Editorial - Boris Ieltsin

Do Boston Globe

Um estudante de 29 anos de Moscou dá a sua opinião sobre Boris Ieltsin, que morreu nesta segunda-feira (23/04), aos 76 anos de idade: "Ainda é muito cedo para fazer uma avaliação apropriada, mas daqui a dez ou 20 anos seremos capazes de julgá-lo". Porém, de uma perspectiva externa, eis uma avaliação preliminar: Ieltsin ficará ao lado de Ivã, o Terrível; Pedro, o Grande; Catarina, a Grande; Lênin e Joseph Stalin como um dos principais líderes da Rússia.

EFE 
Boris Ieltsin ocupará lugar ao lado de Ivã, o Terrível e Pedro, o Grande na história da Rússia

Ivã, o primeiro a ser coroado tsar, reduziu o poder da aristocracia; Pedro abriu a Rússia para o Ocidente; Catarina expandiu o reino até o Mar Negro; Lênin forjou um sucessor comunista para o domínio dos tsares; Stalin derrotou a Alemanha de Hitler. Todos eles governaram por meio da violência e do medo.

"Ele (Ieltsin) cometeu vários erros", disse o estudante à agência de notícias Reuters.

É verdade. Mas nos dias de glória de Ieltsin, ele acabou com o domínio da autocracia na Rússia.

Ieltsin se tornou proeminente pela primeira vez em 1985, como protegido do secretário do Partido Comunista, Mikhail Gorbachev, que tentou reformar a União Soviética. A liderança comunista expulsou Ieltsin do círculo nacional de poder em 1987 por ter reclamado de que as reformas de Gorbachev não eram suficientemente amplas.

Porém, a constituição soviética estabeleceu instituições democráticas para cada uma das 15 repúblicas que formavam a união, e concedeu a elas o direito à secessão. Gorbachev foi o primeiro líder soviético a levar a sério a determinação constitucional de que fossem realizadas eleições livres. Ieltsin enxergou uma oportunidade, elegeu-se para o parlamento, e venceu a presidência da Rússia, a maior das repúblicas, em junho de 1991. Ele descobriu uma fissura na estrutura da autocracia soviética e foi capaz de tirar vantagem desta brecha por meios democráticos, um método de governo estranho aos grandes tsares e aos seus sucessores comunistas.

As repúblicas bálticas estavam exigindo independência, algo que até Gorbachev achou que era demais. Comunistas de linha dura maquinaram um golpe em agosto de 1991. Ieltsin subiu em um tanque de um quartel amigável, discursou para o povo russo contra os conspiradores, e forçou-os a recuar. Quatro meses depois, ele liderou a Rússia e as outras repúblicas no processo de saída da união. Um império forjado pela coerção desmoronou pacificamente, graças à liderança de Ieltsin.

O governo de Ieltsin demonstrou que a democracia está longe de ser perfeita. Ele deu início a uma guerra para manter a Tchetchênia como parte da federação russa, arruinou a privatização da economia e permitiu que a corrupção se tornasse endêmica. Mas Ieltsin impediu um retorno dos comunistas em 1996, ao se reeleger, em parte por ter encenado uma dança para provar que tinha saúde. Ao contrário de outros grandes governantes russos, ele cedeu o poder pacificamente, em 1999, a Vladimir Putin.

Putin está resgatando várias das práticas dos tsares e dos comunistas, mas ele ainda está longe de se tornar outro Ivã, o Terrível, ou Stalin. O fato de a democracia persistir, apesar de tudo, na Rússia, deve-se à teimosia, à ousadia e ao talento teatral de Ieltsin. UOL

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