Famílias das vítimas do voo AF-447 estão chocadas com o descaso da Air France

A Air France recentemente ofereceu bilhetes aos parentes dos passageiros mortos no acidente sobre o Atlântico um ano atrás –mas fez as reservas na mesma aeronave e horário do voo malfadado. As famílias das vítimas estão revoltadas.

A razão da viagem já é triste o suficiente: um ano após o acidente com um jato da Air France na rota do Rio de Janeiro para Paris, no dia 1º de junho de 2009, os parentes das vítimas estão planejando se reunir no cemitério Père Lachaise em Paris onde inaugurarão um memorial aos 228 passageiros que morreram no voo, inclusive 28 alemães. 

A dor de funcionários e familiares das vítimas

  • Bob Edme/Reuters

    Funcionários da Air France comparecem em frente à catedral de Notre Dame em Paris, na França, para participar de cerimônia em homenagem aos passageiros do voo AF 447

Mais de 120 parentes estão planejando viajar do Brasil para Paris para participar da cerimônia. Muitos, porém, não conseguiram evitar o choque quando receberam os bilhetes que a Air France enviou. Eles têm reserva no voo AF-445 (ex-AF-447), na noite domingo, a bordo de um Airbus. “Este é exatamente o mesmo voo que o que roubou nossos parentes e amigos”, disse revoltado Maarten van Sluys, que dirige uma organização representando as famílias das vítimas. “Não sei o que a Air France pretendia, mas de qualquer forma é de mau gosto e sem consideração com o nosso estado emocional altamente frágil”, disse o holandês que mora no Rio de Janeiro. 

A maior parte das famílias dos mortos acusa a Airbus e a Air France de sérios erros que podem ter provocado a catástrofe. Elas disseram que a fabricante instalou um sistema de medição de velocidade, os chamados sensores de tubo de pitot, que congelaram ou falharam durante episódios de alta turbulência. Eles também acusam a Air France de não substituir as peças defeituosas e, em alguns casos, de ter se recusado a treinar os pilotos para lidarem com situações perigosas desse tipo. Os investigadores não puderam localizar as caixas pretas do avião e talvez seja impossível determinar a causa exata do acidente. 

Busca por gravadores de bordo entra em fase final 

A fase final da ampla busca na área do acidente começou recentemente. Usando submarinos e sonares, investigadores estão procurando os gravadores de bordo do avião. Mas o esforço de alta tecnologia até agora não revelou nada. 

O representante das vítimas, van Sluys, diz que os parentes estão sofrendo com a incerteza da causa do acidente. Além da compensação financeira, muitos querem saber exatamente o que causou o acidente para que uma tragédia similar seja evitada no futuro. Mas eles não têm muita fé nas autoridades francesas. E suspeitam que as causas estejam sendo encobertas. 

Os sensores removidos de outros modelos A330 estavam, segundo relatórios, “muito ruins” ou “medíocres”. De acordo com os especialistas citados nos documentos do processo: “Isso pode estar relacionado com o espaço de tempo desde a última manutenção”.

  • AP/Brazil’s Air Force

    Equipes de resgate recolhem pedaço da fuselagem do Airbus da Air France, que caiu no oceano

Será que o acidente poderia ter sido evitado? 

A falha nos sensores do pitot e o acidente poderiam ter sido evitados se os tubos do pitot tivessem sido limpos e fiscalizados com frequência? Essa é a questão que incomoda as famílias das vítimas. “Muitas não entram em um avião desde o acidente”, disse Sluys. E agora estão tentando se controlar porque realmente querem participar da cerimônia em Paris em homenagem às vítimas. 

Mas é “especialmente absurdo” para essas pessoas terem que viajar em um avião da Airbus, disse Sluys. 

Por isso, algumas das famílias das vítimas suspeitam de um motivo interesseiro por parte da Air France. Elas dizem que, nos processos por danos, os advogados da empresa aérea se recusaram a assumir os custos de tratamento psiquiátrico e poderão argumentar que os membros da família já estão estáveis psicologicamente para voar em um Airbus na mesma rota do avião que caiu. “Mas eu não posso acreditar que a Air France seja tão injusta”, disse van Sluys. Ele simplesmente acha os funcionários da empresa foram descuidados ao fazerem as reservas e talvez estivessem apenas tentando ser pragmáticos. 

“Eles só queriam encher o avião” 

Aparentemente, o Airbus da Air France usado no trecho, que foi rebatizado de AAF447 para AF445, está voando com poltronas vazias. “Eles queriam simplesmente encher o avião e colocaram nosso grupo de 100 pessoas nele”, disse Sluys. 

A associação das vítimas está pedindo à Air France para remarcar o grupo em um dos dois Boeings que voam entre o Brasil e a França diariamente. “Acho que faria muitos se sentirem melhor”, disse ele. 

A Air France, de sua parte, nega estar tendo problemas para encher o Airbus entre Rio e Paris. A empresa disse que até planejava usar um modelo maior da Airbus do que o A330 envolvido no acidente –colocando os passageiros, inclusive as famílias das vítimas, no A340. A empresa também disse que não se incomodaria em reservar um voo da Boeing para qualquer familiar das vítimas que se sentisse desconfortável em voar em um Airbus. Ela acrescentou que estava fazendo esforços consideráveis para levar em conta as necessidades emocionais dos sobreviventes.

Tradutor: Deborah Weinberg

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