Acusado de assistir 27.900 mortes em campos de extermínio nazistas alega ser vítima dos alemães

  • John MacDougall/AFP

    Deitado em uma maca, John Demjanjuk, 89, de origem ucraniana, deixa corte no primeiro dia do seu julgamento, na Alemanha. Ele é acusado de cumplicidade na morte de quase 28 mil judeus por ter sido guarda em um campo de concentração nazista

    Deitado em uma maca, John Demjanjuk, 89, de origem ucraniana, deixa corte no primeiro dia do seu julgamento, na Alemanha. Ele é acusado de cumplicidade na morte de quase 28 mil judeus por ter sido guarda em um campo de concentração nazista

O julgamento de John Demjanjuk, acusado de assistir em 27.900 mortes em um campo de extermínio nazista, foi retomado em Munique na terça-feira (13/4). Em sua primeira e longa declaração no processo, o réu ucraniano lançou um ataque ao governo alemão.

John Demjanjuk, acusado de ser guarda nazista, fez sua primeira declaração em um tribunal em Munique na terça-feira, negando ter trabalhado no campo de extermínio de Sobibor, na Polônia ocupada, e declarando-se uma “vítima dos alemães”.

Funcionário aposentado de uma fábrica de automóveis em Ohio, o ucraniano é acusado de ajudar a matar 27.900 judeus em Sobibor, como guarda voluntário da SS nazista. Ele completou 90 anos recentemente e foi ao tribunal em uma maca de hospital, com óculos escuros. Ele pediu que seu advogado lesse a declaração.

“Acho uma injustiça insuportável a Alemanha, com este julgamento, tentar fazer de mim um criminoso de guerra, quando fui um prisioneiro de guerra, e me usar para se distanciar de seus próprios crimes. Sou várias vezes vítima inocente dos alemães”, leu o advogado de defesa Ulrich Busch à corte em nome de Demjanjuk.

O julgamento de Demjanjuk é um raro processo contra um guarda nazista de baixo escalão e será um dos últimos de um criminoso nazista. O caso é controverso também porque Demjanjuk não é alemão: como ucraniano na Segunda Guerra Mundial, ele lutou no Exército Vermelho antes das forças nazistas o capturarem.

A promotoria argumenta que ele se voluntariou para ser guarda e participava ativamente no processo de levar os judeus para as câmaras de gás. Demjanjuk alega ter sido feito trabalhador escravo dos nazistas e nega ter trabalhado em Sobibor –ou ter sido guarda. Na terça-feira ele atacou o governo alemão por tê-lo extraditado dos EUA.

“Sou grato aos enfermeiros. Eles me ajudam a reduzir a grande dor trazida por este tribunal, que eu considero uma tortura”, disse na declaração.

Segunda vez

Em um julgamento anterior, há duas décadas, um tribunal israelense condenou Demjanjuk por ser o guarda do campo de extermínio em Treblinka apelidado de “Ivan o Terrível” por sua crueldade com os prisioneiros judeus. Ele foi condenado à morte, mas novas evidências surgiram sugerindo que outro ucraniano teria sido o guarda em Treblinka.

No atual julgamento, Demjanjuk novamente alega que sua identidade foi enganada. Mas a promotoria tem uma nova evidência: uma identidade nazista mostrando que Demjanjuk trabalhava como guarda da SS em Sobibor.

Demjanjuk alega que a carteira é falsa. Ele diz que nunca trabalhou como guarda, passou a maior parte da guerra em campos de prisioneiros de guerra nazistas e finalmente entrou para um grupo de prisioneiros anticomunistas chamado Exército de Vlasov, que foi formado para defender a Alemanha contra o avanço do Exército Vermelho nos últimos meses de guerra.

Contudo, há muito que o nome de Demjanjuk está no alto da lista do Centro Simon Wiesenthal de principais criminosos de guerra. Ele passou grande parte de sua vida adulta em Ohio, após se mudar para os EUA em 1952 e se tornar cidadão naturalizado em 1958. Um juiz americano revogou sua cidadania em 2002 com base nas evidências que ele tinha escondido seu serviço em Sobibor. Um juiz de imigração decidiu que ele podia ser deportado para o julgamento na Alemanha, Polônia e Ucrânia.

O veredicto em Munique provavelmente será determinado pelo testemunho de especialistas sobre a autenticidade da carteira de identidade. Demjanjuk, se condenado, enfrentará até 15 anos de prisão.

Tradutor: Deborah Weinberg

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