metade do petróleo que recebe é subsidiado, o que significa que uma guerra debilitaria sua economia já enfraquecida. E o Iraque é o segundo maior mercado para as exportações da Jordânia, depois dos Estados Unidos.

Aprisionado entre essas duas demandas rivais, o rei -diferentemente do pai, o rei Hussein, que se opôs à guerra do Golfo Pérsico- tenta encontrar um meio termo. Publicamente, ele descartou o uso de bases na Jordânia parta operações militares, enquanto insiste junto ao governo Bush que permita que o processo de inspeções de desarmamento funcione em sua plenitude.

Ao mesmo tempo, o governo jordaniano não condenou ainda a idéia de ataques militares norte-americanos, ainda que afirme preferir que eles não aconteçam. E está "estudando" a perspectiva de oferecer apoio logístico, especialmente para missões humanitárias, disse Mohammad Al-Adwan, ministro de Assuntos Políticos e Informação.

"Estamos andando na corda bamba o tempo todo", disse Adwan, acrescentando que "os Estados Unidos sabem as dificuldades e pressões sob as quais vivemos".

Muitas dessas pressões, de fato, vêm do quintal da própria Jordânia.

Para começar, a maioria dos cidadãos dessa nação de 5,3 milhões de habitantes se opõe a qualquer ação militar dos Estados Unidos contra o Iraque. As opiniões nas estradas tortuosas dessa aldeia agrícola são típicas. Os moradores não gostam muito de Saddam Hussein, mas odeiam a idéia de um ataque dos Estados Unidos a um vizinho no Oriente Médio.

"Nós somos contra a guerra", exclama Feda Hamed, 30, amamentando seu bebê de quatro meses e meio depois de uma visita à clínica financiada pelos Estados Unidos. "Somos árabes, como os iraquianos. Não há uma pessoa sequer nessa aldeia que apóie uma guerra contra o Iraque".

Por isso, qualquer demonstração de apoio do governo da Jordânia às ações norte-americanas pode causar tumultos, temem os analistas, e deflagrar a raiva reprimida que existe contra os Estados Unidos. Em 1998, houve tumulto em diversas cidades jordanianas quando os Estados Unidos decidiram bombardear o Iraque por não cumprir as resoluções das Nações Unidas.

"Não há apoio a Saddam Hussein, mas existe anti-americanismo", disse Taher Masri, ex-primeiro ministro da Jordânia. "O que me preocupa é que a cisão entre o governo e o povo do nosso país está se tornando cada vez maior".

Para atenuar as chances de inquietação pública, a Jordânia, uma monarquia constitucional, tomou medidas que muitos observadores consideram pouco democráticas. Os poderosos serviços de segurança do país -conhecidos por sua extensa escuta de atividades clandestinas- reprimiram fortemente os dissidentes.

As manifestações foram proibidas. As eleições parlamentares foram adiadas três vezes, e o atraso foi atribuído à violência entre israelenses e palestinos na vizinha Cisjordânia. Embora haja uma promessa de eleições no segundo trimestre, muitos jordanianos duvidam de que elas aconteçam caso haja uma guerra entre os Estados Unidos e o Iraque.

Mas essa falta cumulativa de vida democrática, temem os analistas, pode fazer com que as pessoas passem a desprezar a política em benefício do islamismo conservador, o que seria uma virada significativa na Jordânia, onde as seitas religiosas são muitas e a atitude é favorável ao Ocidente.

"O governo não está permitindo qualquer espécie de atividade política ou vida política -não existe política, a não ser a portas fechadas", disse Masri, que foi primeiro-ministro em 1991. "O único veículo para as pessoas insatisfeitas é o fundamentalismo religioso".

Enquanto o governo jordaniano enfrenta a escolha entre democracia e inquietação pública, também faz escolhas difíceis sobre as dificuldades econômicas que uma guerra decerto causaria.

Os jordanianos se lembram do preço pago pelo país na guerra do Golfo Pérsico de 1991, quando a Jordânia recebeu número imenso de refugiados e foi devastada pela perda de seu mercado de exportação ao Iraque. Uma estimativa da ONU prevê as perdas da Jordânia com a guerra em US$ 8 bilhões -um preço muito alto para um país em crise de dívida e com alto desemprego.

Agora, a principal preocupação jordaniana é como o país poderia sobreviver sem o petróleo iraquiano, sua única fonte de petróleo cru. Embora haja uma reserva petroleira no país e alternativas estejam sendo estudadas, a dependência jordaniana do petróleo cru iraquiano de baixo preço a torna vulnerável.

"Isso dá aos iraquianos uma maior influência", disse um diplomata ocidental.

"Todo o nosso petróleo e 20% de nosso comércio internacional dependem do Iraque", disse Salah Eddin Al-Bashir, o ministro da Indústria e Comércio jordaniano, em visita recente a Washington. "Temos razão legítima para preocupação, e queremos ver de que maneira se pode mitigar esse impacto".

Mas a Jordânia não pode, tampouco, desdenhar os Estados Unidos. Muitos jordanianos vêem o futuro de seu país nas florescentes exportações de roupas e produtos têxteis para os Estados Unidos. Eles dizem que a economia jordaniana, notavelmente em um período de crise regional, registrou um ganho sem precedentes de 5,4% em seu Produto interno Bruto (PIB).

O rei Abdullah instituiu reformas econômicas abrangentes e deixou claro que os Estados Unidos são a chave do futuro de seu país. No primeiro aniversário do acordo de livre comércio entre os dois países -o primeiro de seu tipo no mundo árabe-, ele disse que "a importância do acordo de livre comércio entre a Jordânia e os Estados Unidos transcende as questões econômicas. Também envia uma forte mensagem sobre a solidez de nossa parceria, agora e para o futuro".

Por enquanto, o governo jordaniano conta com a compreensão dos norte-americanos. "Não acredito que eles queiram nos causar problemas", diz Adwan, o ministro da Informação.

Diplomatas ocidentais dizem que estão contando com as habilidades diplomáticas jordanianas, muito aguçadas dado o trabalho que o país tem para manter equilibradas as relações com os vizinhos Síria, Israel, Iraque e Arábia Saudita.

"Eles têm longa experiência de trabalho com vizinhos complicados", disse um diplomata ocidental, que pediu que seu nome não fosse mencionado. "Mas os jordanianos são muito experientes nessas situações complexas e ambíguas".


Tradução de Paulo Migliacci

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