Arqueólogos encontram passagem para império viking

Matthias Schulz

  • Heiko Junge/AFP

    Foto de arquivo mostra um barco viking em museu viking de Oslo, Noruega

    Foto de arquivo mostra um barco viking em museu viking de Oslo, Noruega

Há um século, os arqueólogos vêm buscando uma passagem num muro construído pelos vikings no norte da Europa. Neste verão, encontraram. Os pesquisadores agora acreditam que a extensa barreira foi construída para proteger uma importante rota comercial.
Seus ataques vindos do nada em barcos longos e rápidos fizeram com que muitos chamassem os vikings de inventores da Blitzkrieg (a guerra-relâmpago alemã). “Como vespas selvagens”, diz uma descrição antiga, os vikings saquearam mosteiros e cidades inteiras da Irlanda à Espanha. O fato de que os vikings, que foram retratados de forma caricata nos quadrinhos, foram também construtores habilidosos é bem menos conhecido.

A prova pode ser vista no norte da Alemanha, não muito distante do Canal do Mar do Norte para o Báltico. Lá é possível maravilhar-se com a muralha gigante de 30 quilômetros que atravessa todo o Estado de Schleswig-Holstein. A construção massiva, chamada de Danevirke - “trabalho dos dinamarqueses” - é considerada a maior obra com terra no norte da Europa.

Os arqueólogos agora observaram mais de perto uma parte da construção – um muro de três metros de largura do século 8 próximo a Hedeby (conhecida como Haithabu em alemão). Ele foi construído inteiramente com pedras retiradas da região ao redor. Algumas delas são do tamanho de um punho, enquanto outras pesam até 100 quilos. “Os vikings coletaram milhões de rochas”, diz a arqueóloga Astrid Tummuscheit, que trabalha para o departamento de arqueologia do Estado de Schleswig-Holstein.

Posto alfandegário, pousada e bordel
Numa entrevista coletiva na sexta-feira (27), a equipe de Tummuscheit anunciou outra descoberta – que eles consideram “sensacional”. Os pesquisadores descobriram o único portão de travessia do Danevirke, um portal de cinco metros de largura. De acordo com escritos antigos, “carroças e homens a cavalo” costumavam passar pelo portão, chamado de “Wiglesdor”. Perto dele havia um posto alfandegário e uma pousada que incluía um bordel.

Há um século os arqueólogos sonhavam em encontrar este portão entre a Dinamarca e o império de Carlos Magno. Especialistas conheciam a localização aproximada, mas os arqueólogos não podiam escavar: havia uma antiga taverna no caminho. “O Café Truberg colocou freios em tudo”, diz Claus von Carnap-Bornheim, chefe do departamento de arqueologia de Schleswig Holstein.

As coisas só começaram a ir adiante quando o café faliu e foi comprado em 2008 com a ajuda da AP Møller-Fonds, um fundo que pertence a Arnold Maersk, dinamarquês de 97 anos que é dono da maior frota de contêineres do mundo. A companhia de energia E.on Hanse, subsidiária da E.on e responsável pelo norte da Alemanha, pagou para que o prédio fosse demolido e os arqueólogos puderam avançar. A nova descoberta também deve atrair uma atenção significativa ao norte da fronteira da Alemanha – o Danevirke é visto como um tesouro nacional na Dinamarca. A rainha Margrethe 2ª da Dinamarca visitou o local, assim como o príncipe Frederik.

Novos cálculos quanto à idade da construção indicam, entretanto, que as partes mais antigas do muro podem ter sido construídas pelos frísios, e não pelos dinamarqueses. Os arqueólogos agora acreditam que a pedra fundamental pode datar até do século 7.

Conhecidos pela pilhagem
Os frísios, que viveram na costa oeste do que hoje é a Dinamarca e em várias ilhas do Mar do Norte, lutavam pela supremacia na região com três outros povos: os dinamarqueses, os eslavos e os saxãos. “Era o Kosovo da Idade Média”, diz Carnap-Bornheim. No final, entretanto, foram os dinamarqueses que saíram vitoriosos. De acordo com registros contemporâneos, o rei Göttrik da Dinamarca ordenou em 808 que a fronteira de seu império com o dos saxõess fosse fortificada.

Mas por que fazer tamanho esforço? Para que os vikings empilharam milhões de toneladas de rochas em sua fronteira? Estruturas semelhantes de fortificação de fronteiras construídas pelos romanos ou a Grande Muralha da China foram construídas para se proteger de hordas de saqueadores. Mas no caso do Danevirke, os próprios construtores tinham fama de saquear. No século 8, a Dinamarca não tinha ruas de pedras nem casas de pedra. O rei pagão era protegido por guerreiros que usavam roupas de animais – os chamados “berserkers”.

Só os seus longos barcos eram tecnologicamente sofisticados – rápidos e leves e facilmente navegáveis. Eles permitiram aos dinamarqueses desenvolverem uma rede formidável de rotas de comércio. Eles viajavam pelos rios da Rússia até Bizâncio e navegavam o Atlântico Norte até a longínqua Islândia, Groenlândia e até o norte da América do Norte.

Comércio por terra
Mas havia um calcanhar de Aquiles nesse império comercial, e este se localizava em Hedeby. Para que os bens do leste fossem enviados para o oeste, eles precisavam cruzar a estreita faixa de terra na base da atual Dinamarca. Os comerciantes entravam no território pela baía de Schlei, até chegar a Hedeby, onde suas mercadorias eram descarregadas e enviadas por terra até o Rio Treene, a 18 quilômetros dali. Só então os bens podiam ser carregados em barcos e enviados pelo Mar do Norte.

Durante toda a duração dessa curta viagem por terra, os bens valiosos – incluindo ouro de Bizâncio, peles de urso de Novgorod e até estátuas de Buda da Índia – ficavam expostos a ataques. Foi para proteger essa importante artéria comercial que os arqueólogos hoje acreditam que foi construída a fortaleza de terra, pedras e tijolos. O Danevirk, em outras palavras, não era nada além de um escudo protetor para o comércio.

Nas próximas semanas, os arqueólogos pretendem escavar o portão recém-descoberto até o nível da antiga rua. Eles esperam encontrar antigas pedras de calçamento, dobradiças ou buracos onde ficavam os postes – os restos, talvez, de uma antiga passagem para a terra dos vikings.

Tradutor: Eloise De Vylder

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