Gregos culpam os estrangeiros pela crise econômica do país

Manfred Ertel,

Em Atenas (Grécia)

Se quiser evitar uma queda no abismo, a Grécia precisará implementar medidas de austeridade brutais e aumentar a sua arrecadação tributária. Mas muitos gregos, incluindo políticos de oposição, estão negando a realidade econômica da atual crise. Muitos cidadãos gregos comuns acreditam que a culpa pelos problemas enfrentados pelo país é das influências estrangeiras.

Georgios Trangas é um dos mais conhecidos jornalistas da Grécia. O seu programa de rádio matinal de duas horas, “Em Atenas”, que é transmitido para todo o país por uma estação de rádio privada, tem uma audiência tremenda. Todos os dias, o jornalista de 60 anos de idade expressa os seus pontos de vista e discute praticamente todas as questões que são importantes para os gregos, muitas vezes provocando controvérsias durante esse processo. Isso é algo que ele vem fazendo há muitos anos.

Trangas é uma figura polarizadora. No início deste ano, ele pediu um boicote aos produtos alemães como resposta aos ataques da mídia à Grécia por parte de jornais e revistas alemães de Berlim, Hamburgo e Munique. Ele também atacou o seu próprio governo devido ao programa de austeridade implementado, exigindo unidade e fazendo advertências sobre uma “divisão da sociedade”. Com os seus pontos de vista, ele atraiu uma audiência e uma parcela do mercado para o seu programa de rádio que praticamente não encontram rivais na Grécia.

“Dois jornalistas da 'Spiegel” estão me esperando lá fora”, diz Trangas aos seus ouvintes, ao terminar o seu programa. “O que eu devo dizer a eles?”. Ele eleva a voz, em tom de súplica e, como resposta à sua própria pergunta, pronuncia dois slogans: “Mantenham todos a cabeça erguida” e “Fiquem calmos”.

Imagens trágicas

As imagens trágicas dos protestos violentos da semana passada ainda estão frescas nas mentes das pessoas: bancos atacados com bombas incendiárias e três mortos, incluindo uma jovem que estava grávida de quatro meses. Mas Trangas não parece estar particularmente aborrecido ou comovido pelos acontecimentos. Ele pode estar um pouco mais quieto do que o normal, mas a sua autoconfiança é a mesma. “Nós estávamos esperando isso”, diz ele, após desligar o microfone, referindo-se às consequências trágicas do ataque incendiário. “O povo é como um vulcão”.

Trangas não é um esquerdista. Ele está mais inclinado para a ala direita do partido conservador Nova Democracia (Nea Dimokratia), cujo ex-primeiro-ministro, Costas Karamanlis, adulterou os números referentes ao déficit orçamentário e fabricou estatísticas que depois foram deixadas como herança para o seu sucessor, o atual primeiro-ministro, George Papandreou.

O radialista está sentado diante de uma mesa de conferência em um escritório da estação de rádio. Ele usa uma camisa de rugby de uma marca famosa e traz um relógio pesado de ouro no braço enquanto fala sobre a corrupção no seu país. “É muita corrupção”, queixa-se ele. Enfatizando o grave problema moral, ele dirige teatralmente o olhar para o chão. “Mas companhias alemãs também lucraram com isso”, acusa Trangas. “Não houve um só contrato concedido à Alemanha ou a outros países da União Europeia que não estivesse altamente superfaturado devido aos pagamentos de propinas”. Em outras palavras: os culpados não foram só os gregos – todos participaram e saíram lucrando com o sistema. Essa ideia faz pelo menos com que seja mais fácil para as pessoas conviverem com uma consciência culpada.

Trangas é um formador de opinião, ou pelo menos ele ajuda a estabelecer o tom do discurso no seu país. Além do seu programa matinal de rádio, ele aparece como comentarista em um noticiário televisivo popular no horário nobre da noite. Ele também escreve colunas para jornais e publica um pequeno jornal que circula aos domingos.

Negando a realidade

Indivíduos como Trangas, que existem em grande quantidade mídia grega, serão importantes nas próximas semanas. Eles contribuirão bastante para determinar se os socialistas sob o governo Papendreou obterão o apoio popular do qual precisam para implementarem o programa radical de reestruturação da Grécia e evitarem uma falência nacional. Mas eles são também capazes de estimular as pessoas a saírem às ruas para resistir às dolorosas medidas de austeridade econômica. Foi esse o tipo de sentimento que criou pelo menos uma vítima política na semana passada: Dora Bakoyannis, a popular ex-prefeita de Atenas.

Bakoyannis, 56, é filha do ex-primeiro-ministro grego Constantine Mitsotakis, cuja família, juntamente com os clãs Karamanlis e Papandreou, constituiu-se em uma das três dinastias de poder na Grécia democrática. A sua última atuação política foi como ministra das Relações Exteriores no governo Karamanlis. Mas quando chegou a hora de Karamanlis escolher o seu sucessor como líder do partido Nova Democracia, a liberal Bakoyannis perdeu para o candidato de direita Antonis Samaras, em um episódio que foi interpretado como uma mudança de direção do partido.

Durante a votação da última quinta-feira a respeito do segundo pacote de medidas para economizar dinheiro, ordenado pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Bakoyannis foi a única integrante parlamentar do partido oposicionista Nova Democracia cujo voto foi de apoio ao governo. Depois disso, ela foi primeiro expulsa do grupo parlamentar do partido, e mais tarde da própria agremiação. Agora os analistas acreditam que ela criará um novo partido político em uma tentativa de sacudir o tradicional sistema partidário do país.

Mas, assim como a oposição política, o astro do rádio Georgios Trangas também parece indiferente à realidade econômica do país. Em busca de um bode expiatório, Trangas, assim como muitos outros gregos, gosta de olhar para além das fronteiras do país. “O que os governos europeus sabem realmente a respeito da dívida da Grécia, e por que foi que eles permitiram isso?”, indaga Trangas. O radialista afirma que essa é uma “questão muito importante” para ele. Essa é uma questão que muitos cidadãos gregos comuns também estão discutindo acaloradamente no momento.

Fabricando mitos a partir de uma manifestação fatal

Trangas é bom quando se trata de apresentar questões, mas ele não é tão talentoso assim para respondê-las. “Eu não entendo de forma alguma como uma política europeia como a chanceler Merkel pôde permitir que o FMI, sob a influência dos norte-americanos, penetrasse na zona do euro”, diz ele. “Por que eles se intrometeram aqui?”.

Mas quando lhe perguntam qual teria sido a alternativa a uma intervenção do FMI, ele não fornece uma resposta, e somente diz: “O fato é que o FMI encontra-se aqui, exigindo medidas sob a influência dos norte-americanos, e proporcionando combustível para as manifestações de protesto”. O sentimento antiamericano, algo que há muito tempo tem sido bastante popular na Grécia, voltou a florescer nos dias atuais – e está agora alimentando os argumentos daqueles que se opõem ao rigoroso programa de austeridade.

O segredo de uma parcela da sociedade grega é culpar os outros e criar mitos a fim de evitar a dura realidade. Por exemplo, podem-se ouvir por toda parte indivíduos – incluindo jornalistas sérios, políticos e empresários – alegando que os culpados pelos ataques incendiários da semana passada foram na verdade “provocadores”, e não manifestantes irresponsáveis – apesar do fato de os perpetradores terem sido na verdade vistos em ação. Eles também acusaram o governo de envolvimento nesses episódios, afirmando que ele desejava desacreditar os manifestantes.

O que a Grécia precisa modificar

Mas esse é simplesmente o jeito grego de ser em época de crise. E isso é também o que faz com que até os observadores mais bem intencionados tenham uma tendência a acreditar que o governo Papendreou é capaz de ter sucesso por meio da seriedade e da obstinação.

E, no fim das contas, a verdade é que a redução de despesas não será suficiente. O Estado grego necessita de um aumento maciço das suas receitas, e isso será também um teste de caráter para o país. Maiores receitas significam também maior honestidade quando se trata de tributação, bem como de medidas para reduzir o mercado negro do trabalho, aumentar o consumo, conter a fuga de capital do pais, tornar a Grécia mais competitiva, reduzir a corrupção, estimular o crescimento e eliminar a economia informal. A maneira como os gregos lidarão com essas questões determinará se o país será capaz de superar os seus problemas ou se ele já despencou no abismo.

Como parte desse processo, o governo grego precisa fazer com que o povo entenda por que as medidas de austeridade e as mudanças estruturais são necessárias. Será necessário o trabalho de figuras da mídia capazes de transmitir essa mensagem à população em geral. E também serão necessários exemplos que tenham credibilidade.

E eles existem, conforme sugere o economista de 50 anos de idade Jens Bastian. Ele trabalha para a Fundação Helênica de Políticas Europeias e Estrangeiras, onde é responsável pela pesquisa sobre o sudeste da Europa e a Grécia. Bastian considera as dolorosas medidas planejadas pelo governo “socialmente equilibradas”. Por exemplo, diz ele, a redução dos bônus pagos aos funcionários públicos, que são equivalentes a dois meses extras de salário a cada ano, dependerá do salário de cada indivíduo.

Ele diz que outros exemplos também sugerem que o governo está agindo com credibilidade. Como um exemplo, ele cita a ação do governo no sentido de tomar providências em relação às milhares de piscinas particulares não registradas nos arredores da capital.

Nos afluentes subúrbios do norte de Atenas, apenas 324 proprietários de imóveis registraram voluntariamente as suas piscinas junto às autoridades tributárias. Na realidade, porém, existem 16.974 piscinas particulares conhecidas nos subúrbios de Atenas. Mas os proprietários de imóveis sonegam essa informação a fim de manterem o valor das suas casas artificialmente baixo com o objetivo de pagarem menos impostos sobre propriedade, ou, em alguns casos, porque essas piscinas foram construídas ilegalmente. O governo afirmou agora que reavaliará no valor desses imóveis – e a maioria dos proprietários pode esperar pesados acréscimos nos impostos pagos.

“A Grécia é cara demais”

Uma outra questão decisiva para o sucesso do programa de reestruturação é saber se o governo grego será capaz de gerar um novo e duradouro crescimento econômico. Mas, também a esse respeito, Bastian, que morou na Grécia durante 13 anos, está otimista. Ele enxerga um potencial considerável de sucesso na planejada liberalização do mercado de trabalho.

Na Grécia, muitas profissões consideradas autônomas, incluindo as de arquiteto, advogado, médico, farmacêutico, motorista de táxi e companhias de transportes, são “organizadas como cartéis”, diz Bastian. “Essas são profissões fechadas”. “Agora essas barreiras serão removidas”, diz ele. “Isso é algo que criará futuras oportunidades para pessoas jovens e uma maior competição”.

“Até agora, era mais barato obter um contêiner cheio de material de construção vindo da China para Atenas do que transportar um contêiner similar daqui para Rodes”, explica o arquiteto e funcionário da construção Gerasimos Drimaropoulos.

O país também “negligenciou fortemente” a captação de investimentos estrangeiros diretos desde 2004, explica Bastian. O economista enxerga grandes oportunidades nessa área. No entanto, o pré-requisito para isso é que a Grécia finalmente pague as suas dívidas atrasadas.

Além disso tudo, o país precisa tornar-se mais barato. “A Grécia é cara demais”, observa Bastian. “Essa é a experiência diária dos gregos, e também dos turistas estrangeiros”. O economista afirma que os preços agora estão começando a mudar, e ele prevê que haverá um nítido “ajuste dos preços para baixo” nos próximos meses.

São previsões desse tipo que o radialista Georgios Trangas gosta de ouvir. Ele acredita que o seu país necessita basicamente de duas coisas: tempo e confiança. “Os gregos são lutadores”, diz ele. “Como regra, eles são bem sucedidos em tempos difíceis”. Se isso se aplica ao caso atual é algo que ainda terá que ser comprovado. 

*Ferry Batzoglou contribuiu para esta matéria.

Tradutor: UOL

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