Com "Wire", The Who ainda tem o dom

Joan Anderman

"Endless Wire" é o primeiro álbum de estúdio do Who em 24 anos. No primeiro minuto, uma seção de ritmo emasculada entra nos calcanhares de uma introdução com sintetizador cintilante como em "Baba O'Riley". Momentos depois, a voz forte de Roger Daltrey chega - se esforçando para o clássico - junto com todo tipo de perguntas. Será que isso pode (e deve) ser feito sem o baixista John Entwistle, que morreu em 2002? Ou até sem Keith Moon, que morreu de overdose décadas atrás e cuja bateria ornada e potente combinava com a filigrana pesada de Entwistle para formar a alma do que a maior parte das pessoas pensa quando pensa em The Who?

Arquivo/Divulgação 
Mesmo sem John Entwistle e Keith Moon, The Who mostra com "Wire" que ainda tem o dom

Eu concordo com regra tácita que novas configurações de bandas de rock são legítimas se o compositor ou cantor fazem parte do novo empreendimento. Por esse padrão, o Who de 2006, com material de Pete Townshend cantado por Daltrey, ainda pode se chamar The Who. Apesar de acenar para momentos históricos da banda -os acordes poderosos e loops de sintetizador, as batalhas metafísicas com Deus, moralidade e realidade, as histórias elaboradas e freqüentemente opacas- "Endless Wire" parece muito mais como algo que deveria se chamar Projeto Townshend-Daltrey.

Principalmente porque as melhores músicas de "Endless Wire" são as que não contam com a velha e familiar grandiosidade. E há suficientes delas nesta coleção de 19 faixas -que vem com um DVD bônus "Live at Lyon", gravado no verão passado- para torná-la relevante, mesmo que não seja exatamente revolucionária. O efeito não é nada menos do que impressionante quando o hino de abertura auto-consciente "Fragments" dá lugar a "A Man in a Purpel Dress", uma artilharia direta e envolvente contra a religião organizada, ostensivamente inspirada em "A Paixão de Cristo", mas também, aparentemente, à prisão de 2003 de Townshend (ele não chegou a ser acusado) por baixar da Internet pornografia infantil. "Como você ousa me avaliar, nesta bagunça esquecida por Deus, você, um homem de roupa roxa", canta Daltrey, cujo gargarejo veemente parece sábio e não triste nas músicas acústicas.

Townshend também canta: mais memoravelmente na adorável "In the Ether", em que faz uma paródia de Tom Waits, e com simples clareza em "God Speaks of Marty Robbins", na qual o Criador racionaliza seu duro trabalho em um tributo ao artista eclético de música country. O compositor não perdeu sua noção de aventura.

As 10 últimas músicas do disco formam uma mini-ópera chamada "Wire & Glass", inspirada no romance semi-autobiográfico de Townshend na Web, "The Boy Who Heard Music" (o menino que ouvia música). (Fãs curiosos que tenham muita paciência e tempo disponível podem ler em
petetownshend.co.uk/projects/tbwhm.) "Wire & Glass" é um tema estranhamente subnutrido que conta as histórias interligadas de uma jovem banda de rock e um doente mental idoso em uma série de atos de um a dois minutos. O sortimento variado inclui meia dúzia de rocks que Daltrey entrega com convicção cambaleante, uma música do calibre de Sondheim chamada "Trilby's Piano", a canção-hino do título, com bandolim e uma coda emocionante chamada "Tea & Theatre".

"Fizemos tudo -não fizemos?/Pulamos todos os muros -instintivamente... mil músicas -ainda ardem agora/ tocamos como um -estamos mais velhos agora". É uma balada suave, com um arranjo para dois que ainda se preocupam em contar a história, acertando e errando no caminho, sempre e desafiantemente eles mesmos. Deborah Weinberg

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