Rei saudita contrata equipe alemã para procurar água subterrânea no deserto

Samiha Shafy

A água é um bem precioso na ressecada Arábia Saudita. Agora o rei contratou uma equipe de cientistas alemães para procurar água subterrânea em aquíferos sob as maciças areias do reino. Seu trabalho pioneiro poderá oferecer soluções para outros países desérticos.

O geólogo alemão Randolph Rausch, 59, está mostrando o deserto a alguns visitantes. Ele caminha com agilidade sobre a crista estreita de uma duna de areia, virando os pés para fora como um bailarino. O vento apaga suas pegadas imediatamente e agita seu chapéu tirolês verde.

Os convidados, que são da cidade de Darmstadt, no sudoeste da Alemanha, se arrastam atrás dele, arfando no silêncio. A temperatura do ar no deserto de Ad Dahna nesta época do ano é de apenas cerca de 32 graus centígrados, ou seja, 20 graus a menos que no verão. O ar é seco, claro e inodoro. Rausch para no ponto mais alto da duna e observa uma paisagem que parece infinita, com dunas brilhantes cor de cobre.

"Isto aqui é o sonho de todo geólogo", ele diz, com um forte sotaque da Suábia, sudoeste da Alemanha.

Água fóssil

Rausch tem trabalhado em Riad nos últimos seis anos para o GTZ International Services, parte da agência alemã de desenvolvimento GTZ. O rei saudita o contratou e a seus visitantes, que são da Universidade Técnica de Darmstadt, para procurar água no deserto. Perfurando buracos de até 2 mil metros de profundidade, realizando testes de bombeamento e realizando medições técnicas complexas e modelos de computador, eles tentam descobrir quanta água subterrânea fóssil ainda existe armazenada sob as camadas de rocha na península Arábica.

O Centro de Pesquisa Ambiental Helmholtz (UFZ na sigla em alemão), na cidade de Leipzig, no leste da Alemanha, também está envolvido no projeto de grande escala. "Usando os supercomputadores da UFZ", diz Rausch, "podemos simular correntes de água subterrânea da última era do gelo até hoje."

Seus dois convidados, Christoph Schüth, 47, e Andreas Kallioras, 34, fizeram preparativos cuidadosos para a missão. Eles testaram o equipamento de medição e as sondas com que podem medir a umidade do solo, assim como os movimentos e a idade da água, nos terrenos de um aeroporto abandonado perto de Darmstadt.

"Um emprego como este não existe em nenhum lugar do mundo", diz Rausch, um homem baixo e calvo, de nariz aquilino e sobrancelhas sempre ligeiramente levantadas. Ele sorri e olha para Schüth, que já está caminhando para a próxima duna. "Na Alemanha, por exemplo, o geólogo lida com pequenas coisas como recuperar terrenos contaminados de indústrias abandonadas, aterros e coisas parecidas."

Na Arábia Saudita, por outro lado, existem questões prementes e existenciais a se abordar. Quanta água resta nos aquíferos no subsolo? E qual é a melhor maneira de usar o recurso precioso para garantir que o país conseguirá abastecer sua crescente população de água pelo maior tempo possível?

"Dúvidas éticas"

Atualmente, as práticas de uso da água na Arábia Saudita, dadas ao desperdício, são insustentáveis. Rausch e seus colegas calcularam, por exemplo, que o suprimento na área ao redor da capital, Riad, com uma população de 4,5 milhões, estará esgotado em apenas 30 anos.

"No início eu tive dúvidas éticas sobre trabalhar neste país, dentre todos os lugares", diz Schüth. As maiores reservas de petróleo do mundo fizeram do reino saudita um dos países mais ricos do planeta. As cidades santas de Meca e Medina também fazem dela o centro do mundo islâmico, e em nenhum outro lugar o islã é interpretado de maneira mais rígida. As mulheres sauditas usam em público trajes pretos dos pés à cabeça e passam a maior parte do tempo em casa. Durante as orações, cinco vezes por dia, a vida se imobiliza. Cinemas, teatros e concertos são proibidos, e turistas não podem entrar no país. Qualquer um que ofenda Deus ou o profeta pode ser executado em público. É um país que até hoje não teve de dar muita atenção ao que o resto do mundo pensa dele.

Mas agora essa nação voltada para si mesma precisa de ajuda externa, porque está ficando sem o mais importante de todos os recursos: água. Em consequência, a Arábia Saudita está se tornando um laboratório para as regiões áridas do mundo, que formam cerca de 40% da área terrestre do globo.

Quando chegou ao país pela primeira vez, diz Schüth, ficou agradavelmente surpreso com a abertura de sua população. Ele diz que um colega pesquisador saudita pretende visitá-lo na Alemanha em breve e levar sua família. No passado, teria sido inconcebível que um Saudita sequer apresentasse sua esposa para outro homem. A mudança social, diz Schüth, é experimental mas perceptível. E afinal o projeto de pesquisa é por uma boa causa, ele acrescenta: "As pessoas têm um problema de água que precisa ser solucionado. E as técnicas que estamos desenvolvendo aqui também poderão ser úteis em outros países".

Infiltrações

A água subterrânea fóssil é a única fonte de água natural em uma região que não tem rios ou lagos, onde cada gota de chuva é um acontecimento. Depois da última era do gelo, quando o clima na península Arábica era semelhante, em termos de temperatura e precipitação, ao das atuais regiões de savana, a água se infiltrou pelo solo e se acumulou em espaços ocos entre as camadas de rocha sedimentar.

A maior parte dessa água está no leste da Arábia Saudita, exatamente onde se situam as principais reservas de petróleo e gás natural do país. Em consequência, os geólogos que procuram petróleo às vezes encontram água, ou vice-versa. E, como o petróleo, as gotas preciosas de água da última era do gelo são finitas. Uma quantidade excessiva dessa água está sendo bombeada hoje de poços cada vez mais profundos, fazendo o nível de base da água cair. Isto, por sua vez, permite que a água salgada se infiltre nos lençóis ao longo do litoral.

Em Wasia, a 100 quilômetros a leste de Riad, a equipe de Rausch perfura buracos prospectivos profundos. Mario Rescia, diretor-gerente da companhia saudita de perfuração Hajjan Drilling, é encarregado dos testes de bombeamento. Trabalhadores imigrantes em macacões e capacetes amarelos trabalham em turnos de 12 horas na plataforma de 27 metros a temperaturas de até 50 graus à sombra. "Fazemos o máximo para ajudá-los a suportar", diz Rescia. "Eles têm geladeiras e bebidas."

Então, sob seu comando, a água subitamente começa a borbulhar da areia do deserto: água limpa e quente, uma visão incrível em uma região que parece sem vida, fora alguns beduínos e camelos. A água é pura o suficiente para beber, mas tem um sabor um pouco salobro - o que não é de surpreender, já que tem 25 mil anos.

Conflito com a agricultura

Rescia, 71, que tem cabelo branco curto e usa jeans desbotados e um relógio Rolex, chegou à Arábia Saudita em 1968, quando trabalhava para a companhia de petróleo italiana Agip. "Quase não se via uma árvore na época, e havia esgoto aberto correndo pelo centro de Riad", ele diz. Mas a partir de 1974 o petróleo trouxe riqueza para o país e a população quintuplicou. Foi uma boa época para estrangeiros ávidos por negócios, diz Rescia. As necessidades de água do país também cresceram, especialmente quando os sauditas copiaram os americanos e os israelenses e começaram a "esverdear" o deserto.

Hoje o reino sofre os mesmos problemas de água que muitas outras regiões áridas do norte da África, Israel, Austrália e do centro-oeste dos EUA. Dos 19 bilhões de metros cúbicos de água que o país consome anualmente, 85% são gastos na agricultura. O grosso dessa água é do subsolo, não renovável. A Arábia Saudita extrai apenas 8% de sua água do mar, em usinas de dessalinização que consomem muita energia.

Mas o país está à frente de outros ao reconhecer que a agricultura como praticada hoje pode arruinar o país. Isto levou seus governantes a começar a pôr fim à era de desertos verdes. Em um primeiro passo, o Ministério da Agricultura foi privado de sua autoridade sobre as questões de água. Medidas mais draconianas se seguiram. Dois anos atrás, o governo cancelou seus subsídios para o plantio de trigo e ordenou que a produção doméstica do grão fosse progressivamente desativada até 2016.

"Nosso maior desafio é o conflito entre a agricultura e outros usuários de água", diz o vice-ministro da água, Mohammed Al-Saud, 44. "Qualquer um que queira desenvolver a agricultura utiliza água. E você não pode conservar a água sem um impacto negativo na agricultura."

Al-Saud explica que o governo subsidiou a produção de trigo desde os anos 1970, com base no argumento de que era necessária em termos de segurança alimentar. "Eu não diria que é propaganda", ele diz, "mas não estava certo." A segurança alimentar não exige autossuficiência, acrescenta Al-Saud. "Pode ser obtida de outras maneiras."

Terras agrícolas no exterior

Al-Saud veste uma túnica branca tradicional e um lenço vermelho e branco na cabeça. Ele estudou agronomia e gestão de água nos EUA. Antes de ser indicado para seu cargo no ministério, foi professor na Universidade Rei Saud. A vista de seu escritório é de um minarete, de cor bege-escuro, como a maioria dos edifícios em Riad. Uma nuvem de areia e poluição paira sobre a cidade. Seus únicos dois arranha-céus desaparecem atrás de nuvens de poeira marrom-amarelada.

Importar trigo, segundo o vice-ministro, seria uma alternativa sensata à agricultura, e o país também poderia reduzir sua produção de ração verde para animais. Outra alternativa seria adquirir terras agrícolas no exterior. O governo recentemente começou a apoiar empresários sauditas que compram ou alugam terras no estrangeiro. Outros países árabes e asiáticos com problemas de água, como Catar, Emirados Árabes Unidos, Coreia do Sul e China, estão adotando projetos semelhantes.

Investidores sauditas já assinaram contratos com vários países, incluindo Etiópia, Sudão, Paquistão e Ucrânia. O ministro do Investimento do Paquistão recentemente garantiu aos investidores que poderiam exportar 100% das colheitas a qualquer momento, mesmo que haja escassez de alimentos no Paquistão.

Al-Saud também quer ver pequenos agricultores da Arábia Saudita voltarem à agricultura tradicional e plantar tamareiras, que resistem à seca, ou legumes rentáveis, em estufas. "O preço teria de cobrir os custos de dessalinização da água do mar", ele diz, "porque é a única alternativa à água subterrânea." Além disso, os sistemas de irrigação precisam tornar-se mais eficientes, ele diz, com o objetivo em longo prazo de reciclar cada gota de água.

No futuro, o ministério pretende monitorar o consumo de água nas fazendas em tempo real. "Se incluirmos esse dado em nossos novos modelos de água do subsolo", diz Al-Saud, "poderemos usá-los para desenvolver uma estratégia de água abrangente, que também serviria de modelo para outros países." Ele se recosta na cadeira e sorri, satisfeito.

"Uma grande honra"

O geólogo Randolf Rausch vai apresentar em breve os resultados de sua pesquisa para o conselho Shura do país. Ele já está entusiasmado com a perspectiva. "É uma grande honra", diz o caçador de água, "mas também uma grande responsabilidade. Uma palavra errada e estarei no primeiro avião para casa."

Rausch pretende desenvolver um modelo de computador para os assessores do rei que calculariam, para qualquer lugar do país, onde se situa o mais próximo aquífero, seu tamanho e onde é mais aconselhável perfurar um poço.

A fazenda Al-Faisaliah, ao sul de Riad, oferece uma visão do futuro da agricultura saudita. A estrada para a fazenda cruza o deserto passando por enormes campos de trigo com aspersores giratórios.

Mas o dono da fazenda, Hamad Abdulaziz Alkhaldi, conhecido como xeque Abu Dhabi Naif, desistiu de plantar trigo anos atrás e hoje se especializa em tâmaras. De repente ele se tornou um modelo.

O xeque, que usa bigode e uma túnica tradicional, nos convida para entrar em seu escritório. Um funcionário traz café de cardamomo, chá, tâmaras e uma pequena tigela de água para lavarmos os dedos. "A tamareira é uma planta paciente", diz Alkhaldi, sorrindo. "É a mais adequada ao nosso clima."

Os negócios vão bem para o xeque, que hoje possui 26 mil palmeiras. Em uma visita recente a Dusseldorf, ele examinou as tâmaras vendidas nas lojas de lá. Eram inacreditavelmente caras e pequenas, ele diz, e de má qualidade. "Tâmaras da Tunísia", diz Alkhaldi com desprezo, balançando a cabeça. "As nossas são muito melhores."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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