"O Quirguistão está à beira do colapso", diz especialista alemã

Yassin Musharbash

  • VIKTOR DRACHEV /AFP

    Apesar da fronteira fechada, milhares de pessoas deixam as zonas de conflito do Quirguistão

    Apesar da fronteira fechada, milhares de pessoas deixam as zonas de conflito do Quirguistão

Com centenas de mortos e dezenas de milhares de refugiados, a violência étnica trouxe caos ao Quirguistão. A especialista em política da Ásia Central Andrea Schmitz contou ao Spiegel a história por trás dos ataques à minoria uzbeque e o governo de transição instável. 

Spiegel: As notícias do Quirguistão são perturbadoras. Oficialmente, 170 pessoas morreram nos confrontos violentos na última semana e outras fontes contabilizam mais de 700 mortos. Qual é a situação atual? 

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Schmitz: Os dados oficiais provavelmente subestimam o número de mortos, que deve ser consideravelmente mais alto. Eu não tenho os números exatos. A situação no momento é tão caótica que ninguém pode contar os mortos de forma confiável. 

Spiegel: Os relatos dizem que quase todos os mortos são da minoria uzbeque. 

Schmitz: Isso parece ser verdade. Contudo, dizem também que os que estão por trás da violência tentaram colocar quirguizes e uzbeques uns contra os outros. Mas a violência claramente se concentrou na minoria uzbeque. 

Spiegel: Alguns especulam que o ex-presidente Kurmanbek Bakiyev, que foi derrubado em abril, está por trás do levante. A senhora considera isso plausível? 

Schmitz: Não acho que Bakiyev, de seu exílio em Minsk, esteja em posição de ditar as cartas. Mas acredito firmemente que parte de sua rede e de seus seguidores –possivelmente junto com protagonistas de círculos de crime organizado – talvez tenha instigado a violência. Ficou claro que os defensores do ex-presidente não estão preparados para deixar ninguém assumir o poder ou os recursos. Além disso, há algumas evidências de vingança. Alguns uzbeques influentes, conhecidos por terem conexões com o tráfico de drogas, fizeram o erro de se posicionar na luta por poder, defendendo o governo interino e indo contra os seguidores de Bakiyev. Acho que os partidários de Bakiyev não os perdoaram por isso. 

Spiegel: Além de vingança, os confrontos também visam minar ou derrubar o governo de transição de Roza Otunbayeva? 

Schmitz: Absolutamente. A inquietação claramente visa criar caos e impedir o referendo sobre a nova Constituição, planejado para o final de junho. O problema do governo de transição é que não tem legitimidade e não está em posição de acalmar os ânimos. 

Spiegel: No momento, a situação parece ter se acalmado ligeiramente. 

Schmitz: Mas o perigo não passou. Assumo que os perpetradores dos pogroms tenham se recolhido para discutir como prosseguir. 

Spiegel: As agências de ajuda estão trabalhando com a premissa que centenas de milhares de uzbeques fugiram. Mas o Uzbequistão não abriu suas fronteiras. Por quê? 

Schmitz: A princípio, o Uzbequistão abriu as fronteiras, mas depois que 80.000 refugiados entraram no país, este pareceu incapaz de aceitar mais. Não é implausível. 

“A Rússia tem um papel neste conflito” 

Spiegel: Qual é o papel da Rússia? O governo de transição pediu a Moscou que interviesse, mas isso não aconteceu. 

Schmitz: A Rússia tem todo tipo de papel neste conflito. Neste momento, parece que o setor de administração de crise da Rússia só existe para fazer de conta, não em realidade. Isso também é evidente no debate dentro do corpo de segurança regional, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva, que é dominado pela Rússia e não consegue decidir enviar uma missão de paz. Só seria possível explicar isso por falta de soldados, falta de vontade política e falta de responsabilidade. Está se tornando cada vez mais claro que, nas emergências, você não pode depender da Rússia para administrar a crise. Moscou quer poder e influência, mas não está preparada a aceitar responsabilidade. 

Spiegel : Quais são as possíveis razões para o comedimento russo? 

Schmitz: A resistência a uma intervenção parece igualmente forte no Legislativo, no Executivo e entre o público em geral. Parte da razão é o medo de um segundo Afeganistão. Outra parte é a complexidade do predicamento do Quirguistão. Os riscos são considerados grandes demais. 

Spiegel: Quem mais pode ajudar? 

Schmitz: Quando outros não podem ajudar, normalmente recai sobre a ONU desempenhar o papel do Corpo de Bombeiros. Se a situação não melhorar, uma missão de paz sob o mandato da ONU provavelmente seria o passo mais sábio. A UE também é necessária, ao menos para assistência humanitária. 

Spiegel: Como você avaliaria o risco às repúblicas vizinhas? 

Schmitz: O risco atualmente não é muito alto, mas existe, por definição, por causa da instabilidade étnica no Quirguistão. Uma especulação preocupante é que aqueles que estão por trás da violência podem fazer uma aliança com terroristas islâmicos na região. Isso seria desastroso. 

Spiegel: Quais medidas realistas a senhora acredita que devem ser tomadas? 

Schmitz: Primeiro, assistência humanitária para os refugiados, feridos e traumatizados. Além disso, alimentos e assistência médica e proteção para a população. A Organização do Tratado de Segurança Coletiva prometeu trazer suprimentos para ajudar a estabilizar a área –combustível, por exemplo. Vamos esperar que aconteça. O Quirguistão precisa de toda a ajuda que puder ter. 

Spiegel: O referendo poderá ser feito conforme planejado? 

Schmitz: O governo de transição não tem legitimidade e controle sobre partes substanciais do aparato administrativo. No momento, o Quirguistão nem tem um Parlamento. O referendo, marcado para o final de junho, deve aliviar a situação. Mas sob as atuais circunstâncias, o referendo pode não ser representativo. A participação, especialmente no Sul, será baixa demais, então não faria sentido fazer um referendo. Talvez, portanto, seja mais inteligente adiar e colocar ênfase em restaurar o funcionamento do Estado. Afinal, o Quirguistão está atualmente à beira do colapso. 

Andrea Schmitz é especialista da Ásia Central do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e Segurança. Mais recentemente, publicou um artigo sobre as estratégias da Otan no Afeganistão afetam os Estados centrais asiáticos.

Tradutor: Deborah Weinberg

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