O que o preço do Big Mac pode dizer sobre a moeda de um país?

Laura Green

West Palm Beach (Flórida, EUA)

  • AP Photo/Charles Krupa - 24.1.06

    Texto: Lanche Big Mac, batata frita e copo de refrigerante em restaurante do McDonald's, em Boston, EUA

    Texto: Lanche Big Mac, batata frita e copo de refrigerante em restaurante do McDonald's, em Boston, EUA

O que um Big Mac pode nos dizer sobre o preço do chá na China? Ao que parece, muita coisa.

Por 24 anos, a revista "The Economist" mediu o valor das moedas em todo o mundo usando dois hamburgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, pickles e pão com gergelim.

A China, por exemplo, onde é possível comprar quase dois Big Macs pelo preço de um nos EUA, tem a moeda mais desvalorizada do mundo, concluiu a revista recentemente.

O Índice Big Mac foi criado para explicar um conceito econômico chamado paridade de poder de consumo, o conceito de que um dólar deveria comprar a mesma quantidade de um país para o outro. Se houvesse paridade, o preço de um produto – nesse caso um Big Mac – deveria ser o mesmo em todo o mundo.

O índice deste ano descobriu que os preços do Big Mac, convertidos para dólares norte-americanos, variava de US$ 6,87 na Noruega até US$ 1,83 na China. O preço médio nos Estados Unidos é US$ 3,58.

Embora o Índice Big Mac seja uma forma nova de olhar para o que o dólar é capaz de comprar em diferentes países, ele também se mostrou bastante acurado para indicar mudanças nas moedas, disse o professor Dave Denslow da Universidade da Flórida.

"Se o Índice Big Mac diz que uma moeda está desvalorizada, ela tende a se valorizar", diz Denslow.

Foi exatamente o que aconteceu com a moeda chinesa, embora a pressão dos EUA e dos governos europeus tenha provavelmente exercido um peso maior sobre as mentes das autoridades chinesas do que uma palavra de uma publicação de negócios britânica.

No mês passado, poucos dias antes da reunião do G-20, a China anunciou que irá valorizar novamente o yuan.

Sindicatos e trabalhadores podem se beneficiar com isso porque as fábricas norte-americanas tinham dificuldades em competir com o baixo custo do trabalho e dos produtos da China.

Mas mais americanos poderão sentir a pressão disso em seus bolsos. Muito do que eles compram é importado da China, e um yuan mais caro irá fazer os preços subirem.

O alcance mundial do McDonald's faz com que o seu sanduíche mais famoso seja o produto perfeito, diz Rick Wade, que é dono de dez franquias da marca em Palm Beach County.

O Big Mac é vendido em mais de 100 países, em mais de 80% das 32 mil lojas do McDonald's no mundo. Franquias de poucos países rejeitam o produto por motivos culturais ou religiosos.

Mas onde quer que ele seja vendido, a megacorporação controla de perto a qualidade do produto, tornando fácil comparar o preço de um Big Mac em Boynton Beach com um em Bahrain, diz Wade.

Quando Wade faz um pedido de hambúrgueres, ele escolhe entre cerca de três fornecedores, diz ele. E ele não pode simplesmente misturar o molho picante característico dos sanduíches em suas cozinhas. Ele precisa comprar o molho de um distribuidor aprovado para garantir que o hamburguer que ele venda seja fiel ao original.

"Esta é a razão pela qual o McDonald's é a marca que é, que é uma marca global tão poderosa", diz Wade.

Com frequência, as franquias em outros continentes compram de fornecedores dos EUA, diz Wade.

A necessidade de vender um produto uniforme quase levou à falência as três franquias do McDonald's na Islândia, quando a moeda do país isolado no Ártico caiu no ano passado.

O empresário Magnus Ogmundsson disse à Associated Press que na época ele era obrigado por seu contrato com o McDonald's a importar praticamente todos os ingredientes do sanduíche da Alemanha.

Como a moeda islandesa, o krona, havia se desvalorizado muito, Ogmundosson teria que cobrar o equivalente a US$ 6,36 por sanduíche, o que o tornaria um dos Big Macs mais caros do mundo.

Em vez disso, Ogmundsson decidiu fechar suas três lojas e disse que planeja abrir outra franquia de hambúrgueres que não exija importações tão caras.

Pode ser que o povo chinês e os turistas do país não vejam muita diferença no preço de um Big Mac durante algum tempo. Desde que a "The Economist" atualizou seu índice em março, o yuan valorizou apenas 1%.

E isso é provavelmente uma boa notícia – e não apenas para quem gosta de um bom e gorduroso hambúrguer.

Os chineses têm boa parte da dívida norte-americana.

A moeda chinesa desvalorizada mantém as taxas de juros dos EUA mais baixas e permite que o governo norte-americano pague o seguro social das pessoas, por exemplo, emprestando dinheiro em vez de pagando-o com impostos, diz Denslow.

A valorização da moeda chinesa é "algo que queremos ver amanhã e não hoje", diz ele.

Enquanto isso, a passagem de avião pode ser cara, mas a China é o melhor lugar para comer um hambúrguer barato.
 

Tradutor: Eloise De Vylder

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos