Mulher alemã escreve livro inédito sobre estupros que sofreu na Segunda Guerra Mundial

Susanne Beyer

Gabriele Köpp foi estuprada repetidamente por soldados russos em 1945, quando tinha apenas 15 anos de idade. Agora, aos 80 anos, ela tornou-se a primeira mulher alemã a lançar um livro escrito sob o seu próprio nome a respeito da violência sexual sofrida durante a Segunda Guerra Mundial.

Quando uma pessoa faz 80 anos de idade, ela acumulou 29.200 dias de vida. No caso de Gabriele Köpp, a sua vida incluiu um diploma de segundo grau e um programa de treinamento como assistente física e técnica. Além disso, ela sentiu também uma afinidade pela “matemática pura”, conforme diz Köpp, e pela física.

Ela sente fascínio pelo poder das partículas mais diminutas, ou, citando Goethe, por aquilo “que mantém o mundo coeso no seu âmago mais profundo”. Devido a este fascínio pelas partículas elementares, ela prosseguiu os estudos até obter um doutorado em física e, finalmente, tornar-se professora universitária.

A vida dela incluiu também várias amizades, especialmente com homens, desde alunos do programa de doutorado até colegas ganhadores do Prêmio Nobel. E há também oito afilhados em sua vida.

  • 02.05.1945 - Yevgeny Khaldei/AP

    O soldado do Exército Vermelho Abdulkhakim Ismailov ergue a bandeira soviética no telhado do Reichstag, sede do Parlamento alemão, em Berlim (Alemanha), durante a Segunda Guerra Mundial

Entretanto, para Gabriele Köpp, aquilo que aconteceu no decorrer de apenas 14 dias foi suficiente para lançar uma sombra negra sobre a sua vida, ou pelo resto desses 29.200 dias.

Sem casa para retornar
Köpp está sentada em uma poltrona no seu apartamento em Berlim, falando sobre aqueles 14 dias. Ela serve café recém-coado com leite condensado. Köpp fuma cigarros longos, da marca Kim, que tornaram-se raros na Alemanha.

Nas paredes há fotografias em preto e branco da sua mãe, do pai e das irmãs. Todos eles já morreram. Há também fotos da casa dos seus pais, incluindo imagens internas e externas. A casa ficava em Schneidemühl, uma cidade da região da Pomerânia, que antigamente pertencia à Alemanha, e que hoje chama-se Pila e fica no noroeste da Polônia. No local em que ficava a casa hoje em dia existe apenas uma campina.

Köpp descreve as fotos com palavras alemãs que eram usadas em uma era distante: o salon com o seu candelabro, o Herrenzimmer (“estudo”) do seu pai. A pronúncia de Köpp também trai as suas origens. Ela diz “Tack” em vez de “Tag” (a versão informal de “Guten Tag”, ou “Olá”), assim como muitas outras pessoas que vieram originalmente de regiões que antigamente pertenciam à Alemanha, e que agora fazem parte da Polônia.

O apartamento de Köpp não é um daqueles que encontram-se ocupados há muito tempo, que contêm várias camadas de objetos que os moradores acumularam no decorrer dos anos. Ela só mudou-se para o apartamento cerca de dez anos atrás, quando aposentou-se do seu emprego na Universidade Técnica de Aachen, no oeste da Alemanha, e foi para Berlim. Quando lhe perguntam se ela acha incomum que alguém se mude com tal idade, ela acena com a mão dando a entender que não. Isso não importa, diz Köpp, porque ela nunca teve uma casa para a qual retornar.

Mas Köpp não está interessada em questões como a perda das residências dos refugiados ou a controvérsia a respeito dos alemães que foram expulsos da Europa Oriental após a Segunda Guerra Mundial. “Os indivíduos se reúnem em clubes para esse tipo de coisa”, diz ela. “Mas isto não é para mim”. Não obstante, aquilo que ela enfrentou durante um período de 14 dias quando fugia da sua terra natal foi tão traumático que Köpp até hoje tem problemas para dormir. Em determinadas ocasiões ela não consegue comer, e ela é muito mais magra do que gostaria. Köpp usa calças jeans delgadas com uma camisa e um colete. As coxas dela são tão finas que parecem poder ser envolvidas por duas mãos.

Köpp levou uma vida plena na qual teve tudo – tudo menos o amor romântico. Ela conta que isto se deveu à falta de sorte. O número de mulheres era maior do que o de homens após a guerra, e nenhum dos poucos homens que restaram era o companheiro certo para ela. “Além disso, eu não teria sido capaz de sentir qualquer coisa”, acrescenta Köpp.
Durante aqueles 14 dias, Köpp foi estuprada seguidamente. Ela tinha 15 anos de idade, e não conhecia nada sobre sexo.

“Porta para o inferno”
Agora Köpp escreveu um livro sobre aqueles 14 dias e os estupros, intitulado “Warum war ich bloss ein Mädchen?” (“Por Que eu Tinha que Ser uma Garota?”). O livro constitui-se em um documento sem precedentes, porque é o primeiro trabalho do gênero escrito voluntariamente por uma mulher que foi estuprada nos meses finais da Segunda Guerra Mundial, e que, anos depois, descreveu essas experiências e fez delas o tema central de um livro.

Mostra retrata mulheres vítimas de estupro no Iraque

Existe o livro “Uma Mulher em Berlim”, as famosas confissões de uma mulher que foi estuprada na Segunda Guerra Mundial, e que foi publicado pela primeira vez na década de 50, e relançado em 2003. Mas a autora daquele livro não quis revelar a sua identidade, e só após a sua morte ficou-se sabendo que a escritora anônima era uma jornalista. Até hoje, não se sabe ao certo se ela escreveu o livro sozinha ou se houve um coautor que a ajudou a distanciar-se dos acontecimentos horríveis e, com a distância, a encontrar uma voz – uma voz surpreendentemente livre, confiante e até mesmo irreverente.

Köpp não tem essa voz. Ela descreve os primeiros dias da sua fuga com precisão, de forma sequencial, quase cinematográfica, mas fica claro que ela não é uma escritora experiente. Entretanto, o seu relato é muito envolvente, especialmente devido ao fato de ele não ter sido polido apenas para que fosse colocada uma linguagem bonita no papel. A sua história exerce sobre o leitor uma atração que deriva da autenticidade das suas palavras e experiências. E, quando a própria autora é incapaz de compreender aquilo pelo qual passou, até mesmo a voz dela encontra o seu limite.

Köpp não foi capaz de encontrar as palavras para descrever os estupros em si. Ela fala de um “local de horror” e de uma “porta para o inferno”, e descreve os estupradores como “brutos” e “canalhas”. Quando lhe perguntam por que ela foi incapaz de descrever exatamente aquilo que aconteceu, com todo o seu terror, Köpp dá de ombros e diz: “Eu não consigo sequer pronunciar a palavra” - estupro.

Trauma duplo
Köpp conhece a obra “Uma Mulher em Berlim”, mas ela diz que o seu livro é diferente. A autora anônima daquele livro, diz ela, era uma mulher com pouco mais de 30 anos “quando o fato ocorreu”. Em outras palavras, tratava-se de uma mulher experiente. Köpp, que tinha apenas a metade desta idade, afirma: “Eu era pouco mais que uma criança”. E ela acrescenta que o fato de ter relatado os fatos usando o seu próprio nome não tornou a tarefa mais fácil. “Mas eu não tinha escolha; quem mais faria essa narrativa?”, acrescenta ela.

De fato, as mulheres raramente relataram voluntariamente os seus contatos com a violência durante e após a guerra. Os especialistas descrevem essa experiência como um trauma duplo: o ato violento em si, e o fato de ter que escondê-lo. Philipp Kuwert, especialista em traumas e diretor do Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia do Hospital-Universidade de Greifswald, no nordeste da Alemanha, deu início a um projeto de pesquisa no ano passado sobre as repercussões da violência sexual ocorrida na Segunda Guerra Mundial, entrevistando 26 mulheres afetadas por tal violência. Ele já conta com os resultados do seu estudo, mas ainda não publicou nada. “Este é um dos primeiros – e provavelmente o último – estudos do gênero, porque 95% das mulheres que foram atingidas não estão mais vivas”.

Ninguém sabe ao certo quantas mulheres tornaram-se vítimas da violência sexual durante a guerra. Uma estimativa de dois milhões foi mencionada em vários estudos, mas ela não é considerada confiável devido à falta de evidências concretas. No entanto, não há dúvida de que trata-se de um crime cometido contra um grande número de mulheres.

A idade média das mulheres que participaram do estudo de Kuwert era 16,7 anos quando foram estupradas, e cada uma delas foi estuprada em média 12 vezes. Cerca da metade delas continuou a sofrer de sintomas pós-traumáticos, incluindo pesadelos, ideias suicidas e aquilo que é conhecido como comportamento de fuga, sendo que 81% delas declararam que as experiências sofridas tiveram um impacto enorme sobre a sua sexualidade. Uma “anestesia emocional”, ou a fuga das emoções fortes, foi um fenômeno típico no caso dessas mulheres traumatizadas, diz Kuwert.

Problemas para criar ligações afetivas

  • 1945 - Ria Novosti/AFP

    Soldado soviético orienta trânsito em Berlim (Alemanha), em 1945, após a derrota dos nazistas

As experiências horríveis também afetaram as gerações subsequentes. “Uma mãe com sintomas de estresse pós-traumático pode encontrar problemas para criar ligações afetivas com os seus filhos novos”, afirma Kuwert. As mães que encontram-se sobrecarregadas pelos seus próprios sentimentos reprimidos têm problemas para reagir às emoções dos filhos e regular essas emoções. Segundo a teoria, essas crianças crescem em um ambiente de fragilidade e de ameaça indeterminada. Segundo Kuwert, nada é tão estressante quanto a experiência de estupro e tortura.

Quando soldados cometem estupros durante uma guerra, isso “não apenas humilha um indivíduo em particular”, afirma a historiadora Birgit Beck-Happner, que é especialista na questão da violência sexual e guerra. Este fato representa também “um recado para a população inimiga de que a sua liderança política e o seu próprio exército não são mais capazes de garantir a sua segurança”. É por isso que esses estupros são frequentemente cometidos em público.

Beck-Heppner, que escreveu o epílogo do livro de Köpp, tem 38 anos e é da mesma geração que o especialista em trauma Kuwert. Pessoas dessa faixa etária, com quase ou pouco mais de 40 anos de idade, são mais ou menos os netos da geração nazista.
“A motivação para estudar o estupro na Segunda Guerra Mundial é característica do meu grupo etário”, explica Kuwert. “O tempo está se esgotando”, acrescenta ele, afirmando que ainda há muitas questões a serem respondidas. É claro que existe documentação, mas muitas das testemunhas contemporâneas em breve estarão mortas. Para Kuwert, a única maneira de obter um quadro verdadeiro daquilo que aconteceu é por meio do exame das histórias das vítimas individuais. “Não existe algo chamado trauma objetivo”.

Köpp é uma prova viva da declaração de Kuwert, de que o trauma objetivo não existe. Tendo em vista as experiências de Köpp, seria de se esperar que ela encontrasse dificuldades para interagir com homens. Mas, ao contrário, Köpp tem um problema com as mulheres. No seu livro, ela explica por que.

“Correndo para a ponta de uma faca”
Na noite de 25 de janeiro de 1945, Köpp estava embalando os seus pertences, preparando-se para fugir. A sua mãe lhe disse para se apressar, porque os russos aproximavam-se da cidade, e afirmou que a encontraria mais tarde. Köpp queria conversar com a mãe naquela noite, mas a mulher estava silenciosa e mal falou com a filha, nem sequer para avisá-la das várias coisas que poderiam acontecer enquanto ela estivesse fugindo. “De certa forma, ela permitiu que eu corresse para a ponta de uma faca”, escreve Köpp.

Em 26 de janeiro de 1945, Köpp e a sua irmã mais velha foram embora de casa. Ela saberia mais tarde que os soviéticos libertaram o campo de concentração de Auschwitz no dia seguinte, 27 de janeiro. A raiz dos sofrimentos que estavam prestes a ter início para Gabriele Köpp encontrava-se nos crimes cometidos pelos seus compatriotas alemães.

Ela mal se lembra de ter se despedido da mãe. Na verdade, ela escreve que só recentemente permitiu-se acreditar que não houve despedida alguma.

Köpp embarcou em um trem de carga dotado de pesadas portas de correr. A cidade já estava sob fogo de artilharia. Ao mesmo tempo, ela jamais imaginou que se passariam décadas até que pudesse retornar para casa. Espiando através das pequenas janelas do vagão de carga, ela percebeu que o trem seguia para o sul, em vez de deixar a cidade no rumo norte, como havia acreditado.

Ela sabia que os russos tinham cercado o sul. Pouco tempo depois, ela ouviu o som do fogo de artilharia, e o trem parou. Aparentemente, a locomotiva havia sido atingida. As portas de correr estavam trancadas, e a única forma de sair do vagão era espremendo-se por uma das janelas altas. Köpp era uma garota atlética e conseguiu passar pela janela, e um soldado a empurrou pela pequena abertura. A irmã dela ficou para trás, dentro do vagão. Ela nunca mais a viu.

“Eu desprezo essas mulheres”
Köpp caiu na neve e, a princípio, ficou deitada no solo para proteger-se dos tiros. Outros refugiados também conseguiram escapar do trem, e todos começaram a correr rumo a uma fazenda e, a seguir, para a aldeia próxima. Köpp os seguiu. Um padeiro deixou que ela entrasse no seu estabelecimento.

Na vila, soldados soviéticos portando lanternas grandes procuravam garotas sob a luz fraca. Um deles agarrou Köpp. No dia seguinte, ela foi levada para uma outra casa, onde foi estuprada por um soldado e, logo depois, por um outro. Na manhã seguinte, ela foi empurrada para dentro de um estábulo onde foi estuprada por dois homens.

À tarde, Köpp escondeu-se debaixo de uma mesa em um aposento repleto de refugiados. Quando os soldados vieram até a casa, procurando garotas, a mulher mais velha gritou: “Onde está a pequena Gabi?”, e a puxou de sob a mesa. “Eu senti o ódio crescer dentro de mim”, escreve ela. Ela foi arrastada até uma casa saqueada. “Eu não tinha lágrimas”, escreve ela. Na manhã seguinte, foram as mulheres, mais uma vez, que a “empurraram” para os braços de um “oficial ávido”. “Eu detesto aquelas mulheres”, escreve ela.
A situação transcorreu dessa forma, “ininterruptamente”, por duas semanas. Depois disso, ela foi levada para uma fazenda, onde conseguiu esconder-se dos soldados.

“Eu estou com tanto medo”
Ela escreveu uma carta à mãe na sua agenda de bolso azul clara, ainda que não tivesse ideia de onde a mãe se encontrava. “Não há ninguém aqui para me socorrer. Se pelo menos você estivesse aqui. Eu estou com tanto medo, porque não estou mais tendo a minha 'doença' (nota do editor: menstruação). Agora faz já dez semanas que ela não vem. Tenho certeza de que você poderia me ajudar. Se pelo menos o Deus amado não estivesse fazendo isto comigo. Ah, mãe querida, se eu não tivesse fugido sem você”.
O ciclo menstrual de Köpp ficou interrompido por sete anos, um fenômeno generalizado que alguns ginecologistas chamavam de “a doença russa”.

Quando Köpp finalmente encontrou a mãe em Hamburgo, após ter vivido como refugiada por 15 meses, ela quis mostrar-lhe a carta. Mas a mãe, que não esperava rever a filha, a recebeu friamente, mantendo a sua face à distância para ser beijada.

A mãe também lhe disse para não falar nada sobre aquilo que lhe tinha acontecido quando fugia, embora tivesse frisado que, se quisesse, ela poderia escrever sobre a experiência. Köpp seguiu o conselho da mãe. Ela tinha 16 anos quando redigiu as notas que atualmente cita no seu livro, notas que, posteriormente, ela doou à Casa da História em Bonn.

O ponto de inflexão
Nas conversas, Köpp menciona repetidamente a traição cometida pelas mulheres e o seu desapontamento com a mãe por não querer ouvi-la, e talvez até por não desejar tê-la mais como filha. “Eu poderia ter conversado com o meu pai, se ele não estivesse morto”, diz Köpp. Ela procura os motivos para explicar o comportamento da mãe, especulando que talvez esta tenha se sentido culpada por ter mandado ela e a irmã fugirem sozinhas.


O especialista em trauma Philipp Kuwert diz que a pesquisa sobre vítimas de abusos contém outros relatos de traição cometida por mulheres. Em casos nos quais as pessoas nos quais as vítimas normalmente confiariam acobertaram ou até mesmo apoiaram os perpetradores, algumas mulheres acharam mais difícil aceitar a traição do que o ato violento em si.

Köpp passou a fazer a fazer psicoanálise com 47 anos de idade. “A análise foi o ponto de inflexão”, conta ela. É claro que ela sabia que não era normal que membros da sua geração procurassem um analista, e ela jamais poderia ter pensado em tomar tal iniciativa. Mas ela conta que sofreu um colapso nervoso aos 47 anos, enquanto redigia a sua tese de pós-doutorado, e acabou dando entrada em uma clínica psiquiátrica.
Ela começou a fazer análise na clínica. “Eu me apaixonei pelo meu primeiro analista”, diz ela, rindo baixinho. E então? Bem, é claro que nada aconteceu, diz ela, acrescentando: “Ele é muito respeitável”.

As estações da sua vida
Köpp continua mantendo contato com o seu ex-analista, que pediu que ela escrevesse o livro. “O fato de ter sido possível que eu sentisse algo por outra pessoa – aquilo foi um ponto de virada”, recorda a mulher. Desde então, houve pelo menos alguns momentos em que ela sentiu-se liberada.

E ela teve alguma outra experiência de amor e sexualidade? Não, diz ela. Nenhuma. “Para mim, tudo não passou de violência”.

Gabriele Köpp levanta-se da poltrona com a facilidade de uma garota. Ela tem 1,55 m de altura. Köpp caminha até o corredor, onde as suas pinturas estão penduradas na parede. Ultimamente ela tem pintado bastante.

Um dos quadros mostra as estações da sua vida. Há cruzes e caveiras no centro da imagem. Uma data está escrita no topo: 26 de janeiro de 1945. Outras pinturas mostram corações e cores fortes.

São aqueles tipos de quadros pintados por garotas – garotas de 15 anos de idade.

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