Após os confrontos, o que acontecerá a seguir na Tailândia?

Thilo Thielke

O movimento dos Camisas Vermelhas teve início como um protesto dos pobres, mas ele transformou-se em um movimento de massas protagonizado por aqueles indivíduos que rejeitam a cultura política elitista da Tailândia. A ação repressiva contra os setores oposicionistas na semana passada não resolveram os problemas em uma sociedade profundamente dividida.

Aquilo que teve início como um protesto dos pobres transformou-se em um movimento de massas. Não foram apenas os camponeses e os operários do norte da Tailândia que saíram as ruas como “Camisas Vermelhas”. Empresários, estudantes e membros da classe média também estão se revoltando contra a cultura política da Tailândia e a influência das forças armadas e da elite urbana.

Os Camisas Vermelhas não contam com estruturas nítidas de comando. Eles são um polo de atração para os indivíduos destituídos de poder, muitos dos quais sentem saudades do ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra e se veem excluídos das redes de poder em Bancoc – de um sistema no qual os graduados pelas universidades particulares e academias militares assumem todos os cargos de influência.

Eles estão unidos pela raiva em relação ao atual governo do primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva, que não foi eleito pelo povo, e sim pelo parlamento – após intrigas dúbias das forças armadas. E eles estão unidos também contra um oponente comum: os situacionistas Camisas Amarelas – uma aliança de funcionários públicos e das classes altas urbanas que se autodefinem como ferrenhos monarquistas.

Divisões profundas nas forças armadas

Mas os conflitos na Tailândia não dizem respeito apenas à possibilidade de novas eleições – o país está também lutando contra si próprio. A população, o exército e até mesmo a monarquia encontram-se divididos. O rei Bhumibol, que reina desde 1946, permanece em silêncio publicamente – a mulher dele é tida por todos como uma amiga dos Camisas Amarelas. Já o príncipe da Coroa, por outro lado, nutriria simpatias pelos Camisas Vermelhas.

As profundas divisões existentes no seio das forças armadas foram recentemente reveladas quando o general Khattiya Sawasdipol foi suspenso por ter passado a apoiar os oponentes do governo. O seu assassinato pela bala de um franco-atirador o transformou em um mártir aos olhos dos seus seguidores. Até mesmo o comandante do exército da Tailândia, general Anupong Paochinda, agiu de maneira indecisiva – tendo primeiro apoiado novas eleições, conforme os manifestantes exigiam, e depois se aliado publicamente ao primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva durante uma entrevista na televisão.

O país está também dividido porque os partidos da Tailândia são dominados por homens influentes cujas bases de poder estão fundamentadas na política de compadrio praticada nas suas províncias natais. Isso também ocorria durante o governo de Thaksin Shinawatra, o multimilionário exilado do norte da Tailândia que atualmente está alertando para a possibilidade de eclosão de uma guerra de guerrilha de âmbito nacional.

A imprensa não informou a população

São os problemas estruturais que afligem a Tailândia que tornam o futuro do país sombrio: um exército que intervêm regularmente na política (a Tailândia teve 18 golpes militares desde 1932); um sistema jurídico constitucional que se define como neutro, mas que permite que seja usado para fins políticos; uma população que é doutrinada para se constituir de elementos leais – leais ao rei, e não à constituição. E a imprensa também fracassou na sua obrigação de informar a população. Na Tailândia, insultar a monarquia pode resultar em pena de prisão; isso mantém os críticos silenciosos.

A crise não foi resolvida, ela apenas sofreu uma transferência de local. Os Camisas Vermelhas provocaram dezenas de incêndio na semana passada em Bancoc, rebelaram-se nas províncias do norte do país e queimaram prédios públicos naquelas regiões. Nove corpos foram encontrados em um templo de Bancoc na última quinta-feira – 16 pessoas tinham morrido no dia anterior durante uma operação de repressão contra os manifestantes.

Se novas eleições fossem de fato realizadas neste ano, isto simplesmente significaria que os Camisas Vermelhas ocupariam o governo e os Camisas Amarelas é que estariam nas ruas protestando.

Tradutor: UOL

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