O vigário geral de Munique foi forçado a servir de bode expiatório de Ratzinger?

Conny Neumann

  • Osservatore Romano/EFE

    O papa (de branco) durante um almoço oferecido por cardeais que vivem em Roma para comemorar o quinto aniversário do pontificado de Bento 16

    O papa (de branco) durante um almoço oferecido por cardeais que vivem em Roma para comemorar o quinto aniversário do pontificado de Bento 16

A Igreja Católica responsabilizou o vigário geral aposentado Gerhard Gruber, que serviu a Joseph Ratzinger quando este era arcebispo, pela transferência de um padre sabidamente pedófilo. Gruber está alegando que a declaração da igreja de que ele “agiu por conta própria” jamais foi discutida com ele. 

Um plano de emergência foi rapidamente criado pela Arquidiocese de Munique e Freising na noite do dia 11 de março, uma quinta-feira. O jornal Süddeutsche Zeitung expôs o escândalo em torno do padre pedófilo Peter H. e o assunto sobre o abuso sexual na igreja estava aproximando-se perigosamente do papa. 

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Peter H., vigário da cidade de Essen, na Alemanha ocidental, que molestou meninos em diversas ocasiões, foi transferido para Munique em 1980 para continuar trabalhando como pastor. Como resultado, ele pôde abusar de mais meninos. O arcebispo e diretor do conselho diocesano que aprovou a nomeação de H. foi Joseph Ratzinger, agora papa Bento 16. 

Ratzinger também presidiu uma reunião no dia 15 de janeiro de 1980, na qual os arranjos para a moradia e terapia do padre foram discutidos, portanto, tudo indicava que ele deveria ter conhecimento do passado criminal de H. Face a isso, a diocese não poupou esforços nas últimas semanas para explicar por que o atual papa não poderia ser responsabilizado pela permanência de H. em sua diocese. 

Esse esforço foi baseado em documentos encontrados no escritório de registros da diocese relacionados a H. e que foram assinados por outra pessoa: o vigário geral Gerhard Gruber, assistente de Ratzinger durante sua época como arcebispo. 

Aparentemente ninguém na equipe de gestão da crise objetou a ideia de tirar o papa Bento “da linha de tiro” usando Gruber, um homem de 81 anos, como bode expiatório. Na manhã do dia 12 de março, o escritório de imprensa redigiu uma declaração atribuindo a Gruber plena culpa pela transferência de H. -incluindo uma desculpa pessoal do mesmo. Enquanto isso, um membro da igreja discutia o assunto ao telefone com o vigário geral aposentado. 

Gruber, contudo, se sentiu sob pressão e mais tarde confidenciou a amigos teólogos que tinham “pedido” a ele enfaticamente que assumisse total responsabilidade pelo ocorrido. As autoridades da igreja prontamente enviaram um fax com uma cópia da declaração e instruíram o antigo vigário para que fizesse quaisquer mudanças que julgasse necessário. 

“Decisões incorretas” 

De acordo com a declaração divulgada pela arquidiocese, Ratzinger foi parcialmente responsável pela decisão de aceitar a transferência de H. “Independentemente dessa decisão”, contudo, H. foi designado pelo “vigário geral da época” para assumir as atribuições pastorais, sem restrições, em uma paróquia de Munique. A declaração também dizia: “Gruber assume total responsabilidade pelas decisões incorretas”. Um porta-voz da arquidiocese mais tarde acrescentou que Gruber “tinha agido por conta própria” no caso de Peter H. 

Os amigos de Gruber dizem que o idoso só tinha conhecimento de partes da declaração, que ele aparentemente estava sendo usado como bode expiatório e que também estava sobre pressão emocional. Para a surpresa de todos, Gruber escreveu uma carta aberta na qual explicitou que não assinou a declaração da arquidiocese, documento sobre o qual não teve influência. Ele também observou que estava “muito chateado” pela maneira “com a qual os incidentes foram retratados” pela arquidiocese. “A frase ‘agiu por conta própria’ também não foi discutida” comigo, escreveu. 

A arquidiocese não quis comentar as acusações de Gruber, exceto para afirmar que continuava alegando que o ex-vigário geral agiu por conta própria no caso de Peter H. e que ele tinha admitido seus erros. 

Gruber saiu em viagem para recuperar-se de “semanas muito estressantes”. Sua lealdade é altamente apreciada em Munique. Segundo Gruber, o arcebispo Reinhard Marx enviou-lhe os melhores votos e expressou sua apreciação pela ‘participação’ dele.

Tradutor: Deborah Weinberg

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