Sírios temem ser o próximo alvo dos Estados Unidos

Geneive Abdo


Damasco - Aos olhos de muitos sírios, Bashar Assad é o último homem a resistir ao expansionismo norte-americano.

Mas a disposição do presidente sírio para se opor às políticas dos Estados Unidos no Oriente Médio tem gerado temor aqui de que a Síria possa ser a bola da vez na lista de Washington dos países candidatos a "mudança de regime". Muitos sírios, nas românticas casas de chá ou nos tranqüilos bazares, expressam a sensação de estarem em uma armadilha: eles deveriam defender os interesses de um regime em processo de desintegração ou se protegerem de uma possível retaliação dos Estados Unidos?

"Não existe mais um mundo árabe", lamenta Hasan, um velho vendedor no bazar central, que se identificou apenas pelo primeiro nome. Ele transmitia a sensação de perda compartilhada por muitos sírios com a queda de Bagdá. "O Golfo Pérsico não é parte do mundo árabe porque se tornou um satélite dos Estados Unidos. O rei da Jordânia e o presidente do Egito se renderam aos norte-americanos. Só restaram a Síria e o Líbano. E a Síria não pode fazer frente sozinha aos Estados Unidos. Então, o que podemos fazer?".

O comentário de Assad ocorreu no momento em que uma estátua gigante de Saddam Hussein foi derrubada na quarta-feira em Bagdá, e quando manifestantes antiamericanos saíram às ruas de cidades árabes para destruir cartazes e murais com retratos de Hosni Mubarak, do Egito, e do rei da Jordânia, Abdullah, que são tidos como servos de Washington.

Em Washington, o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, enviou palavras duras à Síria, repetindo as afirmações de que Damasco estaria servindo como canal de envio de equipamento militar para as forças iraquianas.

Ao ser perguntado se outros países, além do Iraque, seriam alvos potenciais para as forças armadas dos Estados Unidos, Rumsfeld disse: "Ninguém está fazendo nenhum desafio...Não tenho nada a anunciar. Ainda estamos lidando com o Iraque".

Uma porta-voz do Ministério do Exterior da Síria, Bouthaina Shaaban, expressou temor de que Washington venha a tomar ações contra a Síria como parte de um plano para reconfigurar o Oriente Médio. "Esta guerra é parte de um esforço no sentido de remodelar a região. Eles (os Estados Unidos) querem padrões de comportamento aceitáveis, ignorando a cultura da região", denunciou Shaaban em uma entrevista à imprensa.

Ela repetiu que a Síria teme que Washington possa agir contra a sua nação. "Qualquer país poderia ser um alvo, já que a guerra no Iraque é totalmente insana e ilegítima. Por que motivo qualquer país deixaria de ser um alvo?".

No mês passado, Rumsfeld disse que a Síria seria responsabilizada por "atos hostis". O secretário de Estado Colin L. Powell também advertiu a Síria no mês passado para que encerrasse a sua oposição à guerra, em um discurso feito no Comitê de Ação Política Americano-Israelense, o AIPAC, um poderoso lobby pró-israelense.

Os sírios chamam atenção para o local onde foi feito o pronunciamento de Powell, afirmando que isso reforça a crença de que a guerra seja parte de um plano dos Estados Unidos para fazer de Israel a potência dominante da região.

"Embora autoridades dos Estados Unidos neguem, a Síria e todo o mundo árabe estão convencidos de que a reformulação do mapa da região segundo os planos e interesses israelenses é o motivo mais importante por trás da guerra", afirma um graduado diplomata sírio, falando sob a condição de que o seu nome não seja divulgado. "Tão logo a guerra começou, os israelenses, que vinham sonhando e esperando por tal oportunidade histórica de ouro, perceberam que deveriam se empenhar ao máximo para tentar vincular a Síria com aquilo que está ocorrendo no Iraque", disse o diplomata.

Assad, o presidente de 38 anos, é o sucessor do seu pai, Hafez. Nomeado para o cargo após o pai ter morrido de câncer, em 2000, Assad permaneceu fiel ao legado do antecessor: o seu governo se opõe às políticas israelenses com relação aos palestinos e apoia uma gama de grupos radicais, inclusive o Hezbollah, a organização militante islâmica que os árabes acreditam ser a responsável pela retirada israelense do sul do Líbano.

Assim como o pai, Assad tentou manter relações cordiais com Washington, mesmo sustentando uma posição firme contra a intervenção norte-americana. A Síria cooperou com Washington após os ataques de 11 de setembro de 2001, ao fornecer informações de inteligência sobre membros da Al Qaeda. Em novembro do ano passado, a Síria se alinhou com os Estados Unidos ao votar a favor de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU exigindo que Saddam Hussein destruísse as supostas armas de destruição em massa do Iraque.

Apesar dessa cooperação, a guerra deslocou o relacionamento da Síria com os Estados Unidos para uma nova e tensa fase, afirmam analistas sírios e diplomatas ocidentais.

A Síria decidiu defender publicamente o Iraque, o seu rival árabe antigo, durante o processo que levaria à guerra, porque o governo sírio acreditava que uma presença militar dos Estados Unidos na sua fronteira, e na região como um todo, estabeleceria um perigoso precedente. O governo chegou até mesmo a ampliar o número de permissões para as raras manifestações no país, algumas delas organizadas por estudantes universitários. Os manifestantes gritaram palavras de ordem antiamericanas e de apoio a Assad, que viu a sua popularidade aumentar, ainda que tivesse fracassado em cumprir as promessas relativas às reformas políticas e econômicas.

"Creio que os árabes devam se unir em torno do presidente Assad", afirma Nawras Haleb, de 20 anos, estudante de comunicação da Universidade de Damasco, que participou de várias manifestações contra a guerra. "Vi Powell dizendo ao AIPAC que a Síria é um Estado terrorista e a platéia o aplaudiu durante cinco minutos".

Contando com apoio público e determinado a proteger a região de novas intervenções dos Estados Unidos, Assad tem se sentido inspirado para usar uma dura retórica antiamericana, segundo analistas e diplomatas ocidentais. Ele também lançou dúvidas quanto ao direito de existência de Israel, apesar do reconhecimento formal do Estado judeu pela Síria. "Ainda que se alcançasse a paz, Israel não seria um país legal", disse Assad, acrescentando, "Enquanto Israel existir, estaremos ameaçados".

Segundo um diplomata europeu, "A população da região acredita que Assad teve a sua importância aumentada no mundo árabe, devido à sua ferrenha posição contra a guerra. Mas ele está fazendo um jogo perigoso. Não acreditamos que Washington venha a tomar uma ação militar contra a Síria, mas é muito provável que seja adotado um novo tipo de punição".

De acordo com diplomatas, em uma tentativa de se precaver contra uma retaliação dos Estados Unidos, Assad teria se voltado para o primeiro-ministro britânico Tony Blair, com quem falou na última segunda-feira. Blair disse ao serviço em língua árabe da BBC que os Estados Unidos não teriam planos para atacar a Síria e o Irã.

O Congresso dos Estados Unidos está considerando a adoção de lei que ameace o país com punições, tais como sanções econômicas, caso a Síria não promova mudanças. A possibilidade de tal legislação, combinada com alguma retórica do governo Bush, deixou os sírios com a sensação de que estão revisitando a história, quando invasores estrangeiros controlavam o seu destino.

"É exatamente como na época das Cruzadas", afirma Thabet Salem, jornalista e analista. "Mas o que deve fazer Assad? Ele precisa se opor aos norte-americanos, mas o resultado do processo está fora do seu controle".


Tradução: Danilo Fonseca

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