É necessário um "salto quântico" na governança da zona do euro, diz o presidente do Banco Central Europeu

Christoph Pauly e Thomas Tuma

  • Johannes Eisele/Reuters - 07.maio.2009

    Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu durante coletiva em Bruxelas, na Bélgica

    Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu durante coletiva em Bruxelas, na Bélgica

Em uma entrevista a “Der Spiegel”, Jean-Claude Trichet, 67, o presidente do Banco Central Europeu, fala sobre o maior pacote de socorro financeiro na história da Europa, o papel e a importância dos especuladores na crise enfrentada pelo euro e a debilidade demonstrada por políticos dos países membros da zona do euro.

Spiegel: Senhor Trichet, como é que você tem dormido nos últimos dias?

Trichet: Eu sempre durmo bem! 

Spiegel: Você não tem tido pesadelos?

Trichet: Não.

Spiegel: No entanto, o mundo financeiro sofreu uma mudança desde o fim de semana retrasado. Os países da zona do euro organizaram um pacote de ajuda financeira, anteriormente inimaginável, no valor de 700 bilhões de euros (US$ 889 bilhões, R$ 1,6 trilhão), para salvar da bancarrota países membros que se encontrarem em dificuldade. Até mesmo a sua instituição cedeu quanto a alguns dos seus mais firmes princípios e agora pretende comprar até mesmo títulos de governo com classificações de risco ruins.

Trichet: Não, nós não cedemos quanto aos nossos princípios. A estabilidade de preços é o nosso principal objetivo e elemento norteador. Porém, é evidente que a partir de setembro de 2008 nós temos enfrentado a situação mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial – e talvez até mesmo desde a Primeira Guerra Mundial. Nós passamos – e ainda estamos passando – por um período verdadeiramente dramático.

Spiegel: Isso ficou evidente na maneira como você e outros têm se comportado nos últimos dias.

Trichet: Em períodos como este, é necessário manter a calma e analisar a situação da maneira mais lúcida possível. Em agosto de 2007, nós fomos a primeira grande instituição do mundo a avaliar corretamente o que estava ocorrendo nos mercados de capital com o início da turbulência financeira. E nós reagimos rapidamente.

Spiegel: O que exatamente aconteceu entre a quinta-feira e o domingo da semana retrasada, quando os líderes de Estado e governos da Europa lançaram o maior pacote de socorro financeiro da história do continente?

Trichet: Na tarde da quinta-feira e no decorrer de toda a sexta-feira, nós observamos uma contínua deterioração da situação nos mercados financeiros, na Europa e, como consequência, também em um nível global. Na sexta-feira, quando os mercados fecharam, vários indicadores importantes – spreads sobre as dívidas soberanas na Europa, spreads CDS e a situação do mercado interbancário – demonstravam o alastramento de graves tensões. Eu mencionei esse fato para os chefes de Estado e governo na noite de sexta-feira. Foi isso que aconteceu entre a manhã da quinta-feira e a noite da sexta-feira. Ficar em um estado permanente de alerta é essencial quando se tem responsabilidades importantes.

Spiegel: Os fundos de hedge e outros investidores especulativos atualmente gerenciam ativos com um valor total de US$ 2,6 trilhões (R$ 4,7 trilhões). Mas até mesmo uma quantia inimaginável como essa não deveria ser de fato suficiente para uma aposta contra a zona do euro. Portanto, você acredita que nós estamos vulneráveis?

Trichet: Não se fizermos o nosso trabalho de forma apropriada.

Spiegel: Os especuladores apenas exacerbam problemas existentes?

Trichet: Primeiramente é preciso colocar a própria casa em ordem. Essas instituições grandes e altamente alavancadas se constituem em uma importante questão a ser discutida em nível global.

Spiegel: Sendo assim, qual é o perigo? Apenas os bancos? O euro? A União Europeia?

Trichet: Atualmente estamos enfrentando graves tensões, que estão surgindo após os acontecimentos de 2007 e 2008. Naquela época, instituições privadas e mercados estavam prestes a entrar em um colapso total. Isso gerou um apoio financeiro muito arrojado e amplo dos governos. E agora nós vemos a credibilidade de alguns governos ser questionada. Esse é um problema de quase todos os países industrializados. No G-7, as principais economias mundiais estão com um déficit anual em torno de 10% do seu produto interno bruto. Na zona do euro como um todo, esse déficit está em média em torno de 7% do produto interno bruto. Em tal situação, com déficits extremamente elevados em todo o mundo, os mercados identificaram um elo frágil: a Grécia. Além disso, ao se levar em conta o fato de que as estatísticas relativas àquele país já foram incorretas, as pressões do mercado concentraram-se nele e um programa drástico de ajustes se fazia necessário.

“A coisa lembrava um pouco a situação após a quebra do Lehman Brothers”

Spiegel: Aparentemente, não foi apenas a Grécia que foi alvo desse tipo de ataque. Portugal foi o próximo alvo...

Trichet: No mercado, sempre existe um perigo de contágio – como aquele que nós presenciamos entre as instituições privadas em 2008. E isso é algo que pode ocorrer rapidamente. Às vezes é uma questão de menos de um dia. Este é um problema para o mundo industrializado como um todo.

Spiegel: Supostamente, até mesmo bancos centrais asiáticos teriam perdido a confiança no euro. E eles são protagonistas fundamentais.

Trichet: Uma moeda que mantém o seu valor inteiramente alinhado com a sua definição de estabilidade de preço – com taxa de inflação anual de menos de 2%, próxima de 2% - no decorrer de quase 12 anos, é uma moeda que inspira confiança.

Spiegel: No caso da Grécia, o debate em Berlim há apenas algumas semanas dizia respeito ao fornecimento de um auxílio na casa dos três bilhões de euros (R$ 6,7 bilhões). Mas agora fala-se em cifras de três dígitos. O que nos custou a hesitação do governo alemão em relação à Grécia?

Trichet: Há muito mais fatores nessa história. O governo grego demorou muito para reconhecer a amplitude do problema e para tomar as medidas necessárias. Nós, do Banco Central Europeu, avisamos de forma alta e clara que o governo tinha que agir de maneira rápida e decisiva. Em tempos muito difíceis, tempos de tensões graves, decidir rápida e decisivamente é essencial.

Spiegel: Os mercados financeiros não ficaram impressionados com o primeiro pacote de auxílio à Grécia.

Trichet: Como eu disse, a situação já estava começando a piorar na tarde de quinta-feira e durante toda a sexta-feira da semana retrasada. Vários mercados já não estavam mais funcionando corretamente. A situação lembrava um pouco aquela de meados de setembro de 2008, após a bancarrota do Lehman Brothers.

Spiegel: O ataque ao euro foi mais dramático para a Europa do que a questão do Lehman?

Trichet: Não é um ataque ao euro. É uma questão da credibilidade dos Estados e, consequentemente, da estabilidade financeira da zona do euro. Está claro que a principal responsabilidade dos europeus é tomar as medidas apropriadas a fim de atacar as atuais tensões graves que irromperam na Europa.

Spiegel: No decorrer da crise, o conselho diretor do Banco Central da Europa decidiu, pela primeira vez, comprar títulos de governo de países da União Europeia que se encontram em dificuldades – rompendo assim um tabu. O presidente do banco central da Alemanha, o Bundesbank, Axel Weber, e o seu congênere holandês e economista da Banco Central Europeu, Jürgen Stark, votaram contra a medida. Dificilmente se viu tanta discórdia no seio da instituição que toma as decisões mais importantes relativas ao euro.

Trichet: Como você sabe, eu nunca faço comentários a respeito de opiniões individuais. As nossas medidas estão explicitamente autorizadas pelo tratado da União Europeia. Nós não estamos embarcando em uma operação de alívio quantitativo do nervosismo. O que estamos fazendo é ajudar alguns segmentos do mercado a funcionarem de maneira mais normal. E, conforme eu disse, nós retomaremos toda a liquidez adicional que fornecermos no nosso Programa de Mercados de Securities

Spiegel: A população em geral ficou com a impressão de que os governos pressionaram o Banco Central Europeu a tomar essa decisão. Isso seria um sinal assustador no que se refere à independência e à credibilidade

Trichet: Isso é ridículo! Nós tomamos as nossas decisões de forma completamente independente e temos um histórico do assumir posições contrárias àquelas de chefes de Estado e de governo – em 2004, ao recusarmos uma redução de taxas de juros, em 2005, ao aumentarmos as taxas contras a vontade deles, e durante todo este período, ao defendermos aguerridamente o Pacto de Estabilidade e Crescimento, incluindo a defesa deste pacto contra a vontade do chanceler alemão à época. Então, quem tem sido fraco no decorrer dos últimos meses? Não é o Banco Central Europeu. Os governos, com as suas elevadas dívidas, foram fracos. Será que eu fui fraco quando expliquei a todas as lideranças políticas no Bundestag (o parlamento federal da Alemanha) por que era importante tomar rapidamente uma decisão? Ou fui fraco quando informei aos chefes de Estado e governo de forma totalmente independente que a situação era grave e que eles teriam que cumprir com as suas responsabilidades? Nós tomamos a nossa decisão no domingo com total independência.

“O Banco Central Europeu tem sido forte e independente”

Spiegel: Até o momento, o Banco Central Europeu tem sido forte e independente porque ele rejeitou repetidamente pedidos vindos da área política para que abaixássemos as taxas de juros ou que adotássemos uma política monetária excessivamente expansiva. Vocês agora cederam pela primeira vez.

Trichet: Nós não cedemos nada aos chefes de Estado e governo. Nós sempre tomamos as nossas decisões levando em conta somente a nossa própria avaliação da situação, e não as “recomendações” dos governos, mercados ou parceiros sociais. Em 9 de agosto de 2007, nós decidimos fornecer 95 bilhões de euros (R$ 211 bilhões) de liquidez em algumas horas porque o nosso mercado monetário estava sendo atrapalhado. E eu poderia fornecer vários outros exemplos. Conforme eu já disse, se houve qualquer influência, essa se deu mais no sentido oposto, do Banco Central Europeu para os governos, quando fizemos recomendações a estes. E, deixe-me dizer que aqueles que não assumiram responsabilidades bastante significativas foram aqueles que não aplicaram o espírito da carta do Pacto de Estabilidade e Crescimento. E tampouco foram aqueles que não exerceram a sua vigilância como deveriam, e como nós constantemente lhes pedimos que façam.

Spiegel: Em uma entrevista que ele deu a “Der Spiegel” alguns meses atrás, Jürgen Stark, o economista mais importante do Banco Central Europeu, disse que o banco não tinha permissão para adquirir títulos de governo. Quem estava com a razão?

Trichet: Eu já disse que isso está explicitamente autorizado pelo tratado nos últimos onze anos e meio. Nós garantimos a estabilidade de preços na Europa e atingimos com sucesso a nossa meta de manter a inflação abaixo, mas próxima, de 2%. Aqueles que acreditam – ou, ainda pior, que estão sugerindo – que nós toleraremos inflação no futuro estão cometendo um grave erro. O conselho de administração do Banco Central Europeu não hesitou em elevar as taxas de juros em julho de 2008, em um período de turbulência financeira, a fim de assegurar a estabilidade de preços. Naquela época nós fomos criticados pelos mercados. Essa é uma prova da nossa determinação inflexível.

Spiegel: Os alemães reagem de uma maneira especialmente sensível porque o Bundesbank já havia se recusado, mesmo em épocas de crise, a comprar títulos de governo. Você é capaz de entender essas preocupações alemãs específicas?

Trichet: Eu entendo totalmente a sensibilidade especial dos meus amigos alemães. Mas fatos são fatos: a inflação na Alemanha nunca foi tão baixa quanto nos últimos 11 anos. Os cidadãos alemães podem perceber que o euro tem sido de fato uma boa reserva de valor no decorrer do tempo.

Spiegel: Mas as pessoas estão preocupadas com o futuro. Elas temem que a inflação retorne e que as suas poupanças percam valor.

Trichet: Em determinado momento o Banco da Inglaterra e o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) adotaram o chamado “quantitative easing”, ou seja, a compra de títulos públicos a fim de fornecer a maior liquidez possível ao mercado. O que nós estamos fazemos no momento é inteiramente diferente. Nós recolheremos toda a liquidez adicional que fornecermos.

Spiegel: Muitos alemães temem também que o seu governo esteja se transformando no tesoureiro da Europa.

Trichet: Em entendo o medo que os alemães sentem da inflação, e a ansiedade deles em relação ao seu orçamento e à sua contribuição para a Europa. Na França, eu já fui chamado de o “Aiatolá de Franc-Fort”...

Spiegel: ...o que tem dois significados: Frankfurt e um euro forte...

Trichet: ...porque eu defendo uma política de moeda forte. A inflação é destrutiva para sociedades e para a democracia. Ela se constitui em um imposto pago pelos pobres e os fracos. Esta é a minha convicção bastante firme.

Spiegel: Existe sempre uma grande tentação por parte dos políticos de gastar mais dinheiro do que possuem. A inflação os ajuda a reduzir a sua dívida.

Trichet: É claro que nós agora temos que exigir amplos programas de ajuste dos governos, algo com o qual os chefes de Estado e governo se comprometeram na sexta-feira da semana retrasada. Eles comprometeram-se com a aceleração e a consolidação dos seus orçamentos. Eles sabem o que está em jogo neste momento.

Spiegel: Não seria bom se um país como a Grécia pudesse sair da zona do euro?

Trichet: Não. Esta possibilidade está excluída. Se um país ingressa na zona do euro, ele passa a compartilhar um destino comum com os outros membros. Existe uma necessidade de um salto quântico na governança da zona do euro. É preciso haver importantes melhorias para prevenir maus comportamentos, para assegurar a implementação efetiva das recomendações feitas por “colegas” e para garantir sanções reais e efetivas no caso do não cumprimento do que está estabelecido (no Pacto de Estabilidade e Crescimento). O Banco Central Europeu está pedindo mudanças importantes, e eu explicarei isso na força-tarefa chefiada por Herman van Rompuy (presidente do Conselho Europeu).

Spiegel: O que faz com que você tenha tanta certeza de que os principais políticos da Europa não usarão o Banco Central Europeu como uma máquina permanente de impressão de dinheiro?

Trichet: Novamente, nós retomaremos toda a liquidez adicional que estamos injetando no sistema. A nossa postura em termos de política monetária permanece inalterada. Nós nunca hesitamos por um segundo sequer em tomar as decisões necessárias a fim de garantir a estabilidade de preços, sem que levássemos em conta qualquer grupo de pressão.

Spiegel: Mas os bancos, também, estão se beneficiando do Banco Central Europeu. Como parte das suas, assim chamadas, medidas não convencionais, você tornou novamente possível para eles tomar emprestado incontáveis bilhões de euros. Ao fazer isso, você não está fornecendo ainda mais dinheiro especulativo para os mercados financeiros?

Trichet: Novamente, nós fazemos aquilo que acreditamos que temos que fazer de forma totalmente consciente, para sermos capazes de promover a estabilidade financeira no médio prazo. Nós não levamos em conta grupos de pressão e lobbies. Nós fornecemos liquidez aos bancos de forma que eles possam financiar a economia real e apoiar a recuperação, e eles sabem disso.

Spiegel: Você cometeu algum erro individual nas últimas semanas?

Trichet: Não cabe a mim julgar isso. A história é que fará tal coisa. Na semana passada, o ex-chanceler alemão Helmut Schmidt descreveu o desempenho do Banco Central Europeu como sendo impecável.

Tradutor: UOL

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