Licitação por laboratório de segurança máxima é concorrida

Stephen Smith


Seria algo diferente de qualquer coisa já vista pela comunidade médica de Boston: guardas armados patrulhando postos de checagem. Um labirinto de corredores envolvendo mais corredores. Cientistas usando vestes de laboratório que mais parecem trajes espaciais, utilizando mãos mecânicas para manusear os agentes químicos mais letais conhecidos pelo homem.

Caso o Centro Médico da Universidade de Boston persevere na sua busca por um laboratório Biosafety Nível Quatro - a categoria de laboratório mais segura, reservada para trabalhos com varíola, antraz, ébola e outros vírus e bactérias mortíferos - tal medida traria para a área da cidade conhecida como South End um complexo laboratorial que poderia ter saído das páginas do livro "The Hot Zone" ou de cenas do filme "Outbreak" ("Epidemia" - EUA, 1995). O pedido feito pelo centro médico por recursos financeiros para construir e gerenciar um laboratório de nível 4 foi recebido pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas na segunda-feira; uma proposta que pode render mais de US$ 1,6 bilhão (cerca de R$ 5,74 bilhões) em verbas para construção e pesquisa.

A Universidade de Boston e o seu hospital enfrentam uma concorrência acirrada de pelo menos quatro universidades e de um departamento estadual de saúde para conseguir obter o primeiro laboratório de nível quatro da região. "Há várias medidas e dispositivos para garantir a segurança. Tudo é projetado de forma a manter as pessoas que lá trabalham seguras e impedir que qualquer material saia do complexo trazendo o risco de provocar danos ao meio ambiente ou à população".

Os cientistas esperam meses, ou ainda mais tempo, para ter acesso aos quatro laboratórios de nível quatro atualmente existentes na América do Norte, o que é um dos motivos pelos quais o governo federal deseja mais unidades. Eles são os únicos locais onde os pesquisadores são capazes de estudar os agentes que habitam a lista dos micróbios mais temidos, compilada pelo Centro dos Estados Unidos de Controle e Prevenção de Doenças. Entre as bactérias e vírus da Categoria A arrolados na lista de agentes e doenças biológicas estão: antraz, botulismo, peste, varíola, tularemia e vários febres hemorrágicas, inclusive a ébola e o hantavírus.

As medidas no sentido de se construir um laboratório de nível 4 se aceleraram depois dos ataques de 11 de setembro e do episódio das correspondências contaminadas com antraz. Uma comissão federal defendeu a criação de uma rede de centros de pesquisa regional para o estudo dos agentes infecciosos mais perigosos para o ser humano, com o objetivo de buscar curas e vacinas para deter a ação desses microoorganismos.

O anúncio de que o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas estaria solicitando propostas para construir e operar um ou dois dos mais sofisticados laboratórios do mundo gerou uma corrida febril entre as instituições acadêmicas, em uma indicação da magnitude das compensações financeiras e intelectuais que estão em jogo. As universidades que sediarem um laboratório de nível 4 adquirirão um prestígio instantâneo, que não poderia ser igualado por 100 doações federais típicas.

Mas, a dimensão daquilo que está em jogo vem acompanhada por uma pitada de controvérsia. Já neste momento grupos de cidadãos de várias cidades começaram a questionar a idéia de se estudar doenças como a varíola e a ébola em laboratórios localizados nas proximidades do restaurante ou da escola do bairro. Tais preocupações são estimuladas por vigilantes científicos que se dedicam ao uso pacífico da pesquisa de laboratório.

Grupos como o Sunshine Project, uma organização internacional sem fins lucrativos que define a sua atividade como "um trabalho contra o uso hostil da biotecnologia na era pós-Guerra Fria", adverte que, ao aprovar e financiar a criação de mais laboratórios de alto nível, o governo federal se arrisca a colocar agentes perigosos nas mãos de terroristas domésticos.

Citando regulamentos relativos ao sigilo, as autoridades federais não revelam quais instituições estão concorrendo aos laboratórios de nível 4. Somente seis delas admitem cobiçar um complexo científico dessa natureza e revelam que estão investindo dinheiro em propostas para o projeto: Além do Centro Médico da Universidade de Boston, outras instituições que também querem contar com o laboratório são a Universidade da Califórnia, em Davis; a Universidade de Illinois, em Chicago; o Centro Médico da Universidade do Texas, em Galveston; a Universidade de Maryland e o Departamento de Saúde do Estado de Nova York.

A disposição em colaborar é vista como um componente essencial das propostas. Isso porque as agências federais determinaram que os laboratórios do nível 4 não serão privilégio exclusivo de uma única faculdade ou agência de saúde. Em vez disso, os laboratórios serão abertos para pesquisadores de toda a nação - após os cientistas terem se submetido a uma rigorosa revisão por parte do governo.

Ao se candidatar para contar com o primeiro laboratório dessa natureza a oeste das Montanhas Rochosas, a reitora da Universidade da Califórnia, em Davis, Virginia Hinshaw, exibe como trunfo o seu relacionamento com outros nove campus do famoso sistema da Universidade da Califórnia, assim como com Stanford, a Universidade do Novo México e o Instituto de Pesquisas Scripps. Trata-se de uma alegação que é ecoada por Mark Rosati, vice-reitor de assuntos públicos da Universidde de Illinois, em Chicago. A sua instituição conta com o apoio de mais de 20 centros de pesquisa, incluindo as suas rivais da área, a Universidade Northwestern e a Universidade de Chicago.

A proposta feita pelo Centro Médico da Universidade de Boston totaliza 2.000 páginas, incluindo cartas de apoio de grupos comunitários e de pesquisadores de Harvard, Tufts, e da Universidade de Massachusetts. O argumento básico do documento enviado pela Universidade de Boston: a invejável comunidade de pesquisadores da cidade e a sua condição de ser uma das maiores receptoras de verbas federais para pesquisas de saúde da nação.

"Não há lugar que seja mais central do que Boston para esse tipo de pesquisa", afirma o médico Mark S. Klempner, reitor assistente de pesquisas do campus de medicina da Universidade de Boston.


Tradução: Danilo Fonseca

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