O dia em que o exército tailandês invadiu o acampamento dos rebeldes "camisas vermelhas"

Thilo Thielke

  • Vincent Yu/AP

O correspondente de “Der Spiegel”, Thilo Thielke, estava em Bancoc no dia em que o exército tailandês invadiu o acampamento dos Camisas Vermelhas. Aquele foi o último dia em que ele trabalharia com o seu amigo e colega de profissão, o fotojornalista italiano Fabio Polenghi, que foi morto com um tiro.

Quando os helicópteros começaram a circular acima do centro de Bancoc às 6h da última quarta-feira, eu sabia que o exército desfecharia em breve o seu ataque. Aquele era o momento que todos vinham esperando com temor havia semanas. Eu sempre tive dúvidas de que o governo realmente permitiria que as coisas chegassem a tal ponto. Havia muitas mulheres e crianças no distrito ocupado pelos manifestantes. Os soldados desejariam de fato correr o risco de provocar um banho de sangue?

Um estado de emergência vigorava nas últimas seis semanas na capital tailandesa, com o governo monarquista do primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva e o exército de um lado, e uma ampla coalizão de manifestantes contrários ao governo – muitos deles oriundos das províncias pobres do norte da Tailândia – do outro. Aproximadamente 70 pessoas tinham morrido em combates de rua e mais de 1.700 ficaram feridas. O jornal governista “Bangkok Post” rotulou o movimento de “anarquia” e a oposição falava de uma “guerra civil”.

Às 8h, eu cheguei à Zona Vermelha, uma área de três quilômetros quadrados em torno do distrito comercial de Ratchaprasong, que foi cercada de todos os lados pelo exército. Naquele dia, assim como em ocasiões anteriores, foi relativamente fácil entrar no acampamento, que eu já havia visitado diversas vezes no decorrer dos últimos meses. Atrás das barricadas feitas de bambu e pneus de carro, os manifestantes Camisas Vermelhas armaram as suas tendas e construíram um palco. Mas naquela manhã o clima de manifestação revolucionária que reinara até então no local havia se dissipado.

Os manifestantes aguardavam estoicamente os soldados. Eles sabiam que as forças armadas atacariam a partir do sul, pela Estrada Silom, e os mais corajosos deles tinham se aventurado a até um quilômetro de distância da linha de frente. Eles permaneceram lá, mas não estavam lutando. Alguns portavam estilingues, mas ninguém disparava.

Uma muralha de fogo montada com pneus incendiados separava os manifestantes do exército. Uma fumaça densa sufocava a rua, e, à medida que os soldados se movimentavam lentamente para frente, tiros passavam pelas ruas. Franco-atiradores disparavam dos prédios altos e as tropas que avançavam atiravam através da fumaça. E nós, um grupo de jornalistas, nos agachávamos em busca de cobertura, pressionando os nossos corpos contra uma parede para evitarmos as balas. Picapes com paramédicos passavam em alta velocidade para retirar os feridos do local.

Um cenário urbano devastado

Eram 9h30 quando o fotógrafo italiano Fabio Polenghi se juntou a nós. Fabio havia passado bastante tempo em Bancoc nos últimos dois anos, e no decorrer deste período nós nos tornamos amigos. Fabio, um sonhador de boa índole, de 48 anos, que morava em Milão, havia sido fotógrafo de moda em Londres, em Paris e no Rio de Janeiro antes de vir para Bancoc a fim de trabalhar como fotojornalista. Nós havíamos viajado juntos para uma cobertura da situação em Burma, e desde então tínhamos trabalhado frequentemente para “Der Spiegel”. No decorrer das últimas semanas, nós dois estávamos quase sempre trabalhando juntos.

Na noite anterior, nós caminhamos pela cidade juntos até o cair da noite. Nós nos encontramos na Rua Din Daeng, perto do Monumento da Vitória, que simboliza o orgulho da Tailândia por ter expandido o seu território 69 anos atrás. Agora nós estávamos no meio de um cenário urbano devastado, que revelava o mergulho do país no caos. A fumaça negra tomava conta do ar; somente os contornos do obelisco eram visíveis. As ruas haviam sido transformadas em uma zona de guerra. Alguns dias antes, eu havia permanecido agachado aqui durante uma hora e meia, buscando proteção contra uma saraivada de balas disparadas pelo exército – os soldados abriram fogo repentinamente porque alguém os teria alvejado com um estilingue.

Perto do acampamento dos Camisas Vermelhas fica o Templo Pathum Wanaram, que serviria de abrigo seguro para mulheres e crianças durante o ataque. Naquela noite nós nos encontramos com Adun Chantawan, 42, um insurgente da vila de Pasana, na região de Isaan, no norte do país – a área de cultivo de arroz onde teve início a rebelião contra o governo.

Adun nos disse que colhe cana-de-açúcar e arroz lá como trabalhador diarista – ganhando quatro euros (US$ 5, R$ 9,32) por dia. Ele estava aqui em Bancoc desde o início da ocupação, dois meses atrás. O governo de Abhisit Vejjajiva tem que renunciar, disse ele, porque não foi eleito pelo povo e só é apoiado pelas forças armadas, que foram as responsáveis por um golpe para derrubar o ex-primeiro-ministro, Thaksin Shinawatra – o herói dos pobres. Adun disse que deseja o retorno de Thaksin Shinawatra, mas, acima de tudo, ele quer uma Tailândia na qual a elite não detenha mais todo o poder e outras pessoas também usufruam das riquezas do país. Adun jamais acreditou que o governo fosse agir com tanta brutalidade contra o seu próprio povo. Mas ele nos disse que estava preparado para lutar até a morte pelos seus ideais.

Sonhos de viver em uma sociedade mais democrática

Adun Chantawan é um típico apoiador dos Camisas Vermelhas, mas nem todos eles vêm das províncias pobres do norte do país. Há também banqueiros de Bancoc entre eles, que se juntavam aos insurgentes à noite, após o trabalho, e também jovens valentões. Para a maioria deles, a questão principal não dizia respeito a Thaksin Shinawatra. Eles estavam mais preocupados com a injustiça social no país. Muitos deles sonhavam em viver em uma sociedade mais democrática. Eu jamais pude entender as alegações do governo de que os Camisas Vermelhas tinham sido comprados por Thaksin Shinawatra. Nenhum deles concordaria em ser morto a tiros por um punhado de bahts.

Quando procuramos Adun no dia seguinte, nós não conseguimos encontrá-lo em lugar algum. O caos estava por toda parte. Fabio e eu vimos a fumaça, e os soldados por detrás dela, avançando na nossa direção – e nós escutamos uma quantidade cada vez maior de tiros. Franco-atiradores de uma rua lateral estavam atirando contra nós.

A carnificina havia começado. Eu não ousei seguir mais adiante, mas Fábio correu para frente, atravessando a rua, em direção ao local de onde os tiros eram regularmente disparados – uma distância de cerca de 50 metros – e buscou abrigo em uma tenda abandonada da Cruz Vermelha. Aquele lugar demarcava o início da terra de ninguém entre nós e as tropas que avançavam. Eu pude ver o seu capacete azul com a inscrição “Imprensa”. Fabio acenou, me chamando para que eu me juntasse a ele, mas eu achei muito perigoso ir até lá.

Desde o início do conflito, eu percebi que o exército tailandês é uma força amadora. Se eles tivessem de fato reprimido os protestos de rua no início, o conflito jamais teria crescido até este ponto. Mas assim que os soldados tentaram reprimir os manifestantes, eles deixaram atrás de si uma trilha de mortos e feridos. Eles atiraram com munição real contra os Camisas Vermelhas que portavam armas rudimentares.

Naqueles dias eu pude presenciar batalhas absurdas e desiguais. Jovens agachados atrás de sacos de areia que alvejavam os soldados com fogos caseiros e estilingues. Os soldados retornavam fogo com escopetas, rifles de precisão e fuzis automáticos.

No acampamento, os Camisas Vermelhas exibiam fotos de uma fileira de corpos que traziam ferimentos a tiros na cabeça – eles desejavam provar que os franco-atiradores nos prédios altos haviam premeditadamente liquidado os manifestantes. Entre eles estava o general Khattiya Sawasdipol, um oficial militar renegado e um dos líderes mais radicais do protesto contra o governo. Ele havia sido atingido por uma bala na cabeça seis dias antes, e morrera pouco depois.

O governo sustenta que essas ações não tiveram nada a ver com execuções, e que os manifestantes é que estavam se matando entre si. Isto não é verdade. No decorrer dos últimos dois anos, durante os quais eu fiz matérias sobre os Camisas Vermelhas, eu quase nunca vi uma arma de fogo sequer – com a exceção de um raro revólver nas mãos de um guarda-costas.

Naquela manhã, os primeiros soldados penetraram pela muralha de fumaça. De onde eu estava, era quase impossível vê-los, mas eu podia ouvir as balas silvando pelo ar. Elas eram disparadas por franco-atiradores, que abriam caminho adiante, de prédio a prédio. Alguns deles pareciam estar bem diante de nós. Eu não conseguia mais ver Fabio.

Eles atiraram em um italiano

Eu segui para o Templo Pathum Wanaram, que ficava algumas centenas de metros a oeste, na Zona Vermelha. Os manifestantes que ocupavam o local haviam perdido, isso estava bem claro – eles não chegaram sequer a reagir. Eram 11h46, e eles cantavam o hino nacional. Mulheres e crianças fugiam para o pátio do templo para escaparem das tropas que se aproximavam. Um dos líderes do protesto, Sean Boonpracong, ainda se encontrava sentado na tenda principal dos Camisas Vermelhas. Ele disse que pretendia dar continuidade à resistência, mesmo após o ataque do exército. Em vez de permitir que o prendessem, ele pretendia cair na clandestinidade.

Às 11h53, eu tentei falar com Fabio pelo telefone. A sua caixa de mensagens foi ativada, o que não era comum. Só ocasionalmente eu conseguia obter um sinal. Em frente ao hospital da polícia, alguns jornalistas aguardavam que os paramédicos chegassem com os feridos. Uma enfermeira anotou em um mural os pacientes que deram entrada no hospital. Eram 12h07, e ela já havia escrito 14 nomes. Um repórter estrangeiro estava ao meu lado. Ele me disse que haviam atirado em um italiano. Um tiro bem no coração, havia cerca de uma hora e meia. Ele me disse que havia tirado a foto do italiano, e que até sabia o nome dele: Fabio Polenghi.

Colunas de fumaça subiam sobre a cidade naquela tarde. Os Camisas Vermelhas em retirada ateavam fogo a tudo: o enorme shopping center Central World, a bolsa de valores e um um cinema Imax. A população saqueou supermercados e caixas eletrônicos. Quando eu finalmente retornei para casa, pilhas de pneus ardiam nas ruas.

Ao fim daquele dia que o governo escolheu para restaurar a ordem, Bancoc era um lugar apocalíptico. E Fabio, o meu amigo, estava morto.

Tradutor: UOL

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