A riqueza oculta da Igreja Católica

Anna Catherin Loll e Peter Wensierski

  • Maurizio Brambatti/EFE

    Papa diz que Igreja está "ferida por nossos pecados"

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A Igreja Católica na Alemanha, já em dificuldades para lidar com o escândalo de abuso sexual, também foi atingida por revelações de roubo, contabilidade opaca e extravagância. Enquanto alguns fiéis são forçados a enfrentar cortes, alguns bispos desfrutam dos ornamentos da considerável riqueza oculta da Igreja.

Logo após o Pentecostes, o padre S. recebeu uma visita inesperada ao amanhecer, não do Espírito Santo, mas da polícia.

Para as autoridades, as palavras do Evangelho de Lucas se concretizaram naquela manhã: quem procura, acha. Mais de 131 mil euros estavam escondidos em vários lugares nas salas do padre católico, escondidos entre sua roupa para lavar ou pregados debaixo das gavetas. O padre foi preso na hora. Após várias semanas sob custódia, Hans S., 76 anos, agora está de volta ao mosteiro, aguardando por julgamento.

E para espanto geral, a proliferação de dinheiro pode ser ainda mais milagrosa do que inicialmente presumida. O gabinete do promotor-público da cidade sulista de Würzburg agora estima que S. possa ter desviado até 1,5 milhão de euros de doações e outros fundos da Igreja. Os membros de sua congregação, em uma aldeia produtora de vinho na região bávara de Franconia, estão perplexos. Eles confiaram cegamente em seu pastor, que sempre parecia humilde e modesto.

A Igreja Católica está atualmente sendo abalada por uma série de escândalos financeiros, não apenas em Franconia, mas também em Augsburg, outra cidade bávara, onde o desvio pelo bispo Walter Mixa dos fundos de uma fundação que cuida de orfanatos recentemente ganhou as manchetes.

Mais de 40 milhões de euros desapareceram da Diocese de Magdeburg, no leste da Alemanha, 5 milhões de euros desapareceram em Limburg, perto de Frankfurt, e recentemente foi descoberto que um padre da Diocese de Münster tinha 30 contas bancárias secretas. E enquanto os fiéis por toda a Alemanha estão demitindo funcionários e cortando fundos de trabalho comunitário, muitos bispos ainda vivem em uma situação superior. Uma nova residência? Um lar ostentoso para sua aposentadoria? A reforma de uma coluna mariana no valor de 120 mil euros? Nenhum desses gastos representa um problema para as altas autoridades da Igreja em Trier, a oeste de Passau, no canto sudeste da Bavária, cujos cofres estão cheios de dinheiro.

Em muitos lugares, esta flagrante disparidade, juntamente com os relatos de má gestão, apropriação indébita e ostentação levaram os fiéis a enfrentarem as autoridades da Igreja. Eles estão acusando muitos bispos de apenas encobrirem o problema, como fizeram no caso de escândalo de abuso sexual. Eles estão determinados a não permitir que mais ninguém veja por trás da cortina o seu mundo paralelo de contas bancárias gordas e ativos escondidos, que, em alguns casos, escoram seu poder há séculos. O único aspecto das finanças da Igreja que é público é o orçamento da diocese, cujos recursos vêm do imposto da igreja – mas os verdadeiros ativos da Igreja permanecem nas sombras.

Dúvidas crescentes sobre os fundos da Igreja

Mas agora toda essa riqueza está se transformando em uma questão política. Os desempregados, recebedores de assistência habitacional, famílias, comunidades, empresas, militares – nos próximos anos, o governo federal planeja privar todos eles de bilhões de euros. Mas a Igreja, entre todos, está sendo poupada, e ninguém questiona o apoio generoso que ela recebe do governo.

Financeiramente falando, as dioceses alemãs estão em excelente forma. “A Igreja Católica alega que está pobre, mas a verdade é que ela esconde sua riqueza”, diz Carsten Frerk, um cientista político de Berlim que, após anos de pesquisa, está publicando ainda neste ano “Violettbuch Kirchenfinanzen” (O livro violeta das finanças da Igreja). Frerk estima que os ativos em dinheiro das entidades legais da Igreja cheguem a cerca de 50 bilhões de euros. Os católicos, que não divulgam seus próprios números, acusam Frerk de ser um crítico ateísta e preconceituoso da Igreja.

Os ativos, acumulados ao longo de séculos, são investidos em muitas áreas, incluindo imóveis, bancos de propriedade da Igreja, academias, cervejarias, vinícolas, empresas de mídia e hospitais. A Igreja também obtém renda de ações, fundações e heranças. Como regra, todo esse dinheiro vai para as contas das chamadas sés episcopais. Apenas o bispo e seus associados mais próximos têm conhecimento deste orçamento paralelo, que as autoridades tributárias não são obrigadas a fiscalizar. Os orçamentos públicos das dioceses consistem de bem menos do que o total de suas finanças.

Esta teia complicada é tratada com tamanho sigilo que nem mesmo os chefes de departamentos financeiros de todas as dioceses discutem abertamente suas finanças uns com os outros. Estruturas aparentemente barrocas tornam estas finanças ainda mais difíceis de compreender. Dependendo da diocese, os administradores dos fundos da Igreja podem ser membros do conselho fiscal da Igreja, um painel fiscal diocesano, um conselho financeiro ou um conselho administrativo. Às vezes os ativos também são divididos em fundações.

Dentre as 27 dioceses católicas da Alemanha, 25 se recusaram a fornecer informação em resposta a um levantamento da “Spiegel”, notando que essa informação “não é pública”. Apenas duas dioceses, Magdeburg e a Arquidiocese de Berlim, que estavam à beira da falência há poucos anos, se mostraram um tanto mais receptivas, provavelmente porque possuem pouco o que esconder.

Ativos secretos

O vigário-geral de uma diocese endinheirada, por outro lado, disse: “Sim, os ativos da sé episcopal são um segredo. Mas talvez seria melhor se você usasse o termo ‘confidencial’”. Quando foi pedido a uma porta-voz da Diocese de Limburg para que ela explicasse esse sigilo, ela respondeu: “É apenas o modo como é”. Finalmente, um representante da Conferência dos Bispos da Alemanha disse: “Eu não quero conversar com você sobre isso”.

Representantes leigos na base não são mais bem-sucedidos. Eles enfrentam um muro de silêncio, até mesmo quando são responsáveis pela supervisão financeira de sua diocese. Um deles é Herbert Steffen, que foi nomeado pela congregação ao conselho diocesano em Trier. Steffen, 75 anos, não é exatamente um forte crítico. Um ex-fabricante de móveis, ele vem de uma família arquicatólica de empreendedores na região do Rio Moselle. Sua preocupação era tão direta quanto conservadora: ele queria assegurar uma condição financeira sólida para sua diocese.

O empresário ficou irritado com suas experiências no conselho diocesano. “Eu fiquei surpreso com o pequeno tamanho do orçamento. Era algo que achei que devíamos tratar”, ele disse. Na reunião do conselho, ele perguntou a um confidente do bispo se aquele era todo o orçamento. “Também há o orçamento da sé episcopal. Mas ele não é destinado ao público”, respondeu a autoridade. Quando Steffen perguntou, “você está me dizendo que nós também não podemos vê-lo?” a autoridade disse: “Não”.

Trier, a mais velha diocese da Alemanha, é um bom exemplo da divisão católica entre ricos e pobres. O bispo Stephan Ackermann, que também supervisiona os casos de abuso sexual para a Conferência dos Bispos da Alemanha, pode ser bastante generoso em assuntos financeiros, particularmente quando envolvem projetos de prestígio vizinhos ao seu palácio episcopal. Por exemplo, a diocese atualmente tem reservado 1 milhão de euros para a reforma da praça atrás da Catedral de Trier. As autoridades locais da Igreja querem assegurar que a área esteja impecável, caso o papa decida conduzir a peregrinação anual da “santa túnica” em 2012, juntando-se aos fiéis na adoração da túnica que supostamente contém pedaços da túnica vestida por Jesus.

Cortes nos serviços sociais católicos

Por outro lado, os subsídios para organizações jovens e centros comunitários estão sofrendo cortes radicais ou sendo eliminados. Segundo o programa de corte de custos proposto pela diocese, várias instalações seriam fechadas, escritórios do supletivo católico, a Academia Católica de Trier e as sociedades estudantis católicas em Trier e nas cidades vizinhas de Saarbrücken e Koblenz.

Aqueles que serão afetados pelos cortes estão ultrajados. “Nossa meta é tornar a Igreja mais acessível”, diz Guido Gross, um padre que ministra aos estudantes universitários, “mas agora eles querem se livrar de todo o campo de atividade”. Lukas Rölli, da Confederação das Sociedades Estudantis Católicas, acrescenta: “Eu renunciarei minha fé se o bispo assinar isso”. Para Rölli, a Igreja Católica passa a impressão de que está “tentando cada vez mais se retirar da sociedade, voltando para a sacristia”.

Em Colônia, uma das dioceses mais ricas do mundo, também há uma enorme desigualdade entre aparência e realidade. Os fiéis católicos de lá lutam para se manter no azul financeiramente. Igrejas foram fechadas enquanto um número menor de padres precisa atender congregações cada vez maiores, de acordo com as exigências dos programas de austeridade. Enquanto isso, a Arquidiocese de Colônia tem um grande orçamento de 863 milhões de euros e os ativos da sé episcopal são estimados em vários bilhões de euros. Segundo os cálculos de Frerk, o crítico da Igreja, a participação acionária da diocese em um grupo de empresas conhecida como Aachener Gesellschaften, que consiste de 26 mil unidades comerciais e residenciais, valia mais de 1 bilhão de euros em 2003.

Mas o escritório financeiro do arcebispo faz pouca menção destas boas notícias. Se fizesse, os fiéis estariam dispostos a suportar todos os cortes e doariam alegremente seu dinheiro para o pagamento dos novos vitrais da catedral, de autoria do artista Gerhard Richter? Para a arquidiocese, é sempre preferível ter outros para pagarem as contas, mesmo quando se trata de pagar o arquiconservador cardeal Joachim Meisner. Com base em um acordo de séculos, o governo paga o salário mensal do cardeal da diocese, de cerca de 11.300 euros, o que não impede Meisner de atacar repetidamente seus patrocinadores por suas várias “falhas” e ateísmo.

Dinheiro dos contribuintes para as igrejas alemãs

Meisner e muitos de seus pares não são os únicos que recebem salários públicos. Ano após ano, tanto a Igreja Católica quanto a Igreja Protestante na Alemanha recebem pagamentos generosos dos governos federal, estaduais e locais. Não tão conhecidos como o imposto da igreja (cerca de 10 bilhões de euros por ano) são os subsídios anuais às igrejas, tanto diretos quanto indiretos, que em 2000 somaram estimados 17 bilhões de euros.

O governo paga somas substanciais de dinheiro para manutenção e constante reforma das catedrais e outras prédios da Igreja. Ele paga os salários dos professores de religião e paga a conta do vinho do altar, usado nos serviços religiosos para os militares. Alguns benefícios, como a entrega anual de lenha que algumas poucas cidades do sul da Alemanha fazem ao seus bispos, são baseados em direitos adquiridos de 200 anos que os políticos nunca revisaram.

Apesar da separação constitucional entre Igreja e Estado na Alemanha, subsídios substanciais são pagos para as conferências da Igreja, bibliotecas e padres que ministram os serviços religiosos aos policiais, presidiários, militares e instituições psiquiátricas. O governo até mesmo ajuda a pagar pela contratação daqueles que se recusam a lutar por motivos religiosos e até pela manutenção das urnas do ofertório e cruzes à beira da estrada.

A Igreja gosta de apontar o quanto faz pelos pobres e indefesos, além de promover a coesão social, o que é um argumento válido. Todavia, o governo paga a conta por muitas dessas atividades. O governo alemão arca com grande parte do orçamento anual da Associação Cáritas da Alemanha, estimado em 45 bilhões de euros, enquanto a Igreja Católica arca com apenas uma fração.

Em diretrizes publicadas em 15 de março, o conselho financeiro diocesano da cidade bávara de Regensburg, que administra os ativos da sé episcopal, até mesmo especifica que condições devem ser atendidas antes que contribua financeiramente para a reforma de abrigos e jardins de infância dirigidos pela Igreja – especificamente que só contribuirá se o governo local “concordar contratualmente a pagar” dois terços dos custos totais e estiver disposto a garantir o pagamento de pelo menos 80% do custo do déficit operacional potencial por “pelo menos 25 anos”.

Aparentemente a diocese está apenas interessada em jardins de infância dirigidos pela Igreja se o governo assumir grande parte do custo. Isso significa que a diocese abandonaria rapidamente seus cuidados compassivos pelos filhos de Deus se os recursos públicos secassem? Em outras dioceses alemãs, hospitais, escolas e asilos católicos são totalmente financiados pelo governo.

A Igreja não paga impostos e não é supervisionada

Em troca, a Igreja não é nem mesma obrigada a pagar impostos: nenhum imposto sobre imóvel, nenhum imposto corporativo e nenhum imposto sobre ganhos de capital. Tudo o que ela faz como uma corporação pública na Alemanha é considerado caridade, isenta de impostos. Diferente de outras corporações públicas como universidades, a Igreja não está sujeita a qualquer supervisão do Estado.

Segundo a lei da igreja, “A Igreja Católica tem o direito inerente, independente do poder secular, de adquirir, possuir, administrar e vender ativos para atender seus próprios propósitos”. Defender esse “direito inerente” e os bilhões que o acompanham é uma das principais funções dos bispos.

Estruturas financeiras complexas e caixa secreto apenas se tornam mais visíveis ao público quando administradores traidores abusam deles.

Isso está particularmente evidente na Diocese de Limburg no momento. Há poucas semanas, o chefe da administração financeira da Igreja, que desviou cerca de 5 milhões de euros, foi sentenciado a mais de seis anos de prisão. O homem, que também era o diretor administrativo da congregação católica em Limburg, tinha livre acesso aos fundos da Igreja.

“O desfalque foi surpreendentemente fácil”, comentou o juiz. O problema só foi descoberto quando a diocese introduziu recentemente um novo sistema de contabilidade comercial. Até então, os bispos de Limburg e seus confidentes aparentemente podiam dispor dos fundos como achassem adequado. O atual bispo de Limburg, Franz-Peter Tebartz-van Elst, teve que reconhecer que erros foram cometidos durante as auditorias financeiras.

Um palácio digno de um príncipe

A diocese podia facilmente arcar com uma abordagem desatenta para com suas finanças, porque a sé episcopal parece ter muito dinheiro. Ela está atualmente planejando a construção de uma nova residência para o bispo, em parte com fundos da sé episcopal. Os moradores da pequena cidade se referem à colina acima de Limburg, onde o bispo viverá atrás dos altos muros de pedra de uma ex-propriedade aristocrática, como a “Acrópole”.

“Nosso bispo quer ser um príncipe de novo”, zombam os moradores locais. Em comparação, seu antecessor, o bispo Franz Kamphaus, escolheu viver modestamente em um apartamento de dois cômodos no seminário, em vez da velha residência do bispo, que ele entregou para uma família de refugiados etíopes por vários anos.

O que os arquitetos projetaram para Tebartz-van Elst na “Acrópole” é bem mais do que um apartamento generoso com uma capela própria. Como parte do projeto, os prédios adjacentes também exigirão reformas e adaptações extensas. Novos aposentos serão necessários para uma ordem de freiras que se mudará para cuidar de Sua Excelência. E como parte de um novo sistema de segurança para o museu da catedral, a mudança de uma das saídas de emergência do museu custará sozinha 1,5 milhão de euros. Como benefício adicional, será difícil perturbar o bispo em seu refúgio no futuro.

Enquanto isso, o bispo ordenou seus fiéis a seguirem o lema “poupar e reformar”. Limburg é uma das dioceses que estão cortando paróquias, missas e padres. Nas aldeias vizinhas, os fiéis estão trabalhando arduamente para coletar doações para o trabalho de manutenção mais urgente de suas igrejas. “A economia está acontecendo na base, enquanto a reforma ocorre em outro lugar”, diz Henny Toepfer, da divisão local do movimento de reforma “Nós Somos a Igreja”. Ela tem dificuldade em entender por que milhões de euros estão disponíveis para a nova residência, mas não para o pagamento dos ônibus que transportam os católicos idosos dos vilarejos para a missa.

A atração dos mercados financeiros

Há algum tempo, os vícios tradicionais da ostentação e desperdício ganharam a companhia de uma tentação moderna para os administradores financeiros das sés episcopais: a promessa de lucros nos mercados de capital globais.

Veja, por exemplo, Magdeburg. Na esperança de solucionar seus problemas financeiros, a diocese empobrecida, que também conta com relativamente poucos membros, criou uma empresa de ações chamada Gero AG. Para aumentar os ganhos com juros e juros compostos, o confidente do bispo Leo Nowak investiu em negócios imobiliários, em empresas de marinha mercante, usinas de biogás e até mesmo na controversa pesquisa de plantas transgênicas. Um padre na administração da diocese até mesmo abençoou a estufa que seria utilizada pelas plantas transgênicas, na esperança de que o pio investimento da Igreja prosperasse.

Hoje o bispo enfrenta um problema financeiro. Sua diocese alega ter perdido mais de 40 milhões de euros, enquanto a imprensa estima que os prejuízos sejam de 100 milhões de euros. Agora, o novo conselho executivo da Gero AG planeja reestruturar a rede em dificuldades de empresas e holdings. A corporação já processou seu ex-diretor administrativo por perdas.

Por que os príncipes da Igreja se recusam a prestar contas para suas congregações? E por que são tão cuidadosos em manter o governo, que os apoia tão generosamente, de fora de seus assuntos financeiros?

Um ex-porta-voz de uma diocese passou bastante tempo pensando nestas questões. Ele atribui os problemas atuais ao mundo pré-moderno de ordinários diocesanos e residências, que giram em torno de suas cortes reais. “Os bispos e prelados, com seus títulos pomposos, se sentem superiores em relação ao mundo ocidental e se protegem contra ele”, ele diz. “O confessionário está na igreja, não nos escritórios das autoridades fiscais.”

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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