Lançada tentativa para criar primeiras células-tronco humanas clonadas

Gareth Cook

Os cientistas de Harvard anunciaram na terça-feira (6) que estão iniciando uma tentativa ambiciosa para criar as primeiras células-tronco embrionárias humanas clonadas, colocando a universidade em um dos campos mais eticamente tensos da ciência.

A meta da pesquisa, eles disseram, é criar uma nova ferramenta poderosa para explorar a biologia e, com sorte, encontrar tratamentos para uma série de doenças devastadoras: diabete juvenil, desordens genéticas no sangue e esclerose lateral amiotrófica (ELA), também conhecida como mal de Lou Gehrig.

Estas metas são esperanças distantes porque não há garantia de que as células-tronco embrionárias possam ser clonadas. Apesar da clonagem ter sido usada com sucesso em muitos animais, cada espécie apresenta um conjunto único de desafios técnicos. Além dos quebra-cabeças biológicos, há obstáculos práticos, como encontrar mulheres dispostas a doarem os óvulos necessários para a clonagem.

A pesquisa é controversa porque os cientistas destroem embriões com dias de idade, o que alguns oponentes dizem que basicamente representa tirar vidas humanas, e porque a pesquisa usa óvulos humanos, que pode provocar um pequeno risco de efeitos colaterais nas doadoras.

Mas em uma coletiva de imprensa na terça-feira, o dr. Steven E. Hyman, o reitor-adjunto de Harvard, disse que a universidade concluiu que a pesquisa era eticamente justificada, após extensa revisão de oito comitês ao longo de dois anos. Hyman disse que será exigido dos cientistas que sigam diretrizes rígidas para a obtenção de óvulos e que experiências podem ser feitas -mas ele disse que o trabalho é importante demais para não ser realizado.

"Nós estamos convencidos de que o trabalho com células-tronco embrionárias possui um potencial enorme para o desenvolvimento de tratamentos para uma série de doenças de adultos e crianças atualmente não tratáveis", disse Hyman. "Nós aprovamos este trabalho após a mais extensa revisão ética e científica na memória recente aqui em Harvard."

O anúncio representa um importante impulso para um campo manchado por escândalo. Em 2004, o cientista coreano Hwang Woo Suk alegou ter criado as primeiras células-tronco embrionárias humanas clonadas, aumentando as esperanças de pacientes e atraindo atenção mundial. Mas no final de 2005, suas alegações ruíram em um caso dramático de fraude científica, deixando cientistas se perguntando se o feito tecnicamente difícil seria possível.

Mas agora, além do projeto de Harvard, pelo menos oito outras equipes nos Estados Unidos e no exterior disseram que tentarão criar células-tronco humanas clonadas. O projeto de Harvard é particularmente grande, com duas equipes independentes de cientistas de ponta -uma no campus principal da Universidade de Harvard, em Cambridge, e outra no Children's Hospital Boston- cada uma trabalhando com sua própria rede de colaboradores. Os cientistas de Harvard estabeleceram um trabalho de base extenso, incluindo a construção de espaço de laboratório e a obtenção de todas as aprovações necessárias, sendo que um grupo já começou suas experiências. Isto coloca Harvard à frente de várias outras equipes.

O projeto também representa uma declaração de Harvard, uma instituição que geralmente evita controvérsia, de que pretende buscar agressivamente o curso estabelecido pelo presidente de saída Lawrence H. Summers. Summers é um defensor do Instituto de Células-Tronco de Harvard, argumentando que a tecnologia de células-tronco provará ser uma força duradoura na ciência, medicina e nos negócios -e que os pesquisadores de toda a universidade devem cooperar para tornar Harvard uma líder mundial no campo. O selo do nome Harvard significará que o projeto atrairá grande atenção, tanto de defensores quanto críticos do trabalho.

"A ciência precisa reconhecer que tem um imenso poder em nossos tempos, e que tal poder, se sair dos trilhos, se tornará um poder muito explorativo e perigoso em nosso meio", disse o padre Tadeusz Pacholczyk, diretor de ensino do Centro Nacional Católico de Bioética, na Filadélfia. "Este é um exemplo de seguir diretamente em tal direção."

As células-tronco embrionárias têm a capacidade de se transformar virtualmente em quaisquer células no corpo, o que as torna uma ferramenta valiosa na pesquisa científica. No passado, as células-tronco embrionárias eram colhidas de embriões congelados -bolas microscópicas de várias centenas de células- obtidas junto a clínicas de fertilidade que caso contrário as descartariam. Mas estas células-tronco não possuem o DNA que contribui para certas doenças, como a diabete juvenil, o que limita sua utilidade na pesquisa de tais doenças.

A clonagem, também chamada de transferência nuclear de célula somática, permitiria novos tipos de experiência ao criar células-tronco embrionárias que teriam o mesmo DNA que um paciente de uma doença em particular.

Para isto, os cientistas de Harvard extrairão o DNA das células de um paciente e o inserirão em um óvulo doado que teve seu DNA removido. Este novo óvulo é então estimulado a crescer por vários dias em placas de Petri de laboratório, gerando o embrião necessário para as células-tronco embrionárias.

Estas células-tronco embrionárias podem ser cultivadas em laboratório e, na teoria, podem ser manipuladas para se tornarem tipos diferentes de tecido humano, como os neurônios que formam o cérebro. Os cientistas sabem como coagir células-tronco embrionárias a se tornarem neurônios e alguns poucos tipos de células.

Os embriões seriam usados apenas para criação de células, não bebês clonados -um passo que seria biologicamente difícil de ser dado e ao qual virtualmente todos os cientistas são contra. O uso da transferência nuclear para reprodução é crime segundo uma lei de Massachusetts, aprovada no ano passado. A mesma lei torna legal a realização de transferência nuclear para pesquisa.

Grande parte da oposição à clonagem de células-tronco neste país vem de conservadores, que são contrários à destruição de embriões humanos. Mas a transferência nuclear também gerou algumas críticas de defensores dos direitos de aborto, liberais, que dizem que as doadoras não deveriam ser submetidas aos riscos envolvidos na extração de óvulos para pesquisa.

"O mérito não é tamanho a ponto de se pedir a estas mulheres que se submetam a riscos", disse Judy Norsigian, diretora executiva da Our Body Ourselves. Norsigian apóia outras formas de pesquisa de células-tronco embrionárias.

A extração de óvulos é usada normalmente em clínicas de fertilidade. O
processo pode ter efeitos colaterais, incluindo síndrome de hiperestimulação ovariana, uma condição perigosa que é grave em cerca de 1% das mulheres que se submetem a tratamento de fertilidade.

Uma das equipes de Harvard, liderada por Douglas Melton e Kevin Eggan,
recrutará voluntárias para se submeterem à extração de óvulos. A outra
equipe, liderada pelo dr. George Q. Daley, do Children's Hospital Boston, já começou a trabalhar usando os óvulos que fracassaram em ser fertilizados quando combinados com esperma, durante o tratamento de fertilidade, óvulos que seriam descartados. Os cientistas suspeitam que estes óvulos provarão ser mais difíceis de se desenvolverem em embriões. Mas seu potencial é desconhecido e são um subproduto natural do tratamento de fertilidade, de forma que os cientistas podem usá-los sem sujeitarem as mulheres a qualquer risco.

Mas encontrar doadoras de óvulos poderá ser um sério obstáculo. Em
Massachusetts, as mulheres podem ser pagas para a doação dos óvulos usados em tratamentos de fertilidade, mas para pesquisa, as mulheres só podem ter suas despesas reembolsadas. O dr. Robert Lanza disse que a Advanced Cell Technology, onde é vice-presidente para pesquisa, tem tentado sem sucesso recrutar mulheres para a realização de transferência nuclear desde dezembro.

Lanza disse que cerca de 100 mulheres responderam aos anúncios, mas que
foram dissuadidas pelos riscos potenciais -e o fato de que poderiam ganhar milhares de dólares para fazer a mesma coisa como doadoras de óvulos para tratamento de fertilidade.

"Após seis meses de esforço exaustivo, parece que isto será problemático sem alguma forma de compensação", disse Lanza.

Eggan, de Harvard, disse que espera que doadoras de óvulos serão encontradas entre os parentes de portadores de doenças que a equipe estudará.

O trabalho também é complicado por não poder contar com dinheiro federal. Em 2001, o presidente Bush proibiu o governo de financiar qualquer pesquisa que crie novos lotes de células-tronco embrionárias, apesar dos cientistas poderem usar dinheiro federal para trabalhar com as células-tronco embrionárias criadas antes da política.

Toda a pesquisa de Harvard está sendo financiada por fontes privadas, que incluem o Instituto de Células-Tronco de Harvard, o Stowers Medical
Institute, uma organização de pesquisa com sede no Missouri, e doadores
privados contatados pela Universidade de Harvard e pelo Children's Hospital. Melton previu que o trabalho custará milhões de dólares, mas representantes de Harvard se recusaram a dizer quanto foi levantado até o momento.

Ambas as equipes de Harvard esperam encontrar curas para doenças, usando as ferramentas da biologia do desenvolvimento, o estudo de como os organismos crescem e se desenvolvem. A transferência nuclear lhes daria novas formas de explorar como o processo de desenvolvimento desanda em certas doenças, e talvez sugerir tratamentos que empreguem o potencial natural de desenvolvimento das células humanas.

A equipe liderada por Melton e Eggan se concentrará inicialmente na diabete juvenil, mas também espera estudar doenças neurodegenerativas como o mal de Parkinson e a ELA. Por exemplo, eles esperam produzir levas de células-tronco embrionárias com possuam o DNA de pacientes com ELA. Os pesquisadores induziriam as células-tronco a se transformarem em neurônios e comparariam o desenvolvimento dos neurônios feitos com células-tronco de doentes com os neurônios feitos com células-tronco embrionárias produzidas com DNA de uma pessoa sem a doença.

"Basicamente, nós transferiremos o estudo da doença do paciente para uma placa de Petri", disse Melton, que é co-diretor do Instituto de
Células-Tronco de Harvard.

Melton e Eggan trabalharão com a Boston IVF, uma clínica de fertilidade que extrairá os óvulos das doadoras, o Centro Naomie Berrie para Diabete, do Centro Médico da Universidade de Colúmbia, e com a Fundação para Células-Tronco de Nova York, um laboratório financiado privativamente.

A equipe liderada por Daley quer encontrar tratamentos para doenças do
sangue, como leucemia e anemia da célula falciforme, que é causada por uma falha genética. Usando a transferência nuclear, disse Daley, a equipe espera criar células-tronco embrionárias geneticamente concordantes com um paciente. Estas células-tronco embrionárias seriam então cultivadas em precursores de células sangüíneas, como as normalmente encontradas na medula óssea, fornecendo ao paciente um transplante de medula óssea com risco mínimo de rejeição. Em casos de doença genética como anemia da célula falciforme, o mesmo procedimento poderia ser usado, com um passo adicional para consertar a falha genética nas células do paciente antes de cultivar as células de medula óssea para transplante.

Mas, ele disse, "a pesquisa ainda está em sua infância, e aplicações
clínicas poderão surgir uma década ou mais no futuro".

Daley, que é um professor associado da Escola de Medicina de Harvard, usará óvulos doados por pacientes do Brigham and Women's Hospital Center for Reproductive Medicine. O trabalho passou por uma revisão ética tanto no Children's Hospital quanto no Partners Health Care, do qual Brigham faz parte.

Nos Estados Unidos, uma equipe da Universidade da Califórnia, em San
Francisco, já começou as experiências de clonagem. Também planejam realizar o trabalho um grupo em Nova York e da Advanced Cell Technology, em Worcester, assim como cientistas no Reino Unido, Espanha, Suécia e China. George El Khouri Andolfato

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