A democracia pode funcionar na Ásia Central?

Benjamin Bidder e Matthias Schepp

  • Viktor Drachev/AFP

    Mulher e crianças uzbeques cruzam cerca de separação na fronteira entre Quirguistão e o Uzbequistão

    Mulher e crianças uzbeques cruzam cerca de separação na fronteira entre Quirguistão e o Uzbequistão

O Quirguistão já foi considerado um modelo de democracia na Ásia Central. Mas agora o país parece ter se tornado ingovernável, e dezenas de milhares de seus moradores estão fugindo de lá após embates étnicos fatais. Seria isto o fim da democracia na região?

Jovens uzbeques, tadjiques, turcomanos e quirguizes estudam no campus da Universidade Central da Ásia, no Quirguistão, que está situada em um atraente prédio novo coberto com telhas vermelhas. A universidade une pessoas de uma região atormentada por profundas diferenças de natureza étnica, na qual as fronteiras às vezes cortam cidades ao meio, de maneira que os agricultores locais têm as suas casas em um país e as suas plantações em um outro.


A universidade fica em Tokmok, uma cidade pacífica no norte do Quirguistão, perto da fronteira com o Cazaquistão. Tokmok é uma ilha de harmonia étnica nesta região explosiva situada entre o Mar Cáspio e as montanhas Tian Shan. A Rússia, a China e os Estados Unidos vêm competindo pela influência nesta região nos últimos 20 anos. Chefes do narcotráfico usam a região como uma rota de fornecimento de drogas para a Europa Ocidental, enquanto grupos islamitas clandestinos procuram estabelecer lá um califado com um regime no estilo daquele adotado pelo Taleban. A região possui petróleo, gás, ouro e urânio.

Mas ela tem também uma bomba relógio que tiquetaqueia há muito tempo, na forma do fértil Vale Fergana, que o ditador soviético Joseph Stalin dividiu arbitrariamente entre uzbeques, quirguizes e tadjiques.

A universidade era um raio de esperança neste cenário. Mas agora os 55 mil moradores de Tokmok, especialmente nos bairros habitados pela minoria uzbeque, vivem com medo dos pogrons que têm abalado o sul do país.

Região fora do controle governamental

Abdimovlan Abdezov, um construtor e proprietário de restaurante uzbeque de 51 anos de idade, escondeu as suas caras peças de porcelana alemã, estacionou o seu automóvel Mercedes-Benz em uma garagem vigiada por guardas e mandou a mulher e os filhos para o exterior. Vizinhos quirguizes gritando “Fora, uzbeques” incendiaram o restaurante de Abdezov na primavera. “Basta uma única centelha para que tenhamos uma segunda Osh nas nossas mãos aqui”, diz ele com medo.

O governo central não controla mais Och, a segunda maior cidade do país. A presidente interina Roza Otunbayeva protestou em vão na semana passada, quando grupos descontrolados praticaram violência nas ruas de Och. Ela obrigou o seu predecessor corrupto, Kurmanbek Bakiyev, a deixar o cargo em abril, mas desde então Otunbayeva tem se mostrado relativamente impotente. Em vez de enviar uma quantidade suficiente de soldados leais ao governo para a região em crise, ela ordenou que panfletos com slogans pacifistas fossem lançados de aeronaves sobre a área conflagrada. Foi só na última sexta-feira que ela finalmente foi a Och.

Mas, àquela altura, segundo o gabinete da presidente, a violência já custara cerca de 2.000 vidas. Segundo analistas, dezenas de milhares de uzbeques teriam deixado o país. Enquanto isso, quirguizes que moram no Uzbequistão estão fugindo para o Quirguistão, país que é oficialmente conhecido como República Quirguize. A violência lá ameaça espalhar-se para outras partes da Ásia Central. Na última sexta-feira, em Moscou, foi revelado que o Ministério da Defesa russo pretende enviar tropas para proteger instalações estratégicas essenciais na região.

“Eu não preciso de democracia”


Enquanto isso, em Tokmok, Abdezov, o dono do restaurante incendiado, está tentando vender a sua propriedade danificada. Ele também deseja mudar-se para o Uzbequistão para começar uma vida nova lá, em um país que, ironicamente, é governado por um ditador, o presidente Islam Karimov, que eliminou a oposição ao seu governo, prendeu ativistas dos direitos humanos e assedia clérigos muçulmanos. O Quirguistão, que já foi chamado em algumas ocasiões de “a Suíça da Ásia Central”, foi considerado durante muito tempo um modelo de democracia na região. “Eu não preciso de democracia”, diz Abdezov. “O que eu quero é apenas segurança para a minha mulher e os meus filhos”.

O caos no Quirguistão parece comprovar que os autocratas nos países vizinhos tinham razão o tempo todo. Durante grande parte da sua história, a região só conheceu a estabilidade quando déspotas – primeiro Genghis Khan, depois os tsares russos e, finalmente, Stalin, que submeteu a região ao regime soviético – a controlaram com mão de ferro.

Massacres e cultos a personalidades


Karimov, 72, já foi o líder do Partido Comunista no Uzbequistão, que, com os seus 29 milhões de habitantes, é a nação mais populosa da Ásia Central. Em 2005, cerca de 1.500 pessoas teriam sido mortas quando forças de seguranças massacraram manifestantes em Andijon. Já o Tadjiquistão passou por uma sangrenta guerra civil e foi controlado durante muito tempo por quadrilhas de foras da lei. Atualmente, o seu presidente autocrata, Emomali Rahmon, comanda mais o país do que o governa. O Turcomenistão, com o seu bizarro culto à personalidade do seu líder, encontra-se em grande parte isolado do resto do mundo.

E, no Cazaquistão, que é rico em petróleo, o parlamento de partido único aprovou uma medida constitucional em 2007 que essencialmente transformou Nursultan Nazarbayev, 69, em presidente vitalício do país. Na semana passada, legisladores concederam a ele o título de “Líder da Nação”, eliminando assim a necessidade de futuras eleições. Agora é ilegal ofender Nazarbayev, cujo país tem atualmente uma cadeira na Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Ele ficou também imune a processos legais, o que é algo importante, porque possibilita a Nazarbayev, assim como a outros governantes da Ásia Central, bem como a suas famílias e aos seus clãs, enriquecer por meio do acesso que têm aos recursos naturais e a companhias importantes.

Esperanças frustradas

O Quirguistão foi por muito tempo o único país da Ásia Central a romper com este modelo. Embora o seu primeiro presidente, Askar Akayev, tenha se preocupado apenas consigo próprio, ele permitiu a existência de partidos de oposição. Em uma entrevista a “Der Spiegel” em 2000, Akayev disse que o seu sonho era criar uma versão moderna da Rota da Seda, ainda que ele tivesse assumido uma visão realista da situação, ao afirmar: “Se Marco Polo quisesse viajar hoje da Itália à China, passando pela nossa região, ele não teria a menor chance de sucesso, devido a todos os funcionários de alfândega, guardas de fronteira e exigências de vistos que estão atualmente em vigor”.

Mas após ter permanecido no poder durante 14 anos, Akayev foi retirado do cargo depois que ele e o seu clã caíram em desgraça. O Ocidente chegou até a apoiar o golpe de Estado.

“O sucessor dele, Bakiyev, constituiu-se em um grande retrocesso”, diz Edil Baisalov, um dos líderes da “Revolução das Tulipas”, conforme ficou conhecida a deposição de Akayev. Baisalov, de 32 anos, está sentado em um café no centro de Bishkek, a capital do Quirguistão. Ele afirma estar desapontado com o fato de ter fracassado duas vezes.

Pouco após a revolução, Baisalov conta que discutiu com Bakiyev, o novo homem forte do país, quando este censurou a imprensa, que o havia ajudado a chegar ao poder, e “saqueou o nosso pequeno Quirguistão”. Mas Baisalov conta que o que mais o irritou foi o fato de “os norte-americanos não terem se manifestado quando Bakiyev fraudou a eleição e assassinou membros da oposição”. Mas Washington necessitava do Quirguistão como base para a qual pudesse trazer suprimentos para a guerra que trava no Afeganistão. Ex-senadores norte-americanos, como Bob Dole, chegaram a integrar a diretoria de um banco que seria controlado por Maxim, o filho de Bakiyev.

O fracasso da democracia

Após a deposição de Bakiyev, Baisalov foi nomeado chefe de gabinete da presidente interina, Roza Otunbayeva, mas ele renunciou ao cargo apenas duas semanas depois. Otunbayeva deseja substituir o sistema presidencialista por uma democracia parlamentarista. É um objetivo nobre, mas seria esse o caminho correto para o Quirguistão? Baisalov diz que a sua ex-chefe nada fez para salvaguardar o seu poder.

A Ásia Central depara-se com um dilema. A democracia não parece funcionar por lá, mas é possível que os regimes autocráticos da região oprimam as suas populações por tanto tempo que corram o risco de serem varridos do poder por levantes populares ou pelos cada vez mais populares movimentos islâmicos clandestinos.
Neste momento, não existe nenhuma solução à vista.

 

Tradutor: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos